domingo, 2 de agosto de 2020

Agosto . Calendário ArteEdit 2020


Contracorrente


Não basta arrancar as ervas daninhas e cavar a terra.

Se quisermos rosas, teremos de plantar uma roseira.

Martin Seligman

 

À medida que a experiência se vai sedimentando, inevitavelmente (ou será desejavelmente?) vamos alterando critérios, reformulando o olhar.

 

Constato que o tempo tornou-me mais selectiva (basicamente, mobilizo-me para o que me interessa ou me dá prazer), tornou-me menos crítica com tudo o que é pequeno e superficial, e mais intolerante com as questões de fundo, estruturais. A crítica fácil e o sarcasmo, que me identificaram quase toda vida, perderam praticamente razão de ser.

 

O que me incomoda, agora e sempre, é a hipocrisia deste nosso mundo moderno e «civilizado», pautada pelo conceito do politicamente correcto, que lhe dá resguardo. A hipocrisia que de forma mais ou menos subtil parece fazer parte de um código de conduta, desde que se deixa a idade da inocência.

Incomoda-me o «modo catavento», e a ligeireza com que se passa da indiferença à afronta, e da afronta à indiferença. Mais toda a atitude extremista, fanática e radical, traduzida no fundamentalismo com que se enfrenta o que no mundo tem de mudar, mas que deveria ser feito de uma forma pacífica e equilibrada, até porque o equilíbrio é, justamente, o que nos falta, e nos conduziu a excessos.

Incomoda-me uma certa irresponsabilidade, que se reflecte em aspectos tão graves como na forma como se (des)educam as crianças, ou na leviandade com que se escolhem lideranças, sem esquecer as nossas falhas por omissão, muitas vezes por descrença, desencanto, cansaço, mas, mais das vezes, por puro comodismo.

 

A noção de que o tempo se está a esgotar torna-nos mais conscientes da nossa identidade.

No meu trabalho de jardineiro, escavo e arranco ervas daninhas, por outras palavras, não viro a cara para o lado perante os aspectos sórdidos do mundo, mas não os procuro nem os propago. Dentro do básico conceito segundo o qual o mal faz-nos mal, e gera o mal, enquanto o bem nos faz bem, e gera o bem, procuro e partilho a harmonia e a beleza, porque me dão alento, e porque acredito que, mesmo que sendo uma ínfima contribuição, podem ajudar a produzir o bálsamo de que o mundo tanto precisa. E é o que tento plantar.

 

Gosto, cada vez mais, do que é genuíno, de gente independente, inteligente e corajosa, capaz de defender as suas ideias e os seus princípios (sobretudo se o fizer de uma forma tranquila e construtiva), mesmo que em contracorrente, mesmo que tal remeta para o isolamento.

É o que me desintoxica e me dá esperança.


Agosto – Calendário ArtEdit 2020

sexta-feira, 10 de julho de 2020

Julho 2020 . Calendário ArtEdit 2020


Life review

Chega uma altura da vida, em que precisamos de aligeirar parte da carga que nos acompanha, e que se foi avolumando com os anos, para podermos continuar mais leves e mais livres. 


Entre outros, a nossa bagagem é feita de medos, inseguranças, dúvidas sobre o nosso valor e a nossa capacidade, que desde cedo e ao longo de todo o caminho, de forma explicita ou implícita, estão muitas vezes presentes, e dependentes da aceitação e aprovação dos outros.


Muita da nossa bagagem é feita de sentimentos de culpa. 

Com a mesma intensidade com que a nossa condição feminina nos leva a abraçar o mundo, a tomar conta do mundo, mortificamo-nos pelo o que não correu bem no nosso raio de alcance. 

E, como se a autocrítica não bastasse para nos penalizar, estaremos sempre vulneráveis a críticas fáceis, vindas de quem comungou da nossa experiência, mas teve outra percepção dos acontecimentos.


No momento em que paramos para analisar o que ficou para trás e nos trouxe até aqui, percebemos que não é justo, nem razoável, o fardo de responsabilidade que tantas vezes colocamos às costas. 


Antes de mais porque somos o resultado de uma educação, de um ambiente, de milhentas circunstâncias, para as quais não contribuímos, mas que, definitivamente, nos moldaram. 

Muito do que fomos e somos é uma consequência dos pais que tivemos, que por sua vez foram uma consequência dos seus próprios pais. E é esta herança, temperada a cada tempo com os acontecimentos próprios de cada vida, que recebemos e transmitimos aos nossos filhos, que a absorvem à sua maneira, tal como antes deles nós o fizemos, e antes de nós os nossos pais. 


Quando chegamos a um determinado patamar da vida percebemos, finalmente, que todos nós: avós, pais, filhos, fizemos em cada momento o melhor que soubemos, e o melhor que foi possível, o que deveria ser suficiente para nos desculpabilizar e nos tornar mais imunes a críticas.


Mas precisamos de muito tempo, e muito terreno desbravado, para lá chegar. Para nos desculpabilizarmos pelo que não pudemos fazer melhor ou diferente. Para revermos a vida com outro olhar, com outra compreensão e aceitação, a começar por nós próprios, e extensível a todos os que a integraram.

Junho 2020 . Calendário ArtEdit 2020


Somos muito mais do que uma classificação num papel

A escola, e a importância dos resultados escolares, é um tema que me é recorrentemente caro. Por um lado, porque não me lembro de me sentir feliz e integrada na escola até muito tarde. Por outro, porque revivi muitos dos meus problemas pessoais através dos meus filhos. No momento em que as minhas netas iniciam a escolaridade, já não dependem de mim as decisões, o que não me impede de me preocupar com a sua felicidade e o seu bem estar.

Atribui-se demasiada importância às notas escolares, e desde cedo, e até acabarem os estudos, pressionam-se, exacerbadamente, os miúdos para que obtenham bons resultados.
Não é que os resultados não sejam importantes, claro, mas não deveriam ser o mais importante, basta pensarmos o quanto as notas e os exames, que assumem uma gigantesca importância quando se é estudante, são efémeros no contexto de uma vida.

As boas classificações não são um inequívoco sinal de inteligência, ou de seres mais ou menos capazes. Nem sequer garantem a excelência na vida profissional. As notas indiciam força de vontade, determinação, dedicação e facilidade em memorizar, qualidades que vi surgir em miúdos completamente desinteressados na escola, quando finalmente encontram e se dedicam ao que lhes interessa.

Todos nascemos com qualidades e talentos naturais. E todos temos pontos fracos e pontos fortes. Talvez a abordagem da educação devesse ser diferente, e em vez da repreensão, por não se obter o resultado esperado em determinadas matérias – os pontos fracos –, fosse mais produtivo estimular a expressão dos pontos fortes.

O juízo dos professores e as notas escolares diluem-se e esfumam-se na vida de cada um, mas a confiança e a auto-estima são competências que se adquirem, ou não, muito cedo, e que farão toda a diferença no percurso daí para a frente.

Gosto muito deste excerto de uma entrevista feita a Agostinho da Silva, uma ideia que não só todo o educador devia ter sempre presente, como nos devia acompanhar toda a vida, sobretudo em momentos críticos, em que os alicerces tremem:

Cada pessoa que nasce deve ser orientada para não desanimar com o mundo que encontra à volta. Porque cada um de nós é um ente extraordinário, com lugar no céu das ideias; se nos soubermos lavar da lama que se nos pegou quando aparecemos na terra, seremos capazes de nos desenvolver, de reencontrar o que em nós é extraordinário, e transformaremos o mundo.                                                                                                        Agostinho da Silva, (Entrevista, 1985 – Dispersos, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1988)

Maio 2020 . Calendário ArtEdit 2020