We waste so much energy trying to cover up who we are, when beneath every attitude is the want to be loved, and beneath every anger is a wound to be healed, and beneath every sadness is the fear that there will not be enough time.
Mark Nepo The Book of Awakening
É um tema que preferimos evitar, e no entanto é um sentimento mais ou menos presente, desde que nos lembramos de existir e até ao fim. Em crianças temos medo de não estar à altura da expectativa dos nossos pais, ou de não estar à altura do que esperam de nós na escola, e crescemos construindo muros e aprendendo a defender-nos. Este medo que de forma mais ou menos explícita, mais ou menos exacerbada nos acompanha, desenvolve-se no mais recôndito canto de cada um, e é sintomático de uma pressão social que define parâmetros, estabelece fasquias e pressupõe uma censura velada para quem não cumpre os requisitos. Como se fossemos todos iguais! Nada é mais absurdo, porque na fôrma pré-definida ajustar-se-ão naturalmente muito poucos, a maioria habituar-se-á desde cedo, e pela vida fora, a disfarçar ou a encobrir a sua natureza – do que gosta, o que quer, quem é –, para ir ao encontro do que julga que os outros esperam dela. Procuramos a aprovação, sempre. Precisamos de incentivos, sempre. Por trás de todos os gestos e todas as atitudes está o nosso desejo de ser amado. Tão simples quanto isto!
À medida que o tempo passa aprende-se a viver com o medo. Depois de perdida a veleidade de que o iremos dominar um dia, aprendemos a conviver com ele de uma forma mais pacífica. Há uma imagem de Marc Nepo, poeta americano, sobrevivente de um cancro, de que gosto muito: não podemos vencer o medo, tal como as árvores não vencem o vento, mas podemos aprender a deixar o medo passar por nós naturalmente, tal como as árvores fazem com o vento, sem lhe opor resistência, sem nos crisparmos e fecharmos, o que torna o processo mais suave.
O medo pode assumir formas aterrorizadoras, quando a nossa saúde está ameaçada.
Temos medo de morrer, de não ter tempo para o que nos propusemos cumprir, medo de abandonar aqueles que contam connosco, medo do sofrimento físico que possa estar para vir.
Numa sala de espera de uma clínica oncológica não há espaço para conversa, nem mesmo para troca de olhares, e menos ainda para qualquer esboço de sorriso. Todos os gestos são medidos e contidos, e reina o silêncio. Frágeis e transparentes, cada um tenta lidar com os seus demónios o melhor que consegue, e na solidão a que esta luta o remete fecha-se para o resto do mundo. Há chá, café, bolinhos, jornais do dia, televisões, para tentar amenizar o ambiente, mas só os acompanhantes usufruem destes extras. Tenta-se sobretudo passar despercebido, não ver, nem ser visto, numa atitude de timidez, ou vergonha, quase que de humilhação. Todos sabem a razão por que cada um ali está, mas é cada um por si. O cancro carrega consigo um estigma antigo e pesado, pelo que muitos o interiorizam e escondem enquanto podem, até onde podem. Parte do processo terá de ser vivido a sós – ninguém pode sofrer pelo outro, e há todo um trabalho solitário de consciencialização e adaptação –, mas depois é fundamental poder exteriorizar, falar abertamente, poder contar com a amizade e a solidariedade. Pressupõe coragem, quer para quem sai dos bastidores e se expõe, quer para quem está do outro lado e acolhe naturalmente, sem artifícios nem preconceitos.
O medo e a coragem, sempre tão próximos um do outro, e tão constantes nas nossas vidas!
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