segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Ainda sobre a importância da vida social


Podemos não desejar viver cem anos, mas julgo que todos desejamos ter saúde enquanto por cá andamos. Quanto mais não seja para não depender dos outros. 

Vivemos maioritariamente em cidades, onde mal conhecemos os vizinhos de patamar, quanto mais os habitantes do nosso prédio. Fechados em casulos, tentamos, precisamente, fazer o contrário do que seria benéfico para a nossa saúde: manter a distância e interagir o menos possível com o próximo. Cada um por si e Deus por todos!

Precisamos de tempo, dinheiro, energia para manter uma vida social activa. Regra geral, falta-nos tudo, ou quase tudo, isto, inseridos que estamos em máquinas que nos ditam o ritmo, as dependências, as prioridades, as despesas. O que é particularmente válido para as mulheres. Temos alma de bombeiro voluntário, sempre alerta e de serviço, prontas a acudir aos filhos, aos pais, aos maridos, aos netos e de volta, ainda e sempre, aos filhos. 

Mas há um outro tipo de contacto social, a custo zero, igualmente, senão mais, proveitoso. Pessoalmente, sempre gostei de compensar a minha natural necessidade de isolamento conversando com quem cruzo diariamente. Na província, onde vivo há dois anos, é aliás muito comum entabular-se conversa. Faço-o espontaneamente, e sempre senti que me fazia bem, embora eu própria também esteja muitas vezes demasiado absorta nos meus problemas, e alheia ao que se passa à minha volta, para poder interagir com quem está à minha frente ou ao meu lado. 

Um dos motivos para a diferença de esperança de vida feminina e masculina, está provavelmente na forma como as mulheres tendem a relacionar-se socialmente, e como tendem a cultivar as suas amizades pessoais, o que lhes pode reforçar um escudo biológico contra as doenças e o declínio. O outro motivo imagino que se prenda com o tal espírito de bombeiro, que nos torna úteis e activas durante mais tempo do que os nossos companheiros. 

A falta de alguém com quem conversar é a principal queixa daqueles que deixam de ter «utilidade» social. As estatísticas dizem-nos que para cada pessoa haverá em média uma, duas, no máximo três outras com quem «acha» que pode contar, e que aqueles que se sentemsós (o que não é bem o mesmo do que viver só), têm o seu tempo de vida reduzido em 30% comparado com os seus pares. A solidão, até há pouco considerada um factor puramente subjectivo, afecta muito mais a imunidade do que se pensava, e o isolamento social tornou-se uma verdadeira ameaça para a saúde pública. 

Paradoxalmente, se fisicamente se vive cada vez mais isolado, através das redes sociais encurtámos distâncias e podemos estar em permanente contacto uns com os outros. De facto, quem acompanhou o progresso ocupa hoje mais tempo on-line do que com qualquer outra actividade (incluindo dormir...), mas será que a interação digital produz um efeito semelhante ao contacto presencial? Tudo indica que não, já que o contacto pessoal liberta neurotransmissores que melhoram a autoconfiança e a sensação de segurança, reduzem o stress, induzem prazer, e é tudo isto que nos pode reforçar a imunidade. 

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