segunda-feira, 11 de novembro de 2019

O primado do bom gosto


Beauty is produced by the pleasing appearance and good taste of the whole, and by the dimensions of all the parts being duly proportioned to each other. 
Vitruvius De architectura

A definição do que entendemos por bom gosto é subjectiva. Depende da educação e do ambiente em que se foi criado, depende de padrões culturais que dão as referências, que por sua vez ditam escolhas e preferências.
Para lá dos aspectos puramente estéticos, o conceito de bom gosto estende-se aos gestos, às atitudes e aos comportamentos. E quando tudo isto se conjuga de uma forma natural e perfeitamente harmoniosa, temos o primado do bom gosto. 

Talvez tenha sido por contraste com tanto mau gosto (na estética como no comportamento) em que tropeço ultimamente, na rua ou na televisão, que de repente fiquei absolutamente fascinada com este casamento real em Inglaterra. 

A Inglaterra tem a monarquia mais consistente e com mais categoria que conheço. Quando puxa dos seus galões é insuperável, e embora já tenha assistido a vários eventos memoráveis, nenhum me sensibilizou como este. Não envolveu mais meios do que os outros, nem teve mais pompa, muito pelo contrário, mas o que me tocou particularmente foi o cuidado posto em todos os pormenores, as surpresas inesperadas, e a justa dimensão e proporção relativa de todas as partes.

Começando pelo cenário: Windsor: um castelo mágico, integrado num parque maravilhoso, e pelos monumentais arranjos florais: milhares de rosas, peónias e miosótis a enquadrar a escadaria, os corredores, os arcos e a assinalar as entradas numa capela gótica deslumbrante.  

O mais carismático dos netos da rainha de Inglaterra casava com uma igualmente carismática actriz americana, mestiça, divorciada, feminista, cuja família se faria representar unicamente pela mãe. O que terá obrigado a redobrados esforços para humanizar e conjugar o protocolo.

Esteticamente foi tudo irrepreensível, desde a escolha dos uniformes do noivo e do irmão, à forma como vinha arranjada a noiva – com uma simplicidade, uma qualidade e um equilíbrio raramente conseguidos, onde tudo se conjugava entre si e com ela, e que rematava com um modesto raminho de flores campestres, cândido, discreto e lindíssimo. 

Nunca esquecerei a sua imagem a subir a escadaria da igreja, com um longo e etéreo véu em tule cujas pontas eram levantadas por dois pequeninos pajens vestidos de preto, que mais pareciam dois passarinhos. Primeiro quadro digno de uma fairy tale!
Dentro da igreja, um bando de mais oito «passarinhos», elas coroadas de rosas e com raminhos iguais ao da noiva, eles com os uniformes pretos, integrou e acompanhou o cortejo, que avançou ao som de Händel entoado por uma voz límpida de soprano.

À elegância estética juntou-se a elegância dos gestos, quando, na ausência do pai da noiva, o futuro rei, pai do noivo, de uma forma muito natural conduziu a noiva ao altar, enquanto a mãe dela, com muita classe na sua postura serena, continha visíveis emoções.

E depois, houve as escolhas musicais, os temas e as formas: um coro de gospel com as suas vozes quentes e aveludadas entoou um Stand by Me lindo, e um jovem talentoso violoncelista tocou Fauré e Schubert.  
Para recordar ficará também a homilia inspirada de um bispo americano negro, que enalteceu o poder redentor do amor. E, claro, a felicidade e cumplicidade constantes dos noivos.

Mágico foi o cortejo na carruagem Landau, escoltada pelo regimento montado de cavalaria. A beleza e as cores dos uniformes conjugada com as cores dos cavalos, contrastando com os extensos relvados, e percorrendo as alamedas arborizadas dentro e fora das velhas muralhas, num dia particularmente luminoso.

Finalmente, para a posteridade ficarão as fotografias oficiais de família, em que um fotografo artista utilizou sabiamente, e com muita sensibilidade, as dez crianças (damas de honor e pajens) para criar verdadeiros quadros, onde até as toiletes das intervenientes harmonizavam na perfeição.

A vida não é um conto de fadas, como bem sabemos, e nem mesmo as realezas estão a salvo das tragédias, mas é importante podermos, de vez em quando, retemperar a alma com a Beleza, e perceber que o bom gosto continua a existir, mesmo que rareie (não por acaso convencionou-se associar a palavra ordinário e vulgar ao mau gosto...), o que o torna ainda mais apreciável e louvável.

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