terça-feira, 2 de outubro de 2018

Outubro Calendário ArtEdit 2018


Outubro 2018 On being nice

It’s easier to get what you want with a smile than with the tip of the sword
                                                                                William Shakespeare


É o título de um livro publicado pela The School of Life. 
Mais uma ideia absurda entre tantas que tentam conquistar o seu bocadinho de sol? Precisamos de uma escola que nos ensine a viver? De livros que ensinem comportamentos básicos, comuns a qualquer civilização que se assuma como tal?
Talvez o absurdo seja justamente a época em que vivemos, e em que não obstante, ou malgrado, toda a evolução, precisemos de facto que nos ensinem a viver e a entender, entre outros, a importância da gentileza no trato – uma qualidade que deveria ser espontânea e que de regra passou a excepção –, numa palavra: precisamos de ser reeducados!

A verdade é que na selva onde nos movemos, nada nos incentiva a ser afáveis e prestáveis, a admirar e elogiar os outros, a respeitar, independentemente da espécie, ou de hierarquias económicas e sociais, a ser reservados e discretos, francos e honestos. Bem pelo contrário, tudo nos convida a endurecer a atitude, a competição faz de nós criaturas tensas, crispadas, encapotadas, por vezes arrogantes, que só respeitam o poder, que procuram sobressair a qualquer preço, que alimentam intrigas para confundir opiniões, que criticam gratuitamente, e a simpatia só se exerce quando há qualquer objectivo específico. Resultado: em vez de estarmos imersos num mundo harmonioso e agradável, que nos devolve a gentileza com que o tratamos, vivemos num mundo que nos agride na mesma onda com que o agredimos. 

Entre tantos best sellersque prometem ensinar-nos a ser bem sucedidos no trabalho, a enriquecer, a ser mais resilientes, a comer, a emagrecer, a ter saúde, a não envelhecer, etc., etc., um livro que nos convida simplesmente a ser simpáticos pode causar estranheza, e mesmo depois disso será pouco atraente para a maioria, pois não promete o brilho de um podium ou de uma passerelle. E no entanto, a gentileza e o respeito são tudo o que menos se pratica no mundo de hoje, e porventura o que mais falta faz.

Setembro Calendário ArtEdit 2018


Setembro 2018 Crónica de fim de verão

Hope is the thing with feathers
That perches in the soul, 
And sings the tune without the words, 
And never stops at all
                                  Emily Dickinson


Acomodam-se as crianças nos carros atulhados de bagagem, últimos beijos e arrancam de regresso a suas casas.
Quando já rastejante de cansaço os vejo partir, a minha tristeza é proporcional à felicidade com que os vejo chegar. Invade-me um vazio inexplicável, uma sensação de que o tempo não chegou para me saciar as saudades, uma sensação de que vivemos cada vez mais agitados, numa aceleração contínua, para cumprir objectivos que convencionamos serem indispensáveis, em detrimento do que será mais importante, que nos enche a alma e aquece o coração. O mesmo tempo que se arrasta quando sentimos a resistência a falhar, torna-se rápido demais quando constatamos que ainda agora chegaram e já estão de partida. 

Depois apercebo-me de que a atmosfera arrefeceu, a luz mudou e que, uma vez mais, o Verão acabou ainda antes de começar para mim, porque tudo o que vivi até aqui: calor, mosquitos, trabalho, foram apenas os preliminares do Verão do meu imaginário.

Por muito que vá sendo desvirtuado pelas suas vicissitudes, associo o Verão a férias, as férias à praia e a praia ao Guincho. Ou seja à minha infância e juventude, e aos tempos de sonho e despreocupação. Todos os anos tenho esperança que me seja devolvido um pouco do Verão dos meus sonhos e, no entanto, cada vez me distancio mais.

O Verão tornou-se sinónimo da ameaça constante de fogos, do calor sufocante no Alentejo, de picadas de mosquitos que infectam. De autoestradas cheias de trânsito cada vez que tenho de ir a Lisboa – e morre-se, casa-se, festeja-se, adoece-se muito nestes meses de canícula! De supermercados cheios de movimento, de muita cozinha, muita loiça, muita roupa, crianças, birras, passeios, banhos, noites mal dormidas, e dos mais doces e ternurentos abracinhos também. De muita solicitação! E eu que não sei dizer que não, e que anseio por todos os minutos em que tenho por perto filhos e netas!

Este ano o «meu» Verão resumiu-se a cinco caminhadas na praia, três banhos de mar, e uma tarde livre em que deambulei pelo Cascais velho que adoro, explorei a feirinha do livro transplantada para o jardim da Parada, comi um Santini e, talvez por ter sido tão pouco e tão breve, gozei cada minuto e tudo isto me soube pela vida. Para o ano haverá Verão outra vez, com renovados planos e renovada esperança... esse passarinho que pousado na alma, nos entoa uma canção sem palavras, que não se esgota nunca ...