quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Janeiro Calendário Art Edit 2019


Beleza e Natureza como terapias Calendário ArtEdit 2019



Arquitectura como escultura. Arquitectura como beleza. Beleza como terapia. Estivemos também tentados a usar a Natureza como terapia. A presença da Água, o Céu. A bênção da Floresta Tropical, fazendo-nos lembrar a fecundidade infinita da natureza e o seu poder para nos curar.                          
                                Charles Correa

                                                                                                                
Tais foram as premissas do genial arquitecto indiano que concebeu uma das clínicas mais bonitas do mundo. E tais palavras fizeram pleno sentido no momento em que, depois de uma cirurgia, me colocaram num quarto frente a uma enorme janela que enquadrava o pôr do sol no rio. Estávamos no Outono. A tranquilidade do entardecer, a luz e a cor refletidas nas águas, o suave movimento dos barcos, as gaivotas a pousar na varanda. A força da vida devolvendo-me força, a beleza e a serenidade da atmosfera pacificando-me o corpo e a alma. Não há químicos que possam igualar ou superar o efeito desta experiência. E, pasme-se, raramente me senti tão abençoada.

Dezassete e dezoito são anos em que enfrentei e ultrapassei um cancro. E se o fiz de uma forma tão amena foi, antes de mais, pela natureza pouco agressiva do mesmo, mas muito também pelo privilégio de ser tratada num ambiente de uma beleza terapêutica por excelência. 

A experiência de um cancro é transformadora, ninguém passa por ele de forma casual, ninguém sai dele inalterado (consciente ou não). Alguns ficarão assombrados ou condicionados para sempre, outros sairão reformulados. Para todos haverá um antes e um depois. No momento em que termino o meu tratamento, e começo a redigir o próximo calendário, sei que muito do que escreverei andará à volta das reflexões em que fui induzida neste período, e de reformulações resultantes das mesmas. Acredito que ao escrever e divulgar não estou só a partilhar uma experiência pessoal, estou também a contribuir para quebrar tabus que discriminam e isolam, e para resgatar vozes de quem, em silêncio, trilhou caminhos semelhantes. 



Dezembro Calendário Art Edit 2018


A esfera da inspiração Calendário ArtEdit 2018

Le persone con cui i nostri cammini si incrociano lasciano cadere dei semi dentro di noi, e questi semi magari anche dopo molto tempo germogliano e diventano alberi immensi.
Piero Ferrucci Le Sfere di Indra


Em Outubro de 2013, cerca de oito mil budistas vindos de todo o mundo concentraram-se em Cascais, para durante uma semana celebrarem um festival anual. Ninguém se apercebeu do evento até à véspera da abertura, quando milhares de monges e monjas budistas começaram a chegar e a «tomar de assalto» a vila, em pequenos grupos ou sozinhos. Para além do exótico dos seus trajes no nosso cenário, o que me impressionou desde logo foi a sua expressão. Serenos e sorridentes, contrastavam de tal modo com o nosso ambiente cinzento, chuvoso, desesperançado e tristonho, com a nossa barulhenta e atordoada aceleração, que mais parecia estarem a chegar de um outro planeta. Impossível passarem despercebidos, além dos trajes havia qualquer coisa neles que se propagava como um manto de paz e felicidade à sua passagem. 
Sei que sou suspeita, porque desde sempre a filosofia oriental exerce sobre mim um enorme fascínio, por isso vou falando com uns e com outros, com gente simples, que nunca ouviu falar em budismo, para sentir se também eles partilham a minha percepção da energia positiva que esta gente transporta e espalha. Ninguém parece ficar indiferente a estes monges que se alojam por todo o lado num raio de 5 ou mais quilómetros, percorridos a pé de cá para lá, que entram nos nossos cafés, restaurantes, supermercados, que invadem as nossas vidas quotidianas. A curiosidade aproxima-me do recinto onde decorre o festival. O hipódromo de Cascais foi invadido por uma organização de autênticas formigas, ordeiras e disciplinadas, que ergueram tendas monumentais, templos, recepções, restaurantes, lojas, casas de banho, etc. tudo cuidadosamente previsto e mantido. A segurança vigia todas as entradas, mas é possível observar cá de cima a ordem e a calma com que milhares de pessoas se movimentam neste espaço. 
Uma das participantes, que também faz parte da organização, está alojada numa casa de hóspedes de um irmão meu. Convenço-o a interceder junto dela para poder assistir a uma palestra. Aceita na condição de previamente se encontrar comigo para me conhecer, leia-se para me testar e compreender as minhas verdadeiras intenções. Kay é uma irlandesa de cerca de sessenta anos que em dada altura da sua vida trocou a religião católica com que foi educada pelo budismo. Há doze anos que estuda e pratica com um mestre, mas considera-se uma principiante. Tomamos chá e, com a tranquilidade dos que abraçaram esta via, faz-me uma introdução ao budismo. Enquanto a oiço falar, recordo a expressão de felicidade das pessoas que cruzei nos últimos dias e o tom baixo e suave das suas vozes. 
A tão desejada participação numa palestra de um reputado mestre revelou-se afinal muito pouco interessante para mim. A complexidade das ideias, juntamente com o inglês imperceptível do velho monge tibetano, mais a decoração e os aromas do ambiente, em nada me seduziram. Dir-se-ia que a minha experiência com o budismo ficou por aqui. 

Alguns anos depois, no momento de começar a pintar o meu calendário, apercebi-me que a aceleração e atropelo habituais tinham cedido lugar a uma tranquilidade e uma alegria inéditas, e o resultado foi o calendário mais bonito e que mais prazer me deu produzir em dez anos. Lembrei-me da lição dos budistas, que finalmente frutificava, que se traduz numa atitude calma de humildade, respeito e encantamento perante o que se nos depara, e que se propaga ao que fazemos. É esta abordagem da vida que produz o que os orientais chamam estado zen, uma sensação de paz, harmonia, contentamento, porque o que damos recebemos, na mesma onda, ao mesmo ritmo, com a mesma intensidade. 

Somos o somatório de múltiplas contribuições dos que cruzámos, pessoalmente ou através das suas obras, e que nos deixaram qualquer coisa de si, que pode não desencadear uma reacção imediata, mas um dia, quando menos esperamos, irá germinar numa flor singela ou, quem sabe, numa árvore esplendorosa. Faz parte do encanto desta esfera de inspiração, onde damos e recebemos constantemente e até ao fim.

Novembro Calendário ArtEdit 2018


Cegonhas Calendário ArtEdit 2018

Animal lovers are a special breed of humans, generous of spirit, full of empathy, perhaps a little prone to sentimentality, and with hearts as big as a cloudless sky.
                                                                    John Grogan Marley and Me


Quando há trinta e cinco anos vim viver para o Alentejo o espaço que seria o nosso era um monte de destroços resultante de cinco anos de uma ocupação selvática. Exceptuando a própria casa, que sabe-se lá porquê salvaguardaram, tudo o mais foi utilizado até deixar de funcionar, e subsequentemente abandonado. A herdade foi-nos entregue quando já não havia uma máquina, um tractor ou um gerador que funcionasse, e durante o primeiro ano o trabalho foi não só limpar, recuperar e reequipar, como transformar todo o ambiente dando-lhe o nosso cunho pessoal, povoando o deserto alentejano com árvores e bicharada, e instituindo regras de respeito e protecção pela natureza até então totalmente desconhecidas. Apesar da incompreensão do nosso pessoal, a caça e os tiros foram banidos para convidar a passarada a regressar. Particularmente difícil foi fazer aceitar o respeito pelas cegonhas, por tradição mal vistas, detestadas e perseguidas. Foi pois uma emoção inesquecível assistir à construção do seu primeiro ninho, ainda que no topo de um silo, longe do alcance humano. A minha admiração pelas cegonhas começou aqui, observando a perseverança e o engenho com que construíam aquele ninho a mais de doze metros de altura, numa superfície redonda e escorregadia. O trabalho de equipa do casal, o esforço de carregar galhos enormes no bico, o cuidado a equilibrá-los, os sucessivos malogros, o recomeçar vezes sem fim até conseguirem segurar os primeiros galhos que serviriam de base a uma estrutura sólida e maravilhosamente bem arquitectada. Depois foi o chocar dos ovos à vez, até surgirem três cabeças pequeninas, e a criação repartida – enquanto um dos progenitores tomava conta das crias, ameaçando à distância quem se aproximasse, o outro caçava e trazia-lhes alimento –, até por fim os filhos se lançarem no ar atrás dos pais. Partiram todos juntos, para regressarem juntos no princípio da época seguinte. O primeiro ninho foi restaurado e outro ninho foi construído no silo do lado. E nunca mais parou. A cegonhas e os ninhos multiplicaram-se com os anos, cada vez mais baixo e perto de nós, no que foi talvez o primeiro santuário de cegonhas da região. 
Anos mais tarde, sob pressão da Quercus, as cegonhas passaram a ser uma espécie protegida, com direito à construção de poleiros altos e estáveis para construírem os seus ninhos, e assim proliferaram nesta zona do Alentejo. 

Já não existem os silos onde construíram os primeiros ninhos na nossa herdade, mas em compensação temos dezenas de outros ninhos por todo o lado, e a descendência daquele primeiro casal, que confiou em nós quando todos os hostilizavam, continua a regressar todos os anos para aqui se multiplicar.

Coragem, perseverança, engenho, adaptabilidade, entreajuda, verdadeira partilha de vida – do prazer e do dever–, e um extraordinário sentido de orientação, tudo isto me têm ensinado, ao longo dos anos, as cegonhas.