sexta-feira, 1 de dezembro de 2017
Identificar, ordenar, recriar, executar, ousar
O mundo em si não
tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui identidade, sem o nosso
pensamento que lhe confere alguma ordem. Viver, como talvez morrer, é
recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas
elaborada. Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes,
ousada.
Lya Luft
Uma boa parte da nossa
vida é feita de acção, movemo-nos de forma automática, impulsiva, não há tempo
para parar e pensar, o pensamento segue a acção. Mas a partir de uma
determinada fase, a vida passa a ser feita sobretudo de reacção: paramos,
pensamos e reagimos ou, muitas vezes, forçamo-nos a reagir, porque a tentação
forte seria parar, baixar armas, hibernar... Confrontados com verdadeiros
dramas existenciais, que nos entram em casa todos os dias através da
comunicação social, somos rapidamente sacudidos e reenquadrados no nosso devido
lugar de formiguinhas caprichosas, ridiculamente egocêntricas.
Qualquer vida (a minha,
a sua e a da formiguinha) processa-se até ao último suspiro. E até ao fim há
uma constante evolução com perdas e ganhos. É verdade que com o tempo a
capacidade de intervenção acompanha a redução da capacidade física, mas podemos
ir intervindo a outro nível, com menos força, mas de uma forma mais incisiva;
com menos vista, mas com um olhar mais limpo, e sobretudo com mais tolerância,
menos drama e mais doçura.
Como barquinhos de papel
à deriva, que somos quase sempre, precisamos, constantemente, de nos adaptar ao
que se depara no caminho. Identificamos até ao fim, ordenamos enquanto temos
capacidade cognitiva, recriamos enquanto temos força anímica, executamos
enquanto temos força física, ousamos enquanto temos coragem.
O mundo pode
confundir-nos com os seus sinais. O alvo da perfeição é uma utopia, e o
bem-estar interior não se alcança com o poder de compra. Por outro lado, tanto
a intolerância e a crítica fácil, como a comparação e a inveja, que se tornaram
instrumentos vulgares, só podem produzir instabilidade e inconformismo. Em vez
de construir vivemos para destruir, e fazemo-lo em círculos concêntricos e
progressivos, até onde chega o raio de alcance, como se vingar a nossa frustração
por não conseguirmos atingir os objectivos que nos foram propostos, nos pudesse
dar algum tipo de consolo.
Está tudo errado, só
pode. Se conseguirmos ultrapassar as conveniências dos tempos para vermos mais
além, compreendemos que a vida é um milagre, desde o momento em que nascemos
até ao fim. Que se processa como um caleidoscópio que nos abre sucessivamente
novos quadros, novas perspectivas, com luminosidades e coloridos diferentes, e
que a nossa única obrigação neste mundo e nesta vida é irmos descrevendo uma
narrativa pessoal, que fica gravada talvez no caminho por onde passámos,
naqueles que se cruzaram connosco, em qualquer coisa que ajudámos a construir.
Acredito que muito mais importante do que o valor ou a qualidade absoluta do
que fizemos, é o facto de elaborarmos uma narrativa coerente, conscientemente executada, sempre que possível ousada.
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