segunda-feira, 11 de novembro de 2019

L’Amour en plus

Au lieu d'instinct, ne vaudrait-il pas mieux parler d'une fabuleuse pression sociale pour que la femme ne puisse s'accomplir que dans la maternité?
Elisabeth Badinter - L'Amour en plus

Há quase quarenta anos, a filósofa e ensaísta francesa Elisabeth Badinter publicou um livro, altamente polémico na época e até hoje, em que pretendia desmistificar o conceito do instinto maternal inato, inquestionável nas espécies animais, mas porventura não tão transversal nos humanos. 
Através da análise da história da atitude maternal ao longo de três séculos (do século XVII ao século XX) Badinter constatou que o instinto maternal não só não era tão universal como se pretende, como se baseava muito numa construção social. Segundo ela, por quanto possa ser cruel imaginar, o amor que a mãe sente por um filho é um sentimento como qualquer outro, dependente das circunstâncias pode ou não existir, pode revelar-se forte ou frágil, pode privilegiar um filho ou abarcar todos por igual. Tudo depende da mãe, da sua história pessoal e da História – época, cultura, sociedade –, em que se insere. Assim sendo, o amor maternal não seria espontâneo, determinado pela natureza, não existiria por si só, seria um sentimento suplementar.
O que despoletou na autora o interesse por este estudo foi a atitude de tédio observada em muitas mães que acompanhavam os filhos nos parques. 
Em contraste com a geração que a precedeu –  em que, regra geral,  a mulher estava confinada à casa e à família –, estávamos numa época em que as mulheres eram incentivadas a estudar, a trabalhar, a ser financeiramente independentes. Uma época em que a profissão assumia um papel primordial, e a função maternal passava para segundo plano. Mas o modelo da mãe perfeita mantinha-se, o que gerava alguma ambivalência, porque se aquelas que sacrificavam uma carreira profissional para se dedicarem aos filhos se podiam sentir limitadas ou até frustradas, quem sacrificava os filhos para se dedicar a uma profissão também não o fazia sem algum sentimento de culpa.

Embora não subscreva totalmente a teoria de E.B., reconheço que o mérito e o sucesso deste livro terá sido o de libertar as mulheres da ideia de que, por instinto, todas deviam ser mães, e boas mães, desculpabilizando aquelas que procuram outras vias para se realizarem por não se sentirem vocacionadas, ou as que se descobrem desprovidas de uma orientação «instintiva» sobre o que devem fazer e quando, relativamente aos filhos. 

Também eu observei e observo muitas vezes mães para quem acompanhar os filhos nas suas brincadeiras é muito mais uma obrigação do que um prazer. Penaliza-me sobretudo ver mães, e pais (há que acrescentar), que no pouco tempo que supostamente dedicam ao acompanhamento das crianças no lazer estão literalmente colados aos seus smartphones. O que me leva (como há muitos anos levou E.B.) a pôr em causa esta sociedade que ontem como hoje continua a pressionar as mulheres, sob pena de serem de alguma forma estigmatizadas, a «realizarem-se» através da maternidade, a terem mais do que um filho, a amamentarem durante vários meses, criando dependências obrigatórias, quando para muitas delas tudo isto pode até ser contranatura. Seja porque dispensam vínculos definitivos, porque prezam a sua liberdade, porque nunca imaginaram o investimento físico e psíquico que implica e quando se apercebem já estão «encurraladas», ou simplesmente porque têm outras ambições. Dito isto, defendo, convictamente, o amor maternal como o único amor incondicional que conheço. Algumas mães, naturalmente mais dotadas, ou com um enquadramento e uma história pessoal mais amena, terão mais apetência e logo mais paciência e maior prazer em criar e acompanhar os filhos, mas acredito que qualquer mãe, mesmo a mais inapta, tenta dar e fazer o seu melhor. O problema é que tudo o que se faz por obrigação, dever moral, pressão social, etc., e não espontaneamente, por gosto e por amor, reflete-se no produto final. Neste caso na formação das crianças. O mundo ocidental precisa de crianças, mas precisa sobretudo de crianças conscientemente desejadas e genuinamente amadas.

Trinta anos depois da publicação de L’Amour en plus, Elisabeth Badinter fez um upgradedo livro, e publicou Le Conflit, la femme et la mère, em que analisa o tema no contexto da geração que se seguiu, quando por razões económicas, filosóficas e psicológicas se dá algum retrocesso no processo da emancipação feminina. 

A condição da mulher/mãe é hoje mais difícil do que na minha geração. Os empregos são mais precários, obrigando a esforços adicionais para os conquistar e manter, e a pressão social para que as mães se desdobrem e cumpram bem todas as suas funções intensificou-se. O papel complementar do pai, que seria vital para o equilíbrio destas mães exaustas, que para além do seu trabalho fora de casa, suportam muitas vezes sozinhas o trabalho e a responsabilidade da criação dos filhos, também não evoluiu como seria de esperar, e está longe de ser devidamente assumido.

Em nome da verdade, quanto mais não seja para que a mulher/mãe – que entre os modelos virtuais absurdos que lhe apresentam e o que consegue fazer, vai tendo a sua autoestima abalada –, se sinta pelo menos mais compreendida ou menos só, importa desculpabilizar quer aquelas que optam por se dedicar aos filhos, sacrificando uma carreira e a independência financeira, quer as que tentam conciliar uma profissão com as suas funções maternais (à custa de um esforço imenso, acompanhado muitas vezes de um sentimento de impotência), quer ainda as que assumidamente descartam a maternidade por não sentirem qualquer apelo nesse sentido. 

Importa sobretudo libertar qualquer mulher do modelo de mãe ideal de um filho perfeito, porque não existem, nem um, nem o outro. Somos todos eternos aprendizes e aprendemos todos (filhos com pais e pais com filhos) tropeçando e errando. E o que nos deverá incentivar como mães a continuar sempre, contra tudo e contra todos, não deverá ser nenhuma espécie de constrangimento social, nenhum estereótipo, mas simplesmente um sentimento adicional que não se explica, que cada uma desenvolve à sua medida e na sua forma, e que afinal não é mais do que o tal Amour en plus.

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