terça-feira, 18 de setembro de 2012

disorder


disorder


A folha em branco é sempre assustadora, qualquer que seja o meio com que me disponho a quebrar o seu alvor! Adio muitas vezes  a concretização de ideias só para evitar este primeiro embate, hélas, inevitável.
Vivemos tempos conturbados, de grande de desordem exterior e interior, que apelam à bagagem física e psíquica, à experiência, à coragem. Transversalmente todos se queixam, e relativamente todos se sentem atingidos, mas à minha volta, no círculo onde me movo, não vejo substanciais alterações nos hábitos e no modo de vida. Com mais ou menos queixas, no essencial mantêm o seu normal desafogo. Na minha vida, porém, uma viragem de 180º pôs-me de cabeça para baixo, em menos de três anos. A educação e a experiência preparam-me para qualquer cenário. Arregaço as mangas e vou à luta. Escavo e encontro dentro de mim reservas que me ajudam a manter-me à superfície, a reequilibrar-me depois de cada novo encontrão. Mas é um equilíbrio precário, que não se compadece com superficiais convívios sociais. Dispenso a compaixão, gostaria apenas que não me convidassem, que respeitassem o isolamento que me permite sobreviver psiquicamente, sem contudo ofender velhas amizades. Não se tratará nunca de inveja ou despeito, simplesmente deixei de pertencer ao meio onde sempre vivi. E quando forçada ao convívio sinto-me deslocada, fora do baralho, o que me remete ao silêncio ou a uma participação artificial, com recurso a uma energia que não posso desperdiçar. Sinto falta da partilha de experiências, que  faz parte do encanto da vida, mas noutro meio, noutro bando, porque este já não fala a minha língua, não trilha a minha estrada, nem reflete os meus problemas, não consegue compreender-me e por conseguinte não me transmite qualquer ânimo. O círculo de amigos faz-se ao longo de anos, o que nos une são caminhos comuns, mas quando estes divergem não é possível forçar reencontros, não é possível espelhar a nossa experiência nos outros, nem tão pouco improvisar novas relações. A única alternativa saudável é refugiar-me nos mais chegados, nos que me dispensem explicações, nos meus bichos, no meu jardim, nos meus livros, na música e, esporadicamente, numa folha em branco.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

memories and dreams!


You know you’ve reached middle age when your memories are stronger than your dreams!

Detestei fazer quarenta anos. Odiei chegar aos cinquenta. Curiosamente, avanço com uma insuspeitada tranquilidade e bonomia para os sessenta. Não porque tenha tido a vida, pessoal e profissional, que idealizei. Não porque me sinta verdadeiramente realizada. Não porque esteja disposta a sentar-me sobre a montanha que mal ou bem construi, e a contemplar passivamente o que ficou para trás. É verdade que as memórias ocupam já um enorme espaço no que penso e no que sinto. Todos aqueles, cada vez são mais, que cruzei, que me deixaram um pouco de si, e que não mais encontrarei, mais os que circunstancialmente fizeram parte de um período da minha vida para se evaporarem como miragens. Mas continuo a sonhar, e a acreditar que o melhor, o meu melhor, está ainda para vir. As pessoas, de um modo geral, desencantaram-me e desencantam-me vezes de mais, mas há mais vida para além dos desencontros.
Tendemos a existir por comparação com os outros, mas só existimos verdadeiramente quando compreendemos e aceitamos o que de mais profundo existe em cada um de nós, independentemente do mundo à nossa volta. E este reconhecimento desencadeia um despertar da consciência que se traduz num novo olhar, numa nova postura.

A insustentável leveza com que dobro mais uma década está enraizada numa aceitação honesta daquilo que sou. Hoje, aqui e agora. Não o que já fui. Não o que gostaria de ter sido. Não o que os outros porventura gostariam e esperariam que fosse. Mas o que realmente sou. Este assumir das nossas fraquezas, limitações, aspirações, transformações, exige coragem e tenacidade, mas traduz-se numa serenidade e confiança sem precedentes, que me dá uma redobrada força para enfrentar, sob nova perspetiva, as adversidades que não posso controlar e que insistem em vir ao meu encontro.

Depois de anos de noites atormentadas por problemas que não dependiam de mim, que ludibriava durante o dia, e me cercavam e asfixiavam no momento em que apagava a luz, começo finalmente a conseguir a fechar o ciclo de mais um dia procurando e concentrando-me num aspecto agradável e positivo que esse dia me tenha proporcionado. Pode parecer básico, mas não é. Nada mas difícil do que controlar o pensamento. São anos de treino e persistência. A milenar sabedoria oriental que o diga!  

sixty


quinta-feira, 17 de maio de 2012

small is beautiful!


small is beautiful!


Tenho-me lembrado ultimamente do livro Small is Beautiful que causou grande controversa no início dos anos 70, quando foi publicado. Trata-se de um ensaio de um economista britânico, Schumacher, que critica a abordagem do mundo ocidental face à crise de energia que dava então os seus primeiros sinais, e ao emergente conceito de globalização.
É um livro profético, e o meu pai, que também era um visionário, descobriu-o numa das suas viagens de trabalho e tornou-se um acérrimo defensor das suas ideias.
Defende-se, por exemplo, que há uma escala adequada para cada actividade; que o crescimento nem sempre é positivo; que maior não significa necessariamente melhor; e que o PIB, o crescimento e o consumo, não deveriam ser a referência do nosso bem-estar, em vez disso deveríamos trabalhar para obter o máximo bem-estar com o mínimo de consumo. Estávamos em 1973!
Vem-me a recordação do livro a propósito de profissionais em diferentes áreas que se tornaram excelentes no seu trabalho e depois diluíram a sua habilidade, inata e adquirida, na ambição e expansão, deitando a perder o seu valor. Cerca de 40 anos depois, prevalece a ideia absurda de que quem é bom e atingiu determinado estatuto, tem de expandir o seu negócio, e quanto mais «crescer» melhor. Esquecemo-nos de que como humanos que somos procuramos outros humanos com quem estabelecemos empatia e relações de confiança. E por muito que se possa tentar dar formação e transmitir o know-how há toda uma série de características pessoais que nos tornam únicos e não são transmissíveis. Até a receita de cozinha, por quanto possa ser rigorosa, muitas vezes não resulta igual, porque o resultado que a torna especial, são todos os ingredientes quantificados mais um toque de amor ou inspiração. Quando contrato os serviços de um dentista, de um veterinário, de uma professora de Pilates, faço uma escolha objectiva, é naquela pessoa que confio, e não numa instituição onde me apresentam os serviços de alguém, com quem posso ou não simpatizar, mas sobretudo que não escolhi.
Nem tudo é passível de crescer para além do que se consegue controlar e assumir pessoalmente, e a ambição facilmente leva a fugas em frente rumo ao precipício. 
O meu sentimento de saturação em relação a um mundo que se tornou estereotipado, vazio de alma e de inspiração, será, acredito, cada vez mais um sentimento global. Vamos sentir cada vez mais a falta do que é especial, único, porque como seres especiais e únicos que somos, só aí nos conseguiremos rever. 
Quantos anos precisaremos até compreender que small is beautiful?



sábado, 12 de maio de 2012

do silêncio/revelação .bernardo sassetti (ascent)

All one






Quando o cerco aperta reagimos de forma muito semelhante aos animais. Tendemos a isolarmo-nos na nossa ilha. Perdidos no espaço e no tempo, ao sabor do que nos espera.
À nossa volta gravitam problemas. Os mais complicados de gerir são os que nos tocam por «afinidade» não são nossos, mas são dos nossos, e deixam-nos impotentes. Não podemos vestir a pele do outro. Assumir a sua aflição. Vencer os seus temores ou terrores. Prever a sua reacção. Controlar o seu desfecho. Na passividade do único papel que nos é consentido, ser e estar, aqui, sempre, vivemos com redobrada inquietação qualquer mudança de vento, qualquer alteração no mar. Com os sentidos à flor da pele, num alerta constante e esgotante. 

terça-feira, 8 de maio de 2012

Maurice Sendak
Um dos maiores ilustradores de sempre. Que utilizava um mínimo de recursos materiais, zero de efeitos especias, e o máximo de talento. Foi sempre uma grande referência para mim. Morreu hoje aos 83 anos.

domingo, 25 de março de 2012

grieving

I am too alone in the world
And not alone enough
To make every moment holy.

Rainer Maria Rilke

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Células do coração




Se colocar duas células do coração vivas, de duas pessoas diferentes, numa placa de Petri, ao fim de algum tempo elas encontram e mantêm um terceiro batimento comum.
                                                 Molly Vass in Mark Nepo, The Book of Awakening


Este facto biológico está na origem de todos os relacionamentos. É a força impulsionadora que nos aproxima de estranhos, que nos leva a vencer hesitações para os abordar, que nos dá coragem para fazer ouvir a nossa voz, que nos incute curiosidade para ouvir a voz do outro, que nos dá humildade e sabedoria para nos moldarmos o suficiente para podermos pulsar em uníssono, com os outros… e com a vida!

EMPATIA






                                             Molly Vass in Mark Nepo, The Book of Awakening

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Unidade na diversidade

Passamos grande parte da nossa vida procurando e reforçando o que nos distingue dos outros, construindo o nosso lugar no mundo. Tarde ou nunca descobrimos um dia que muito mais importante do que o que nos separa é aquilo que nos une, a nossa origem comum, o cerne da vida para onde todos convergimos, único capaz de nos transmitir um tão necessário sentimento de pertença, que nos dá paz e nos torna íntegros.

Somos os galhos de uma árvore frondosa, singulares e únicos na nossa forma, mas profundamente iguais no mais íntimo do nosso ser. Qualquer que seja a forma como nos apresentamos e como nos movemos no mundo, para lá do que é visível, nos mais básicos sentimentos de alegria, tristeza, ilusão, desilusão, de aflição ou de medo, não somos diferentes, apenas divergimos no modo como os exprimimos, na voz que lhes damos e que depende da nossa sensibilidade, da nossa experiência e da cultura em que fomos educados.

Tal como os troncos da árvore, ao longo do nosso percurso vamos desenvolvendo afinidades, algumas são afinidades de sangue e resultam da derivação natural dos ramos, outras são afinidades de educação e cultura, outras ainda serão resultado de encontros casuais, temporários ou duradouros. No geral estabelecemos tipos de relacionamento diferentes, que em conjunto constituem o tecido da nossa vida.

Paradoxalmente, quanto mais compreendemos o que nos liga a todos e a tudo o que tem vida, quanto mais diluídos e integrados, mais especiais e diferentes nos sentiremos. A unidade na diversidade, que é uma das leis básicas da natureza, também nos rege a nós, mas para nos assumirmos e validarmos na nossa diversidade, temos antes de humildemente reconhecer o nosso ínfimo lugar no que nos une.

Durante os meus passeios, no campo ou à beira-mar, o calor do sol, o vento gélido, o canto dos pássaros, a luminosidade da atmosfera, as cores, as vozes e os cheiros da natureza, falam-me ao coração e tocam-me a alma, e o bem-estar que me proporcionam resulta desta ligação direta ao centro da vida, às minhas raízes, e da consequente sensação de pertença, de reencontro comigo mesma e com o meu lugar.  

Unidade na diversidade

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

ondas

Passei os verões da minha infância numa praia com um mar que inspirava respeito.
Nunca consegui dominar o medo que em mim despertava, e invejava os meus primos e tios que se lançavam mar adentro, sem hesitação, como se não houvesse amanhã.

Neste começo de ano que se vislumbra mais desafiante que nunca, perante a fúria com que as ondas rebentavam na costa, esta manhã veio-me à lembrança a sensação que misturava medo, orgulho, dever, que antecedia o momento em que seguia a tribo da família e, quanto mais não fosse para honrar os laços de sangue, mergulhava nas ondas. Não sem antes, consciente da desigualdade de forças, hesitar, avaliar, até finalmente me atrever. Difícil mesmo era entrar, vencer o medo e escolher o momento certo, já que ao mínimo erro de cálculo éramos arrastados num turbilhão infindável. Mas quando corria bem, e ultrapassávamos o purgatório, entrávamos no paraíso,  invadidos pelo prazer e o bem estar de flutuarmos na ondulação, e pela sensação de orgulho, por termos vencido, uma vez mais, o medo.

De uma forma alegórica continuamos pela vida fora a engolir temores e tremores para enfrentar ondas que nos desafiam e mares que nos podem devorar à mínima distração.
E o que nos faz ultrapassar a ansiedade, e soltar as amarrar da segurança para nos arriscarmos ao encontro do desconhecido, nem sempre parte da loucura que mais ou menos latente existe em todos nós, parte muito mais da consciencia de dever, ainda e também do prazer antecipado de nos superarmos nas nossas fragilidades e é sobretudo impulsinonado pela coragem.


Bom Ano!

onda

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Redescobrir!



A verdadeira viagem de descoberta consiste não na procura de novas paisagens, 
mas antes num novo olhar!

Marcel Proust