domingo, 8 de janeiro de 2017

Sobre a dinâmica da experiência humana

Todos experimentámos perdas de alguma natureza na vida. Portas por onde entramos que desaparecem e já lá não estão quando queremos sair. Mas o importante no fim não são as perdas ou as causas em si, mas sim aquilo que nos abrem, que nos proporcionam estas experiências. Não se trata de minimizar a perda, mas é através dela que se acede ao patamar seguinte do nosso percurso. As duas etapas, a dura e a reveladora, fazem parte da dinâmica da experiência humana, e Deus está presente em ambas, é o ritmo das duas que nos permite a experiência do céu na terra.
Mark Nepo


Sentimo-nos únicos, especiais, diferentes, e somos no pormenor, mas não na essência, que nos aproxima e identifica muito mais do que nos distingue.
Nascemos inteiros, mas precisamos dos outros para nos sentirmos completos, disse Mark Nepo, o poeta americano. Queremos ser ouvidos, precisamos de testemunhas pelo caminho, mas ninguém está verdadeiramente interessado na narrativa do outro, a não ser quando nela descobre detalhes que lhe são familiares, quando ela dá voz à sua voz.

Num mundo barulhento, turbulento, muito mais destrutivo do que construtivo, todos se sentem habilitados a opinar e a julgar as atitudes dos outros. E é tão fácil, tão tentador, julgar, crucificar, aconselhar, sobre o que nos é estranho.

Mas não é assim que funciona. Ninguém está habilitado a opinar sobre o outro, a menos que tenha passado por uma experiência idêntica. Aquele que passou pelo nosso patamar, e que nos pode ouvir e falar de igual para igual, é a única voz que nos pode complementar e ajudar a juntar os bocados de nós que ficaram dispersos quando nos fragmentámos, permitindo-nos recuperar a integridade perdida.

Assumir a perda e a dor, que num ou noutro momento é comum a todos,  pressupõe ter feito a viagem de ida e volta, e implica coragem, quer para quem ousa falar dos aspectos mais lunares que lhe deram acesso a outros mais luminosos, quer para quem ousa ouvir e compactuar.

Aprende-se a ser tolerante, através da intolerância dos outros connosco. Aprende-se a não julgar deliberadamente, com quem nos julgou deliberadamente. Aprende-se a valorizar a gratidão, com a ingratidão dos outros. Aprende-se a perceber que o sarcasmo e a indiferença escondem muitas vezes frustração, inveja, cobardia. Aprende-se a dar graças pela saúde e pela vida, perante a doença ou a morte, nossa ou dos outros. Aprende-se a ouvir em silêncio, com aqueles que se dispõem a ouvir-nos. Aprende-se a valorizar a paciência, a generosidade, a prestabilidade, com o sorriso com que nos retribuem o que damos ou fazemos voluntariamente.  Aprende-se, aprende-se sempre, ora pela positiva, ora pela negativa.

As lições mais aparatosas são as que nos desintegraram, mas são também estas que nos projectaram noutro patamar.
As lições que nos reintegraram são as mais silenciosas, são as que nos ensinaram a arte de juntar pacientemente os cacos, as que nos reconduzem, num processo sereno, para voltarmos a ser inteiros, e são as que nos devolvem a esperança.


E esta frágil dualidade entre a sombra e a luz, que interagem e se complementam constantemente, constitui, porventura, a dinâmica da experiência humana.

(Calendário Art Edit 2017)

Calendário 2017