quarta-feira, 8 de novembro de 2017
Sobre a (in)segurança
Em frente à minha janela
tenho uma oliveira centenária, milenária, ou mesmo intemporal. O tronco grosso,
imenso, retorcido deixa-nos imaginar o peso da sua idade. Para além da beleza
estética desta escultura natural, os sulcos da casca contam-nos histórias
infindáveis.
Não nasceu aqui. Nasceu,
firmou raízes, cresceu e envelheceu no campo, entre outras oliveiras. Quis o
destino que um dia, já muito velha, tenham decidido transplantá-la, com mil
cuidados para não lhe ofenderem a vida. Contra todas as expectativas, voltou a
firmar raízes, e aqui renasceu. Rebentos tenros num tronco velho e enrugado.
Enquanto há vida, há esperança! Lições simples, básicas, essenciais.
Há uma relação
incontornável entre a segurança – as raízes que nos amparam –, e o florescer,
essa manifestação de vida, de esperança, de alegria.
Num mundo cada vez mais
desregrado, e mais dominado pela insegurança, a felicidade passou a ser um
conceito especulativo. Sinto toda esta tão actual euforia, esta tão artificial
necessidade de alardear uma alegria mal contida – utilizando as redes sociais
para a extravasar –, como uma forma de atordoamento, como forma de se iludir,
iludindo o mundo. As raízes que deveriam enquadrar e firmar estarão porventura
flutuantes, mas aparentemente todos, ou muitos, pairam à superfície
esvoaçantes, numa festa inconsequente!
Nada disto é
consistente, porque falta chão. O aqui e agora é bonito, mas também precisamos
do ontem e sobretudo do amanhã. A alegria, a profunda e duradoura, depende do
encanto, o encanto está ligado à esperança, a esperança assenta na segurança. E
não há volta a dar.
Um mundo perfeito
Por quanto se pretenda
não existe um mundo perfeito, pessoas perfeitas, relações perfeitas, famílias
perfeitas. Na vida tudo se articula a dois tempos, claro/escuro, e é o
contraste entre estes que permite distinguir o luminoso do sombrio, e apreciar
momentos mágicos, horas felizes, onde vislumbramos a perfeição, que no compasso
seguinte se esgueira por entre as nossas mãos, como um peixe escorregadio.
No entanto, na maior
parte da nossa existência somos movidos pela expectativa de uma mudança que
finalmente nos dará a conhecer a harmonia, a estabilidade, a felicidade plena.
Perceber que o nosso
tempo entrou em contagem decrescente, e que o almejado bem-estar – físico,
psíquico, económico – é ilusório e muito provavelmente não se irá concretizar,
é um choque que, na melhor das hipóteses, desmoraliza, na pior, paralisa.
Precisamos de chegar ao
pico da nossa montanha, e contemplar a panorâmica da vida até aqui, para o
constatar. Precisamos de convocar toda a nossa força anímica para reagir e não
deprimir.
Na minha infância e
juventude Outubro era um mês triste, o fim das férias e da liberdade, o fim do
Verão – a minha estação. Hoje é talvez o meu mês preferido, e o Outono, a minha
estação. Varrida a turbulência das férias, dos calores, do vaivém de gentes e carros,
a praia e o mar recuperam a sua integridade, e eu a minha, quando neles passeio
e mergulho. No campo há uma luminosidade que aquece sem ferir, e uma
tranquilidade que demove qualquer inquietação. Até as primeiras chuvas são bem
vindas, depois de uma longa canícula, asfixiante e paralisante.
Não há um mundo
perfeito, mas há olhares perfeitos. Exceptuando situações extremas, não são os
factos mas o olhar e a atitude, que definem a realidade. Passa por incidir o
olhar na beleza, na bondade, na alegria, no que se tem, no que corre bem, no
que simplesmente corre: acordar de manhã sem dores; ter capacidade nos
sentidos; autonomia nos movimentos; um tecto; um prato na mesa, e todo um mundo
por descobrir.
Haverá sempre tudo o que
nos falta, neste imenso mundo imperfeito. Por vezes falta-nos o essencial: o
amor e a esperança, mas até sem eles se consegue recriar a luz e a cor. A
genética pode ajudar, a educação também, mas o âmago desta atitude é feito de
trabalho, de força de vontade, de coragem, de fé.
Ao contrário do que se
quer muitas vezes fazer crer, o destino (ou a sorte, se assim lhe quisermos
chamar) não está nas nossas mãos, não somos nós, por mais que nos apliquemos,
que dobramos a sorte, é a sorte que nos molda. E, se não queremos naufragar, temos de nos adaptar constantemente ao vento e às
correntes das águas, navegando ao sabor, sem contrariar forças contra as quais
nada podemos, mantendo os sentidos alerta, olhando em frente, evitando
obstáculos, procurando pontos de apoio e toques de luz.
Outubro, Calendário ArtEdit
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