segunda-feira, 11 de novembro de 2019
Probabilidade vs aceitabilidade
O «destino»e as suas tropas de guerrilha, os acidentes, decidem os conjuntos de escolhas com que se confrontam os artistas da vida. Mas é o «carácter»que decide as escolhas que são feitas.
O ambiente torna algumas escolhas mais prováveis do que outras. O carácter desafia essas probabilidades. Ele priva os acidentes da omnipotência que se acredita que eles tenham e que eles próprios afirmam ter. Entre a sua aceitação resignada e a decisão corajosa de desafiar a força das circunstâncias coloca-se o carácter. É o carácter do actor que submete as escolhas triunfalmente aprovadas no teste da«probabilidade»a outro teste, muito mais exigente, o da «aceitabilidade».
Zygmunt Bauman A Arte da Vida
Acredito que por trás de qualquer doença grave existe muitas vezes uma história traumática, mais ou menos prolongada, que suga a esperança, enquanto enfraquece as defesas naturais do organismo.
Os sintomas permitem identificar e tratar a doença, mas a precedê-los existem geralmente causas que permanecerão obscuras, muitas vezes insuspeitadas, e que em silêncio foram minando e devastando.
Morre-se de tristeza, de desencanto, de impotência, de cansaço, muito antes de aflorarem sintomas e soarem alarmes. Morre-se quando se perde a esperança. Estou a lembrar-me do livro de Viktor Frankl sobre o sentido da vida, inspirado na sua experiência durante o holocausto, em que explicava que aqueles que perdiam a esperança sucumbiam rapidamente.
E, no entanto, quando o cerco aperta e o céu escurece somos, regra geral, compelidos a reagir, é o carácter, a nossa arma pessoal, que em última instância decide se aceitamos pacificamente a nossa sorte ou reagimos contra as circunstâncias, e é impressionante a capacidade que temos de reinventar a esperança, às vezes tateando no meio do nada, e a força de que nos revestimos quando seguramos e seguimos esse fio ténue que nos pode reabilitar.
Não vivemos num mundo depressivo de trevas, nem tão pouco num meio eufórico de rosas. Somos um work in progressdo princípio ao fim. As circunstâncias ditam-nos os percalços, mas o que nos move é, tal como acontece com as plantas, a procura da luz.
Bauman começa e termina o seu livro AArte da Vidacitando Séneca: quando se trata de ver claramente o que torna a vida feliz (nós) tateamos em busca da luz, e acrescenta, dois milénios depois, não parecemos estar muito mais perto dessa luz do que os contemporâneos de Séneca. Continuamos a tatear. É nisso, em última instância que consiste a «arte da vida».
Ainda sobre a importância da vida social
Podemos não desejar viver cem anos, mas julgo que todos desejamos ter saúde enquanto por cá andamos. Quanto mais não seja para não depender dos outros.
Vivemos maioritariamente em cidades, onde mal conhecemos os vizinhos de patamar, quanto mais os habitantes do nosso prédio. Fechados em casulos, tentamos, precisamente, fazer o contrário do que seria benéfico para a nossa saúde: manter a distância e interagir o menos possível com o próximo. Cada um por si e Deus por todos!
Precisamos de tempo, dinheiro, energia para manter uma vida social activa. Regra geral, falta-nos tudo, ou quase tudo, isto, inseridos que estamos em máquinas que nos ditam o ritmo, as dependências, as prioridades, as despesas. O que é particularmente válido para as mulheres. Temos alma de bombeiro voluntário, sempre alerta e de serviço, prontas a acudir aos filhos, aos pais, aos maridos, aos netos e de volta, ainda e sempre, aos filhos.
Mas há um outro tipo de contacto social, a custo zero, igualmente, senão mais, proveitoso. Pessoalmente, sempre gostei de compensar a minha natural necessidade de isolamento conversando com quem cruzo diariamente. Na província, onde vivo há dois anos, é aliás muito comum entabular-se conversa. Faço-o espontaneamente, e sempre senti que me fazia bem, embora eu própria também esteja muitas vezes demasiado absorta nos meus problemas, e alheia ao que se passa à minha volta, para poder interagir com quem está à minha frente ou ao meu lado.
Um dos motivos para a diferença de esperança de vida feminina e masculina, está provavelmente na forma como as mulheres tendem a relacionar-se socialmente, e como tendem a cultivar as suas amizades pessoais, o que lhes pode reforçar um escudo biológico contra as doenças e o declínio. O outro motivo imagino que se prenda com o tal espírito de bombeiro, que nos torna úteis e activas durante mais tempo do que os nossos companheiros.
A falta de alguém com quem conversar é a principal queixa daqueles que deixam de ter «utilidade» social. As estatísticas dizem-nos que para cada pessoa haverá em média uma, duas, no máximo três outras com quem «acha» que pode contar, e que aqueles que se sentemsós (o que não é bem o mesmo do que viver só), têm o seu tempo de vida reduzido em 30% comparado com os seus pares. A solidão, até há pouco considerada um factor puramente subjectivo, afecta muito mais a imunidade do que se pensava, e o isolamento social tornou-se uma verdadeira ameaça para a saúde pública.
Paradoxalmente, se fisicamente se vive cada vez mais isolado, através das redes sociais encurtámos distâncias e podemos estar em permanente contacto uns com os outros. De facto, quem acompanhou o progresso ocupa hoje mais tempo on-line do que com qualquer outra actividade (incluindo dormir...), mas será que a interação digital produz um efeito semelhante ao contacto presencial? Tudo indica que não, já que o contacto pessoal liberta neurotransmissores que melhoram a autoconfiança e a sensação de segurança, reduzem o stress, induzem prazer, e é tudo isto que nos pode reforçar a imunidade.
O segredo de uma longa vida pode depender da vida social
Digital networks and screen media have the power to make the world seem much smaller. But when it comes to certain life-changing transformations, they’re no match for face-to-face.
Susan Pinker, The Village Effect: Why Face-to-face Contacts Matters
É curioso o facto de no mundo desenvolvido em geral, as mulheres viverem em média mais seis a oito anos do que os homens, mas a psicóloga canadiana Susan Pinker descobriu que há um lugar no mundo, em Villagrande, na ilha italiana da Sardenha, onde a esperança de vida dos seus cerca de 3000 habitantes não só é igual para os dois sexos, como existem dez vezes mais centenários do que em toda a América do Norte.
Intrigada, decidiu estudar quer os aspectos científicos, quer os hábitos de vida do lugar. Começando pelo perfil genético, descobriu que só concorre em 25% para este resultado, os restantes 75% relacionam-se com o estilo de vida. Depois considerou a possibilidade de poder depender de uma atitude positiva e de um temperamento alegre, mas ao entrevistar alguns dos centenários verificou que nem sempre eram pessoas prazenteiras. Por outro lado, observando os seus hábitos alimentares, constatou que a dieta (rica em massas e molhos) também não deveria estar na origem da longevidade. Ao tentar perceber qual seria o fator mais decisivo encontrou um estudo universitário americano que investigara, justamente, os índices que influenciam a longevidade, e que registara e analisara todos os aspectos relacionados com o estilo de vida de milhares de pessoas de meia-idade, ao longo de sete anos. Os resultados são surpreendentes, desde o indicador menos influente: o ar que respiramos, passando por aquilo que temos por decisivo, como uma alimentação regrada e o exercício físico, que afinal apenas contribuem moderadamente para vivermos mais tempo, chegando ao mais influente: as relações sociais, o quanto interagimos diariamente, e que tanto pode ser com quem nos está próximo afectivamente, como com aqueles que contactamos de passagem.
Pelo isolamento e pelo traçado da cidade – uma intrincada estrutura onde as casas se amontoam –, em Villagrande as pessoas vivem ainda com uma proximidade típica das vilas medievais. Resultado: todos se conhecem e se entreajudam. Ali tudo gira à volta da família, e dentro de cada família à volta dos mais velhos, os quais são considerados o centro da comunidade. Tratados com todas as deferências, nunca estão sós: familiares, amigos, vizinhos, vão passando, vão entrando, vão conversando, constantemente. Muito provavelmente, o segredo que mantém os moradores da ilha saudáveis dependerá exactamente da importância que os seus habitantes dão às relações pessoais e às interações cara-a-cara.
A evolução ditou-nos outros rumos. Ainda encontramos esta proximidade física nas aldeias rurais, mas não o respeito e a preocupação pelos mais velhos, que nas aldeias como na cidade acabam entregues a eles próprios, quando os mais novos partem em debandada. A família desagregou-se. É cada vez mais raro encontrar membros da família nuclear a viverem na mesma cidade, e podemos dar-nos por felizes enquanto os filhos ainda vivem no nosso país. O centro das atenções, com todos os direitos que, voluntária ou involuntariamente, lhe atribuímos, passou a ser privilégio de uma geração juvenil, para a qual o maior incentivo é o poder de compra, e o know-howque mais valoriza é o das novas tecnologias...! A solidão, muitas vezes emparceirada com a depressão, tornou-se um problema epidémico no mundo civilizado, começando a manifestar-se cada vez mais cedo (as crianças de hoje são super estimuladas pelo meio onde crescem, mas sofrem pela falta de atenção de pais emocionalmente pouco disponíveis), e com contornos de flagelo à medida que se envelhece. Iremos no bom caminho?
Sobre a importância da adaptabilidade
It is not the most intellectual of the species that survives; it is not the strongest that survives, but the species that survives is the one that is able to adapt to and to adjust best to the changing environment in which it finds itself.
Charles Darwin Origin of Species
Talvez raramente esta qualidade tenha sido tão importante como na época fluída e versátil em que vivemos. Pela rapidez com que tudo evolui, pela insegurança crescente a vários níveis, pela forma como, inesperadamente, de um momento para o outro, a vida pode ficar totalmente alterada.
Somos criaturas de hábitos, acomodamo-nos facilmente ao que tomamos por certo e adquirido, gostamos de programar para saber com o que contamos, porque é o que nos dá segurança. Como tal, reagimos mal ao imprevisto, responsável por muito stress e muita ansiedade.
Não está nas nossas mãos controlar o que nos espera (ao contrário do que nos querem fazer crer), e é sabido que se defende melhor quem melhor e mais depressa consegue moldar-se às alterações com que se depara.
Haverá alturas em que nos basta alguma flexibilidade, outras em que nos é exigida toda a força de vontade, mas a adaptabilidade é um recurso que deverá estar sempre presente, se nos queremos manter à tona de água.
No meio da fragilidade e da incerteza em que se vive, a preocupação em dotar os filhos de um Erasmus, de uma licenciatura, de uma pós-graduação que lhes garanta um bom emprego, tornou-se obsessiva. Desde cedo são-lhes definidos percursos, é-lhes incutida a noção (ou a ilusão) de que a sua felicidade dependerá do poder de compra, que por sua vez dependerá do seu grau académico. Desde cedo são induzidos muito mais na competição do que na cooperação, e admiramo-nos quando os vimos desabrochar para a vida frios, calculistas e desapegados.
E, no entanto, já hoje e cada vez mais assim será, qualidades como a resiliência, a flexibilidade, a versatilidade ou a adaptabilidade são as características que farão a diferença no sucesso, no trabalho ou na vida pessoal, onde quer que estejamos inseridos.
Tudo à nossa volta está a mudar de uma forma e a uma velocidade vertiginosas. Já não bastam os requisitos válidos até aqui (inteligência, preparação, dedicação) para garantir qualquer segurança no futuro. Precisamos de nos reinventar a cada passo, e de rever os objectivos com que educamos e preparamos as novas gerações.
Sobre o medo
We waste so much energy trying to cover up who we are, when beneath every attitude is the want to be loved, and beneath every anger is a wound to be healed, and beneath every sadness is the fear that there will not be enough time.
Mark Nepo The Book of Awakening
É um tema que preferimos evitar, e no entanto é um sentimento mais ou menos presente, desde que nos lembramos de existir e até ao fim. Em crianças temos medo de não estar à altura da expectativa dos nossos pais, ou de não estar à altura do que esperam de nós na escola, e crescemos construindo muros e aprendendo a defender-nos. Este medo que de forma mais ou menos explícita, mais ou menos exacerbada nos acompanha, desenvolve-se no mais recôndito canto de cada um, e é sintomático de uma pressão social que define parâmetros, estabelece fasquias e pressupõe uma censura velada para quem não cumpre os requisitos. Como se fossemos todos iguais! Nada é mais absurdo, porque na fôrma pré-definida ajustar-se-ão naturalmente muito poucos, a maioria habituar-se-á desde cedo, e pela vida fora, a disfarçar ou a encobrir a sua natureza – do que gosta, o que quer, quem é –, para ir ao encontro do que julga que os outros esperam dela. Procuramos a aprovação, sempre. Precisamos de incentivos, sempre. Por trás de todos os gestos e todas as atitudes está o nosso desejo de ser amado. Tão simples quanto isto!
À medida que o tempo passa aprende-se a viver com o medo. Depois de perdida a veleidade de que o iremos dominar um dia, aprendemos a conviver com ele de uma forma mais pacífica. Há uma imagem de Marc Nepo, poeta americano, sobrevivente de um cancro, de que gosto muito: não podemos vencer o medo, tal como as árvores não vencem o vento, mas podemos aprender a deixar o medo passar por nós naturalmente, tal como as árvores fazem com o vento, sem lhe opor resistência, sem nos crisparmos e fecharmos, o que torna o processo mais suave.
O medo pode assumir formas aterrorizadoras, quando a nossa saúde está ameaçada.
Temos medo de morrer, de não ter tempo para o que nos propusemos cumprir, medo de abandonar aqueles que contam connosco, medo do sofrimento físico que possa estar para vir.
Numa sala de espera de uma clínica oncológica não há espaço para conversa, nem mesmo para troca de olhares, e menos ainda para qualquer esboço de sorriso. Todos os gestos são medidos e contidos, e reina o silêncio. Frágeis e transparentes, cada um tenta lidar com os seus demónios o melhor que consegue, e na solidão a que esta luta o remete fecha-se para o resto do mundo. Há chá, café, bolinhos, jornais do dia, televisões, para tentar amenizar o ambiente, mas só os acompanhantes usufruem destes extras. Tenta-se sobretudo passar despercebido, não ver, nem ser visto, numa atitude de timidez, ou vergonha, quase que de humilhação. Todos sabem a razão por que cada um ali está, mas é cada um por si. O cancro carrega consigo um estigma antigo e pesado, pelo que muitos o interiorizam e escondem enquanto podem, até onde podem. Parte do processo terá de ser vivido a sós – ninguém pode sofrer pelo outro, e há todo um trabalho solitário de consciencialização e adaptação –, mas depois é fundamental poder exteriorizar, falar abertamente, poder contar com a amizade e a solidariedade. Pressupõe coragem, quer para quem sai dos bastidores e se expõe, quer para quem está do outro lado e acolhe naturalmente, sem artifícios nem preconceitos.
O medo e a coragem, sempre tão próximos um do outro, e tão constantes nas nossas vidas!
Sobre a inconstância do mundo
Num contexto moderno líquido não há ligações permanentes, e as que assumimos temporariamente devem ser amarradas levemente, de forma a poderem ser desamarradas de novo, tão depressa e facilmente quanto possível, quando as circunstâncias mudam – como certamente acontecerá na nossa sociedade moderna líquida, vezes sem conta.
Assim definia Zygmunt Bauman, um dos mais influentes sociólogos dos nossos tempos, a fragilidade dos laços num mundo fluido onde se perderam âncoras, raízes, vínculos mais profundos e duradouros – afectivos, laborais, ideológicos –, tudo o que nos possa fixar ou impedir de acompanhar a permanente mutação, a que Bauman chamou modernidade líquida, em contraste com a modernidade sólida que a precedeu, assente em valores, ideologias e vínculos perenes. Como resultado, vivemos numa sociedade à deriva. Este desprendimento permite-nos correr atrás de tudo o que nos atrai, sem nos determos em nada, o que nos alimenta a insaciabilidade. A profusão é aliás uma tónica do nosso tempo, temos tudo a mais ao nosso alcance, coisas, ideias, informações, exemplos de outras vidas aparentemente exuberantes. Projectámos num consumo desenfreado expectativas de satisfação, e admiramo-nos quando este não nos faz sentir mais realizados. Por outro lado, falta-nos tempo e tranquilidade para processar – selecionar e digerir –, a quantidade louca de informação fragmentada que nos inunda a toda a hora.
O que ganhámos em liberdade, perdemos em segurança, e pese embora o facto da insatisfação ser o motor de qualquer evolução, falta-nos estabilidade para nos dar retaguarda e para nos permitir perspectivar o futuro, faltam-nos coordenadas para nos orientarmos, e falta-nos, acima de tudo, discernimento para selecionarmos entre tudo o que se nos oferece, aquilo de que precisamos, o que nos serve verdadeiramente, e coragem para descartar tudo o resto.
Num mundo minado pelo imediatismo, o facilitismo, o egoísmo que supostamente nos trariam mais tempo (para procurar outras coisas), e mais independência (para nos dedicarmos às nossas próprias necessidades e pequenos prazeres), esquecemos alguns factos importantes, entretanto desaprendidos, como a satisfação e o bem estar que retiramos de tudo o que é feito por nós, devagar e com amor, para nós mesmos ou para os outros.
A aliciante relação entre a liberdade e a felicidade talvez não esteja bem formulada, porque neste meio de águas tumultuosas em que nos vimos envolvidos, todos precisamos de boias onde nos apoiar de vez em quando para descansar e recuperar, o que pressupõe escolhas e compromissos assumidos. Lembro-me do Petit Princequando dizia que a escolha de uma flor pressupõe a renúncia a todas as outras, ou que somos responsáveis por aquilo que cativamos. É por aqui que, acredito, teremos de ir, investindo mais, mesmo sem qualquer garantia de retorno – a não ser o respeito por si mesmo e a felicidade que retiramos da autoestima –, se queremos construir qualquer coisa de constante neste tão inconstante mundo em que vivemos.
Sobre a força de vontade
The will is not a given. We do not start out strong and free. Countless factors condition us: our genetic makeup, our life circumstances, our history, other forces unknown to us, our own brain. The will is a conquest.
Piero Ferruci Your Inner Will: Finding Personal Strength in Critical Times
Gosto de imaginar a força de vontade como um músculo que podemos cultivar e fortalecer. Basicamente a força de vontade é o que nos move. Quer seja para cumprir monótonas rotinas obrigatórias, ou para enfrentar imprevistos e adversidades. E é o que nos permite ter algum controlo sobre a nossa vida, não sobre os acontecimentos em si, que resultam muitas vezes de fatores que nos são estranhos, mas sobre a forma como lidamos com eles.
Uma vez vencida a inércia, tal como acontece com qualquer músculo trabalhado, a força gera força, ao mesmo tempo que estimula o ânimo e melhora a autoestima. Mas para desenvolvermos esta força interior precisamos de algum isolamento e de silêncio, que nos permita ouvir a nossa voz, reflectir sobre os acontecimentos, e nos convide a aprofundar as ideias.
É aqui que talvez tudo se complique, porque vivemos numa sociedade extremamente superficial, hipnotizados pela confusão, pela agitação e pelo barulho, onde tudo são fontes de distração e nada convida à introspecção.
Neste estranho mundo, a autonomia emocional, indispensável para construir qualquer fortaleza interior, é absorvida pelas mais recentes e compulsivas dependências como as redes sociais, os emails, as mensagens, os joguinhos virtuais, e todo o tipo de consultas na internet.
Qualquer coisa serve para evitar olhar o que temos em frente e, pior ainda, concentrar no que nos vai dentro. Neste quadro, que é o mais comum que encontramos para onde quer que nos voltemos, o silêncio é encarado com horror e a solidão como uma ameaça!
A força de vontade não é um dado adquirido, não nascemos fortes e livres. A força de vontade, como tudo o que é valioso, conquista-se. E cada vez que resistimos e ultrapassamos uma adversidade tornamo-nos mais fortes, mais conscientes das nossas capacidades, e a vida ganha nova dimensão.
O primado do bom gosto
Beauty is produced by the pleasing appearance and good taste of the whole, and by the dimensions of all the parts being duly proportioned to each other.
Vitruvius De architectura
A definição do que entendemos por bom gosto é subjectiva. Depende da educação e do ambiente em que se foi criado, depende de padrões culturais que dão as referências, que por sua vez ditam escolhas e preferências.
Para lá dos aspectos puramente estéticos, o conceito de bom gosto estende-se aos gestos, às atitudes e aos comportamentos. E quando tudo isto se conjuga de uma forma natural e perfeitamente harmoniosa, temos o primado do bom gosto.
Talvez tenha sido por contraste com tanto mau gosto (na estética como no comportamento) em que tropeço ultimamente, na rua ou na televisão, que de repente fiquei absolutamente fascinada com este casamento real em Inglaterra.
A Inglaterra tem a monarquia mais consistente e com mais categoria que conheço. Quando puxa dos seus galões é insuperável, e embora já tenha assistido a vários eventos memoráveis, nenhum me sensibilizou como este. Não envolveu mais meios do que os outros, nem teve mais pompa, muito pelo contrário, mas o que me tocou particularmente foi o cuidado posto em todos os pormenores, as surpresas inesperadas, e a justa dimensão e proporção relativa de todas as partes.
Começando pelo cenário: Windsor: um castelo mágico, integrado num parque maravilhoso, e pelos monumentais arranjos florais: milhares de rosas, peónias e miosótis a enquadrar a escadaria, os corredores, os arcos e a assinalar as entradas numa capela gótica deslumbrante.
O mais carismático dos netos da rainha de Inglaterra casava com uma igualmente carismática actriz americana, mestiça, divorciada, feminista, cuja família se faria representar unicamente pela mãe. O que terá obrigado a redobrados esforços para humanizar e conjugar o protocolo.
Esteticamente foi tudo irrepreensível, desde a escolha dos uniformes do noivo e do irmão, à forma como vinha arranjada a noiva – com uma simplicidade, uma qualidade e um equilíbrio raramente conseguidos, onde tudo se conjugava entre si e com ela, e que rematava com um modesto raminho de flores campestres, cândido, discreto e lindíssimo.
Nunca esquecerei a sua imagem a subir a escadaria da igreja, com um longo e etéreo véu em tule cujas pontas eram levantadas por dois pequeninos pajens vestidos de preto, que mais pareciam dois passarinhos. Primeiro quadro digno de uma fairy tale!
Dentro da igreja, um bando de mais oito «passarinhos», elas coroadas de rosas e com raminhos iguais ao da noiva, eles com os uniformes pretos, integrou e acompanhou o cortejo, que avançou ao som de Händel entoado por uma voz límpida de soprano.
À elegância estética juntou-se a elegância dos gestos, quando, na ausência do pai da noiva, o futuro rei, pai do noivo, de uma forma muito natural conduziu a noiva ao altar, enquanto a mãe dela, com muita classe na sua postura serena, continha visíveis emoções.
E depois, houve as escolhas musicais, os temas e as formas: um coro de gospel com as suas vozes quentes e aveludadas entoou um Stand by Me lindo, e um jovem talentoso violoncelista tocou Fauré e Schubert.
Para recordar ficará também a homilia inspirada de um bispo americano negro, que enalteceu o poder redentor do amor. E, claro, a felicidade e cumplicidade constantes dos noivos.
Mágico foi o cortejo na carruagem Landau, escoltada pelo regimento montado de cavalaria. A beleza e as cores dos uniformes conjugada com as cores dos cavalos, contrastando com os extensos relvados, e percorrendo as alamedas arborizadas dentro e fora das velhas muralhas, num dia particularmente luminoso.
Finalmente, para a posteridade ficarão as fotografias oficiais de família, em que um fotografo artista utilizou sabiamente, e com muita sensibilidade, as dez crianças (damas de honor e pajens) para criar verdadeiros quadros, onde até as toiletes das intervenientes harmonizavam na perfeição.
A vida não é um conto de fadas, como bem sabemos, e nem mesmo as realezas estão a salvo das tragédias, mas é importante podermos, de vez em quando, retemperar a alma com a Beleza, e perceber que o bom gosto continua a existir, mesmo que rareie (não por acaso convencionou-se associar a palavra ordinário e vulgar ao mau gosto...), o que o torna ainda mais apreciável e louvável.
Verdades inconvenientes
As for why so many people still resist what the facts clearly show, I think, in part, the reason is that the truth about the climate crisis is an inconvenient one that means we are going to have to change the way we live our lives.
Al Gore An Inconvenient Truth(2006)
Na natureza, com a sua capacidade de se transformar para reagir às agressões impostas, encontramos as maiores lições de adaptabilidade, resiliência, imaginação. Mas nós, humanos, muito menos dotados destas qualidades, temos grande dificuldade em implementar mudanças no nosso modo de vida.
Habituámo-nos a associar a qualidade de vida ao nível económico, e este ao consumo. Carros, telemóveis e afins de última geração, viagens, mais tudo o que se possa comprar. Mas orientámo-nos mal e rumámos na direcção errada, porque qualidade de vida é exactamente o que nos falta, a começar pelo ar contaminado que respiramos e pelos alimentos processados e desvirtuados que comemos.
As viagens, que já foram um privilégio de alguns, banalizaram-se. Hoje todos viajam, para todo o lado, constantemente. O que seria ótimo, se o turismo de massa que se faz hoje, em que tudo se processa em rebanho, pré-programado e com infinitos tempos de espera, não tivesse destruído completamente o encanto da descoberta do desconhecido. Visto de fora para dentro, as cidades, os portos, as vilas, que nos arrancavam do conforto de casa para as visitar e vivenciar, estão a ter progressivamente destruído justamente o que as tornava especiais e atraentes outrora. Visto de dentro para fora, em nome de interesses económicos de alguns, a vida de muitos (todos os invadidos) está a infernizar-se a olhos vistos. Especial destaque devem ter os cruzeiros transatlânticos, essa grande invenção das cidades flutuantes, que não só despejam quatro a sete mil pessoas de uma assentada, nalguns casos em portos onde a população local é inferior aos invasores..., como brindam os locais por onde passam com uma poluição vinte vezes superior aos centros de grandes cidades com tráfico intenso.
Em poucos anos, o desastre ambiental passou do nível de alerta –previsão, ameaça –, ao do toque dos sinos a rebate. Deixou de ser uma preocupação relativa a um futuro longínquo, de uma minoria alternativa (e incomodativa...), para se tornar um assunto na ordem do dia, uma verdade inconveniente, que mais ou menos directamente nos afecta a todos,
Independentemente das catástrofes naturais, a consequência mais visível do problema, temos cada vez mais poluição, mais alergias congénitas ou adquiridas, inúmeras intolerâncias alimentares, mais problemas respiratórios, mais vírus e maleitas desconhecidas, e mais cancros e doenças neuro-degenerativas, em pessoas cada vez mais novas.
Mas não tendo a milenar sabedoria da Natureza, e na dificuldade em reverter processos em curso ou alterar modos de vida, insistimos na opção da fuga em frente. Até quando?
L’Amour en plus
Au lieu d'instinct, ne vaudrait-il pas mieux parler d'une fabuleuse pression sociale pour que la femme ne puisse s'accomplir que dans la maternité?
Elisabeth Badinter - L'Amour en plus
Há quase quarenta anos, a filósofa e ensaísta francesa Elisabeth Badinter publicou um livro, altamente polémico na época e até hoje, em que pretendia desmistificar o conceito do instinto maternal inato, inquestionável nas espécies animais, mas porventura não tão transversal nos humanos.
Através da análise da história da atitude maternal ao longo de três séculos (do século XVII ao século XX) Badinter constatou que o instinto maternal não só não era tão universal como se pretende, como se baseava muito numa construção social. Segundo ela, por quanto possa ser cruel imaginar, o amor que a mãe sente por um filho é um sentimento como qualquer outro, dependente das circunstâncias pode ou não existir, pode revelar-se forte ou frágil, pode privilegiar um filho ou abarcar todos por igual. Tudo depende da mãe, da sua história pessoal e da História – época, cultura, sociedade –, em que se insere. Assim sendo, o amor maternal não seria espontâneo, determinado pela natureza, não existiria por si só, seria um sentimento suplementar.
O que despoletou na autora o interesse por este estudo foi a atitude de tédio observada em muitas mães que acompanhavam os filhos nos parques.
Em contraste com a geração que a precedeu – em que, regra geral, a mulher estava confinada à casa e à família –, estávamos numa época em que as mulheres eram incentivadas a estudar, a trabalhar, a ser financeiramente independentes. Uma época em que a profissão assumia um papel primordial, e a função maternal passava para segundo plano. Mas o modelo da mãe perfeita mantinha-se, o que gerava alguma ambivalência, porque se aquelas que sacrificavam uma carreira profissional para se dedicarem aos filhos se podiam sentir limitadas ou até frustradas, quem sacrificava os filhos para se dedicar a uma profissão também não o fazia sem algum sentimento de culpa.
Embora não subscreva totalmente a teoria de E.B., reconheço que o mérito e o sucesso deste livro terá sido o de libertar as mulheres da ideia de que, por instinto, todas deviam ser mães, e boas mães, desculpabilizando aquelas que procuram outras vias para se realizarem por não se sentirem vocacionadas, ou as que se descobrem desprovidas de uma orientação «instintiva» sobre o que devem fazer e quando, relativamente aos filhos.
Também eu observei e observo muitas vezes mães para quem acompanhar os filhos nas suas brincadeiras é muito mais uma obrigação do que um prazer. Penaliza-me sobretudo ver mães, e pais (há que acrescentar), que no pouco tempo que supostamente dedicam ao acompanhamento das crianças no lazer estão literalmente colados aos seus smartphones. O que me leva (como há muitos anos levou E.B.) a pôr em causa esta sociedade que ontem como hoje continua a pressionar as mulheres, sob pena de serem de alguma forma estigmatizadas, a «realizarem-se» através da maternidade, a terem mais do que um filho, a amamentarem durante vários meses, criando dependências obrigatórias, quando para muitas delas tudo isto pode até ser contranatura. Seja porque dispensam vínculos definitivos, porque prezam a sua liberdade, porque nunca imaginaram o investimento físico e psíquico que implica e quando se apercebem já estão «encurraladas», ou simplesmente porque têm outras ambições. Dito isto, defendo, convictamente, o amor maternal como o único amor incondicional que conheço. Algumas mães, naturalmente mais dotadas, ou com um enquadramento e uma história pessoal mais amena, terão mais apetência e logo mais paciência e maior prazer em criar e acompanhar os filhos, mas acredito que qualquer mãe, mesmo a mais inapta, tenta dar e fazer o seu melhor. O problema é que tudo o que se faz por obrigação, dever moral, pressão social, etc., e não espontaneamente, por gosto e por amor, reflete-se no produto final. Neste caso na formação das crianças. O mundo ocidental precisa de crianças, mas precisa sobretudo de crianças conscientemente desejadas e genuinamente amadas.
Trinta anos depois da publicação de L’Amour en plus, Elisabeth Badinter fez um upgradedo livro, e publicou Le Conflit, la femme et la mère, em que analisa o tema no contexto da geração que se seguiu, quando por razões económicas, filosóficas e psicológicas se dá algum retrocesso no processo da emancipação feminina.
A condição da mulher/mãe é hoje mais difícil do que na minha geração. Os empregos são mais precários, obrigando a esforços adicionais para os conquistar e manter, e a pressão social para que as mães se desdobrem e cumpram bem todas as suas funções intensificou-se. O papel complementar do pai, que seria vital para o equilíbrio destas mães exaustas, que para além do seu trabalho fora de casa, suportam muitas vezes sozinhas o trabalho e a responsabilidade da criação dos filhos, também não evoluiu como seria de esperar, e está longe de ser devidamente assumido.
Em nome da verdade, quanto mais não seja para que a mulher/mãe – que entre os modelos virtuais absurdos que lhe apresentam e o que consegue fazer, vai tendo a sua autoestima abalada –, se sinta pelo menos mais compreendida ou menos só, importa desculpabilizar quer aquelas que optam por se dedicar aos filhos, sacrificando uma carreira e a independência financeira, quer as que tentam conciliar uma profissão com as suas funções maternais (à custa de um esforço imenso, acompanhado muitas vezes de um sentimento de impotência), quer ainda as que assumidamente descartam a maternidade por não sentirem qualquer apelo nesse sentido.
Importa sobretudo libertar qualquer mulher do modelo de mãe ideal de um filho perfeito, porque não existem, nem um, nem o outro. Somos todos eternos aprendizes e aprendemos todos (filhos com pais e pais com filhos) tropeçando e errando. E o que nos deverá incentivar como mães a continuar sempre, contra tudo e contra todos, não deverá ser nenhuma espécie de constrangimento social, nenhum estereótipo, mas simplesmente um sentimento adicional que não se explica, que cada uma desenvolve à sua medida e na sua forma, e que afinal não é mais do que o tal Amour en plus.
Sobre o sonho e a realidade
O mais importante a aprender nesta vida não é ser invencível e perfeito, mas sim saber ser como somos; invencivelmente frágeis e imperfeitos.
(Sens et Essence de Vie)
Não deveria ser preciso (e não o será para muitos) bater de frente na parede para acordar para o essencial. E sempre me pareceu um tanto ou quanto cínico exaltar os benefícios das grandes provações que abrem portas, ou forçam aberturas, que permitem vislumbrar novos caminhos.
Nenhuma provação é desejável, em circunstância alguma, mas a atitude com que a enfrentamos quando nos toca – basicamente a desdramatização –, pode (deve) obrigar a parar ou a abrandar a corrida que nos arrasta tantas vezes à toa. O que permite recuo para, com um olhar mais abrangente, reequacionar prioridades, redimensionar problemas, e sobretudo trocar a contínua procura, nunca satisfeita – de mais, melhor, diferente –, pela satisfação e gratidão por tudo o que temos.
Boa parte (ou a totalidade) da vida corre em dois carris paralelos, a vida real de um lado e a sonhada do outro. A eventual aproximação dos dois percursos pode acontecer quando conseguimos aceitar o que fomos e somos e o que tivemos e temos, com todas as imperfeições e fragilidades inerentes, de uma forma profunda e honesta. Só então é possível projectar e fundir as nossas expectativas, na nossa realidade. Aparentemente nada mudou na nossa vida, sonhada e realizada, mas, na verdade, com isto conquista-se uma serenidade que nem sabíamos possível, e o mundo ganha outro brilho, literalmente.
quarta-feira, 2 de janeiro de 2019
Beleza e Natureza como terapias Calendário ArtEdit 2019
Arquitectura como escultura. Arquitectura como beleza. Beleza como terapia. Estivemos também tentados a usar a Natureza como terapia. A presença da Água, o Céu. A bênção da Floresta Tropical, fazendo-nos lembrar a fecundidade infinita da natureza e o seu poder para nos curar.
Charles Correa
Tais foram as premissas do genial arquitecto indiano que concebeu uma das clínicas mais bonitas do mundo. E tais palavras fizeram pleno sentido no momento em que, depois de uma cirurgia, me colocaram num quarto frente a uma enorme janela que enquadrava o pôr do sol no rio. Estávamos no Outono. A tranquilidade do entardecer, a luz e a cor refletidas nas águas, o suave movimento dos barcos, as gaivotas a pousar na varanda. A força da vida devolvendo-me força, a beleza e a serenidade da atmosfera pacificando-me o corpo e a alma. Não há químicos que possam igualar ou superar o efeito desta experiência. E, pasme-se, raramente me senti tão abençoada.
Dezassete e dezoito são anos em que enfrentei e ultrapassei um cancro. E se o fiz de uma forma tão amena foi, antes de mais, pela natureza pouco agressiva do mesmo, mas muito também pelo privilégio de ser tratada num ambiente de uma beleza terapêutica por excelência.
A experiência de um cancro é transformadora, ninguém passa por ele de forma casual, ninguém sai dele inalterado (consciente ou não). Alguns ficarão assombrados ou condicionados para sempre, outros sairão reformulados. Para todos haverá um antes e um depois. No momento em que termino o meu tratamento, e começo a redigir o próximo calendário, sei que muito do que escreverei andará à volta das reflexões em que fui induzida neste período, e de reformulações resultantes das mesmas. Acredito que ao escrever e divulgar não estou só a partilhar uma experiência pessoal, estou também a contribuir para quebrar tabus que discriminam e isolam, e para resgatar vozes de quem, em silêncio, trilhou caminhos semelhantes.
A esfera da inspiração Calendário ArtEdit 2018
Le persone con cui i nostri cammini si incrociano lasciano cadere dei semi dentro di noi, e questi semi magari anche dopo molto tempo germogliano e diventano alberi immensi.
Piero Ferrucci Le Sfere di Indra
Em Outubro de 2013, cerca de oito mil budistas vindos de todo o mundo concentraram-se em Cascais, para durante uma semana celebrarem um festival anual. Ninguém se apercebeu do evento até à véspera da abertura, quando milhares de monges e monjas budistas começaram a chegar e a «tomar de assalto» a vila, em pequenos grupos ou sozinhos. Para além do exótico dos seus trajes no nosso cenário, o que me impressionou desde logo foi a sua expressão. Serenos e sorridentes, contrastavam de tal modo com o nosso ambiente cinzento, chuvoso, desesperançado e tristonho, com a nossa barulhenta e atordoada aceleração, que mais parecia estarem a chegar de um outro planeta. Impossível passarem despercebidos, além dos trajes havia qualquer coisa neles que se propagava como um manto de paz e felicidade à sua passagem.
Sei que sou suspeita, porque desde sempre a filosofia oriental exerce sobre mim um enorme fascínio, por isso vou falando com uns e com outros, com gente simples, que nunca ouviu falar em budismo, para sentir se também eles partilham a minha percepção da energia positiva que esta gente transporta e espalha. Ninguém parece ficar indiferente a estes monges que se alojam por todo o lado num raio de 5 ou mais quilómetros, percorridos a pé de cá para lá, que entram nos nossos cafés, restaurantes, supermercados, que invadem as nossas vidas quotidianas. A curiosidade aproxima-me do recinto onde decorre o festival. O hipódromo de Cascais foi invadido por uma organização de autênticas formigas, ordeiras e disciplinadas, que ergueram tendas monumentais, templos, recepções, restaurantes, lojas, casas de banho, etc. tudo cuidadosamente previsto e mantido. A segurança vigia todas as entradas, mas é possível observar cá de cima a ordem e a calma com que milhares de pessoas se movimentam neste espaço.
Uma das participantes, que também faz parte da organização, está alojada numa casa de hóspedes de um irmão meu. Convenço-o a interceder junto dela para poder assistir a uma palestra. Aceita na condição de previamente se encontrar comigo para me conhecer, leia-se para me testar e compreender as minhas verdadeiras intenções. Kay é uma irlandesa de cerca de sessenta anos que em dada altura da sua vida trocou a religião católica com que foi educada pelo budismo. Há doze anos que estuda e pratica com um mestre, mas considera-se uma principiante. Tomamos chá e, com a tranquilidade dos que abraçaram esta via, faz-me uma introdução ao budismo. Enquanto a oiço falar, recordo a expressão de felicidade das pessoas que cruzei nos últimos dias e o tom baixo e suave das suas vozes.
A tão desejada participação numa palestra de um reputado mestre revelou-se afinal muito pouco interessante para mim. A complexidade das ideias, juntamente com o inglês imperceptível do velho monge tibetano, mais a decoração e os aromas do ambiente, em nada me seduziram. Dir-se-ia que a minha experiência com o budismo ficou por aqui.
Alguns anos depois, no momento de começar a pintar o meu calendário, apercebi-me que a aceleração e atropelo habituais tinham cedido lugar a uma tranquilidade e uma alegria inéditas, e o resultado foi o calendário mais bonito e que mais prazer me deu produzir em dez anos. Lembrei-me da lição dos budistas, que finalmente frutificava, que se traduz numa atitude calma de humildade, respeito e encantamento perante o que se nos depara, e que se propaga ao que fazemos. É esta abordagem da vida que produz o que os orientais chamam estado zen, uma sensação de paz, harmonia, contentamento, porque o que damos recebemos, na mesma onda, ao mesmo ritmo, com a mesma intensidade.
Somos o somatório de múltiplas contribuições dos que cruzámos, pessoalmente ou através das suas obras, e que nos deixaram qualquer coisa de si, que pode não desencadear uma reacção imediata, mas um dia, quando menos esperamos, irá germinar numa flor singela ou, quem sabe, numa árvore esplendorosa. Faz parte do encanto desta esfera de inspiração, onde damos e recebemos constantemente e até ao fim.
Cegonhas Calendário ArtEdit 2018
Animal lovers are a special breed of humans, generous of spirit, full of empathy, perhaps a little prone to sentimentality, and with hearts as big as a cloudless sky.
John Grogan Marley and Me
Quando há trinta e cinco anos vim viver para o Alentejo o espaço que seria o nosso era um monte de destroços resultante de cinco anos de uma ocupação selvática. Exceptuando a própria casa, que sabe-se lá porquê salvaguardaram, tudo o mais foi utilizado até deixar de funcionar, e subsequentemente abandonado. A herdade foi-nos entregue quando já não havia uma máquina, um tractor ou um gerador que funcionasse, e durante o primeiro ano o trabalho foi não só limpar, recuperar e reequipar, como transformar todo o ambiente dando-lhe o nosso cunho pessoal, povoando o deserto alentejano com árvores e bicharada, e instituindo regras de respeito e protecção pela natureza até então totalmente desconhecidas. Apesar da incompreensão do nosso pessoal, a caça e os tiros foram banidos para convidar a passarada a regressar. Particularmente difícil foi fazer aceitar o respeito pelas cegonhas, por tradição mal vistas, detestadas e perseguidas. Foi pois uma emoção inesquecível assistir à construção do seu primeiro ninho, ainda que no topo de um silo, longe do alcance humano. A minha admiração pelas cegonhas começou aqui, observando a perseverança e o engenho com que construíam aquele ninho a mais de doze metros de altura, numa superfície redonda e escorregadia. O trabalho de equipa do casal, o esforço de carregar galhos enormes no bico, o cuidado a equilibrá-los, os sucessivos malogros, o recomeçar vezes sem fim até conseguirem segurar os primeiros galhos que serviriam de base a uma estrutura sólida e maravilhosamente bem arquitectada. Depois foi o chocar dos ovos à vez, até surgirem três cabeças pequeninas, e a criação repartida – enquanto um dos progenitores tomava conta das crias, ameaçando à distância quem se aproximasse, o outro caçava e trazia-lhes alimento –, até por fim os filhos se lançarem no ar atrás dos pais. Partiram todos juntos, para regressarem juntos no princípio da época seguinte. O primeiro ninho foi restaurado e outro ninho foi construído no silo do lado. E nunca mais parou. A cegonhas e os ninhos multiplicaram-se com os anos, cada vez mais baixo e perto de nós, no que foi talvez o primeiro santuário de cegonhas da região.
Anos mais tarde, sob pressão da Quercus, as cegonhas passaram a ser uma espécie protegida, com direito à construção de poleiros altos e estáveis para construírem os seus ninhos, e assim proliferaram nesta zona do Alentejo.
Já não existem os silos onde construíram os primeiros ninhos na nossa herdade, mas em compensação temos dezenas de outros ninhos por todo o lado, e a descendência daquele primeiro casal, que confiou em nós quando todos os hostilizavam, continua a regressar todos os anos para aqui se multiplicar.
Coragem, perseverança, engenho, adaptabilidade, entreajuda, verdadeira partilha de vida – do prazer e do dever–, e um extraordinário sentido de orientação, tudo isto me têm ensinado, ao longo dos anos, as cegonhas.
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