Num contexto moderno líquido não há ligações permanentes, e as que assumimos temporariamente devem ser amarradas levemente, de forma a poderem ser desamarradas de novo, tão depressa e facilmente quanto possível, quando as circunstâncias mudam – como certamente acontecerá na nossa sociedade moderna líquida, vezes sem conta.
Assim definia Zygmunt Bauman, um dos mais influentes sociólogos dos nossos tempos, a fragilidade dos laços num mundo fluido onde se perderam âncoras, raízes, vínculos mais profundos e duradouros – afectivos, laborais, ideológicos –, tudo o que nos possa fixar ou impedir de acompanhar a permanente mutação, a que Bauman chamou modernidade líquida, em contraste com a modernidade sólida que a precedeu, assente em valores, ideologias e vínculos perenes. Como resultado, vivemos numa sociedade à deriva. Este desprendimento permite-nos correr atrás de tudo o que nos atrai, sem nos determos em nada, o que nos alimenta a insaciabilidade. A profusão é aliás uma tónica do nosso tempo, temos tudo a mais ao nosso alcance, coisas, ideias, informações, exemplos de outras vidas aparentemente exuberantes. Projectámos num consumo desenfreado expectativas de satisfação, e admiramo-nos quando este não nos faz sentir mais realizados. Por outro lado, falta-nos tempo e tranquilidade para processar – selecionar e digerir –, a quantidade louca de informação fragmentada que nos inunda a toda a hora.
O que ganhámos em liberdade, perdemos em segurança, e pese embora o facto da insatisfação ser o motor de qualquer evolução, falta-nos estabilidade para nos dar retaguarda e para nos permitir perspectivar o futuro, faltam-nos coordenadas para nos orientarmos, e falta-nos, acima de tudo, discernimento para selecionarmos entre tudo o que se nos oferece, aquilo de que precisamos, o que nos serve verdadeiramente, e coragem para descartar tudo o resto.
Num mundo minado pelo imediatismo, o facilitismo, o egoísmo que supostamente nos trariam mais tempo (para procurar outras coisas), e mais independência (para nos dedicarmos às nossas próprias necessidades e pequenos prazeres), esquecemos alguns factos importantes, entretanto desaprendidos, como a satisfação e o bem estar que retiramos de tudo o que é feito por nós, devagar e com amor, para nós mesmos ou para os outros.
A aliciante relação entre a liberdade e a felicidade talvez não esteja bem formulada, porque neste meio de águas tumultuosas em que nos vimos envolvidos, todos precisamos de boias onde nos apoiar de vez em quando para descansar e recuperar, o que pressupõe escolhas e compromissos assumidos. Lembro-me do Petit Princequando dizia que a escolha de uma flor pressupõe a renúncia a todas as outras, ou que somos responsáveis por aquilo que cativamos. É por aqui que, acredito, teremos de ir, investindo mais, mesmo sem qualquer garantia de retorno – a não ser o respeito por si mesmo e a felicidade que retiramos da autoestima –, se queremos construir qualquer coisa de constante neste tão inconstante mundo em que vivemos.
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