quarta-feira, 12 de julho de 2017
Menos é mais
Alguém disse que sábio
não é aquele que acumula conhecimentos, mas aquele usa eficazmente aquilo que
aprendeu.
Precisamos de tempo e
experiência, para desaprender muito do que tínhamos por certo e compreender o
essencial.
Essencial é distinguir o
que nos traz benefício, do que nos intoxica ou não nos acrescenta nada, o que
vale para tudo o que nos envolve, desde as pessoas com quem nos relacionamos,
às actividades a que nos dedicamos, e ao espaço que habitamos.
Nem tudo o que vem a
mais nos faz «crescer» (excepção feita para o que comemos, claro...) e temos de
desmontar o conceito básico da nossa sociedade, que nos quer fazer crer que
tudo o que multiplicamos e acumulamos nos beneficia, ou, pior ainda, que a
nossa felicidade e segurança dependem directamente da capacidade de aquisição.
Na verdade precisamos de
muito pouco para vivermos bem. E satisfeitas as necessidades básicas, não é o
poder de compra que faz a diferença.
Precisamos antes de
mais, e acima de tudo, de saúde, que não tem preço, não depende da nossa
vontade, nem é um dado adquirido, como tendemos a considerar. Depois,
precisamos de um olhar limpo e de uma cabeça arrumada, para simplificar e
aligeirar a vida, o que implica uma selecção criteriosa, e coragem para nos
desapegarmos do que acumulámos, e onde depositámos uma falsa sensação de
segurança.
Quando se consegue
disciplinada e equilibradamente seleccionar, para depois descartar, – e deste
modo chegar ao que valorizamos em função do que somos, do que precisamos, do
que nos faz bem –, compreende-se que (contra-corrente de tudo o que nos é
instigado) menos pode ser, afinal, mais.
Uma vida organizada com
rigor e alguma austeridade, não só torna tudo mais leve, mais luminoso, e mais
fácil de articular, como permite apreciar com outro olhar, e redobrado prazer,
quem ou aquilo que, por qualquer motivo, utilitário ou emocional, é único e
especial para nós.
quinta-feira, 6 de julho de 2017
Sobre a vergonha e a empatia, sobre a empatia e a compaixão
A compaixão não é uma relação entre quem cura e quem está ferido. É uma
relação entre iguais. Precisamos de conhecer bem a nossa escuridão para
podermos estar presentes na escuridão dos outros. A compaixão torna-se
autêntica quando reconhecemos a nossa humanidade partilhada.
Pema Chödrön
Como explicou Brené Brown, que tem dedicado a sua vida a
investigar esta matéria, a vulnerabilidade tutela todas as fragilidades
humanas. Não só o medo e a vergonha, que nos tornam inseguros, mas também o
amor, a coragem, a esperança, a empatia, os sentimentos que nos dão segurança.
Nos antípodas do medo e da vergonha – que estão ligados a
um sentimento de culpa, que convida ao recolhimento e ao silêncio –,
encontra-se a empatia, que incentiva a expressão, funcionando como uma ponte
que rompe o silêncio, estabelece a comunicação, e tem o poder imenso de
resgatar do isolamento (in)confessado a que estes sentimentos (medo e vergonha)
nos remetem.
O entendimento que gera a empatia surge espontaneamente,
quer através da partilha de experiências comuns, quer por se comungar de
pré-disposições como a sensibilidade, inteligência, humor, que podem despoletar
afinidades imprevisíveis.
Mas se para a empatia basta reconhecer alguém que entoa a
nossa canção, já a compaixão é um
capítulo muito mais complexo e exigente.
A compaixão, tal como explica Pema Chödrön, pressupõe não só ter passado por uma experiência
idêntica, tendo conseguido, ou talvez não, ultrapassar o problema, como também
dispor-se a ouvir a história do outro sem qualquer preconceito, sem qualquer
julgamento.
Implícito na compaixão está uma dupla vulnerabilidade
(com tudo o que esta pode representar de insegurança/ vergonha/ coragem), a de
quem conta a sua história, e a de quem se dispõe a ouvi-la.
Maio, Calendário Art Edit 2017
terça-feira, 4 de julho de 2017
Sobre o medo e o amor
O amor é o que
nasce connosco. O medo é o que aprendemos. A viagem espiritual pressupõe uma
desaprendizagem do medo e dos preconceitos e a aceitação do amor de volta ao
nosso coração.
Marianne
Williamson
Nascemos com
amor-próprio, mas cedo aprendemos o que significa o medo, a vergonha, a
insegurança de não corresponder ao que se espera de nós. A auto-confiança, que
é o antídoto destes sentimentos, está directamente dependente da apresentação
de resultados, e se a pré-disposição genética é uma vantagem, o enquadramento
não é menos importante.
Temos uma sociedade cada
vez mais competitiva. A perfeição é a fasquia. A comparação é o incentivo. Quem
ganha é óptimo, quem perde não é suficientemente bom. Como os óptimos são as
exceções, a mensagem para a maioria é de que não está à altura das
expectativas. Logo, o resultado é, na melhor das hipóteses, a insatisfação ou,
na pior, a frustração e a baixa-estima.
Tudo isto é incutido nos
primeiros anos. Na idade em que as crianças deviam simplesmente brincar, e a
brincar aprender a conviver e a enquadrar-se no ambiente – tão simples, tão
importante e tão pouco valorizado quanto isto –, estão já a ser «massacradas» e
avaliadas com letras, números e outros conceitos abstractos. Resultado: na
idade em que deviam estar a forjar o carácter, que está tão associado à
auto-estima, desenvolvem medos, vergonhas e inseguranças, feridas e cicatrizes
que vão perdurar pela vida fora.
Com o tempo aprende-se a
controlar estas e outras emoções, a criar carapaças de protecção e estratégias
que deem a sensação de autossuficiência. Mas é preciso (matur)idade para
perceber que o modelo de perfeição que nos guiou e nos atormentou é absurdo,
que todos temos fragilidades, com as quais alguns lidam melhor do que outros.
Somos o que somos, e fazemos e fizemos, o que soubemos e pudemos. Ponto. Só
depois desta constatação estaremos finalmente aptos a regenerar feridas
antigas, capazes de descodificar o medo, a vergonha e a insegurança, de
regresso ao amor.
Curiosamente, quanto
mais aprofundamos o que quer que seja, mais nos apercebemos do pouco que
sabemos. E, sobretudo, mais importante do que as certezas que vamos adquirindo,
compreendemos que haverá sempre mistérios por desvendar.
Aprendemos,
literalmente, até morrer, e quanto mais velhos, mais capacidade temos de
«apreender». É certo que a sociedade não valoriza esta bagagem, mas isso é
outra conversa. Libertarmo-nos do julgamento alheio, e proceder por nós e para
nós, faz parte da aprendizagem.
segunda-feira, 3 de julho de 2017
Ser vs pretender ser
If you can
talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with
Kings - nor lose the common touch (…)
Rudyard
Kipling, If
Cada vez tenho menos paciência para festas, casamentos, cocktails,
vernissages, jantares com mais de uma dúzia de pessoas, conversas de
circunstância, alegrias forçadas, diálogos estereotipados e carnavais afins.
No entanto, cada vez gosto mais de conhecer pessoas, entabular conversas,
conhecer histórias de vida, trocar ideias, sobretudo com gente simples, que diz
o que pensa, sem intenções encapotadas, sem temer críticas, nem se preocupar em
causar sensação.
Na verdade, até gosto muito de pessoas, o que não suporto é o postiço e a
preocupação em fazer de conta que se é o que não se é: culto, inteligente,
informado, graduado, chique, bem nascido, por aí fora, e depois, noutras
esferas, menos lavadinhas, movem-se os pseudo:
intelectuais, artistas, radicais: igualmente aberrantes. Nada tenho contra
estes atributos, note-se, mas não há mais patético do que insistir em envergar
um estereótipo, sobretudo quando a roupinha não nos assenta, porque não nos
pertence, e nos apresenta mascarados. Nem em criança gostei do Carnaval!
Tudo isto se torna mais patético ainda pelo facto destes almejados
atributos não definirem, por si só, o valor pessoal. Cada um é o que é:
inteligente, artista, culto..., nem por isso, ou nada disto. Resulta de
características genéticas, do ambiente onde nasceu, da educação que teve, (pelo
qual nada fez e contra o qual pouco pode), mas o que o define, e faz de alguém
uma pessoa especial, digna de respeito e admiração, é a forma como geriu quer o
seu potencial à partida, quer sobretudo a sua vida, as alegrias e as tristezas,
a sorte e o azar, o destino que lhe coube.
O que procuro e valorizo cada vez mais em quem encontro é a autenticidade,
ter a frontalidade de assumir, naturalmente, o que se é em todas as
circunstâncias, mantendo total liberdade nas escolhas ou nos gostos,
independente e indiferente a etiquetas e opiniões pré-definidas. E, sobretudo,
procuro e valorizo o carácter, a sensatez, a boa disposição, a bondade, a
generosidade, que também posso encontrar em pessoas cultas, inteligentes, bem
nascidas, radicais etc., mas com muito mais probabilidades tenho encontrado em
pessoas humildes, genuínas e despretensiosas.
Março, Calendário Art Edit 2017
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