sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Setembro Calendário Art Edit 2017


Competir

Uma das mais graves características dos nossos tempos é a paranoia da competição, que define cada um pela comparação com o outro. Na vida privada ou profissional avaliam-nos e avaliamo-nos não pelo que somos, tout court, mas pelo que somos em relação aos outros, aos que partilham a nossa órbita.

Desde cedo, os miúdos são pressionados para emergir na escola, liceu, universidade, a qualquer preço, sabendo que mais tarde serão classificados pela sociedade onde se inserem primeiro pelas competências académicas, depois pela apresentação de resultados práticos no trabalho e finalmente pelo poder de compra. O que até faria sentido se não tivéssemos com o exagero, e a necessidade/ambição de cumprir objectivos, criado uma sociedade egocêntrica, tremendamente egoísta, que esqueceu a importância das qualidades humanas, a começar pelo significado de compaixão, o sentimento que melhor nos define enquanto seres humanos, iguais entre iguais.

Estamos rodeados de gente com mais preparação técnica do que nunca, mas o mundo carece urgentemente não de crânios virados para o seu umbigo e focados na sua carreira, mas de seres humanos capazes de olhar e ver os outros e o ambiente à sua volta. Capazes de resgatar dentro de si todas as qualidades humanas congeladas quando, empurrados para a selva, se viram forçados a endurecer para sobreviver.

As consequências imediatas desta deturpação na formação e educação são, por um lado, a insegurança trazida por uma nova forma de guerra que usa como armas a surpresa, a traição e a indiscriminação de alvos e, por outro, as catástrofes resultantes de um secular desprezo pelo impacto das nossas acções no ambiente.

Quando, em 2006, Al Gore realizou o magnífico documentário Uma Verdade Inconveniente, ninguém interiorizou que as consequências do uso abusivo dos nossos recursos naturais nos cairiam em cima no dia seguinte. Começou com cheias, incêndios, tremores de terra, furações noutros continentes, mas o rastilho estava lançado e não tardou a chegar à Europa.
Muito está ainda por explicar, não tanto sobre a determinação das causas, mas sobre a extensão das consequências e, com ou sem ligação directa, contemplamos hoje, consternados e impotentes, o desmoronar do coração de Itália, a nossa herança cultural, entre tantas outras catástrofes.
No meio da aflição devemo-nos um acto de contrição não só pela impassividade perante as ameaças, mas sobretudo pela (de)formação educativa e cultural  humana que está por trás da escalada desenfreada, que conduziu ao impacto ambiental e ao resultado presente. Valores, interesses, objectivos, modos de pensar e de viver devem ser seriamente repensados, porque o futuro depende de um esforço conjunto, que obriga cada um a sair da sua microscópica zona de conforto, para contribuir para uma viragem global.


Retomando o tema, a competição que mais nos beneficia, será sempre a que travamos connosco, mas aprender a competir com os outros também pode ser uma mais valia, porque estimula e incentiva a dar mais e melhor. No entanto, ou conseguimos recuperar e incutir o conceito de «fair play»: do jogo limpo, com ética, justiça, respeito pelas regras e pelo adversário, ou a vitória terá sempre um sabor amargo. Competir, tal como se pratica hoje: cada um por si e para si, só pode conduzir à desagregação, e o futuro, real e muito pragmático, depende do oposto, depende da agregação, do esforço conjunto, da entreajuda: todos por todos e pelo mundo que partilhamos.