segunda-feira, 11 de novembro de 2019

O segredo de uma longa vida pode depender da vida social

Digital networks and screen media have the power to make the world seem much smaller. But when it comes to certain life-changing transformations, they’re no match for face-to-face.

Susan Pinker, The Village Effect: Why Face-to-face Contacts Matters

É curioso o facto de no mundo desenvolvido em geral, as mulheres viverem em média mais seis a oito anos do que os homens, mas a psicóloga canadiana Susan Pinker descobriu que há um lugar no mundo, em Villagrande, na ilha italiana da Sardenha, onde a esperança de vida dos seus cerca de 3000 habitantes não só é igual para os dois sexos, como existem dez vezes mais centenários do que em toda a América do Norte. 
Intrigada, decidiu estudar quer os aspectos científicos, quer os hábitos de vida do lugar. Começando pelo perfil genético, descobriu que só concorre em 25% para este resultado, os restantes 75% relacionam-se com o estilo de vida. Depois considerou a possibilidade de poder depender de uma atitude positiva e de um temperamento alegre, mas ao entrevistar alguns dos centenários verificou que nem sempre eram pessoas prazenteiras. Por outro lado, observando os seus hábitos alimentares, constatou que a dieta (rica em massas e molhos) também não deveria estar na origem da longevidade. Ao tentar perceber qual seria o fator mais decisivo encontrou um estudo universitário americano que investigara, justamente, os índices que influenciam a longevidade, e que registara e analisara todos os aspectos relacionados com o estilo de vida de milhares de pessoas de meia-idade, ao longo de sete anos. Os resultados são surpreendentes, desde o indicador menos influente: o ar que respiramos, passando por aquilo que temos por decisivo, como uma alimentação regrada e o exercício físico, que afinal apenas contribuem moderadamente para vivermos mais tempo, chegando ao mais influente: as relações sociais, o quanto interagimos diariamente, e que tanto pode ser com quem nos está próximo afectivamente, como com aqueles que contactamos de passagem. 

Pelo isolamento e pelo traçado da cidade – uma intrincada estrutura onde as casas se amontoam –, em Villagrande as pessoas vivem ainda com uma proximidade típica das vilas medievais. Resultado: todos se conhecem e se entreajudam. Ali tudo gira à volta da família, e dentro de cada família à volta dos mais velhos, os quais são considerados o centro da comunidade. Tratados com todas as deferências, nunca estão sós: familiares, amigos, vizinhos, vão passando, vão entrando, vão conversando, constantemente. Muito provavelmente, o segredo que mantém os moradores da ilha saudáveis dependerá exactamente da importância que os seus habitantes dão às relações pessoais e às interações cara-a-cara.

A evolução ditou-nos outros rumos. Ainda encontramos esta proximidade física nas aldeias rurais, mas não o respeito e a preocupação pelos mais velhos, que nas aldeias como na cidade acabam entregues a eles próprios, quando os mais novos partem em debandada. A família desagregou-se. É cada vez mais raro encontrar membros da família nuclear a viverem na mesma cidade, e podemos dar-nos por felizes enquanto os filhos ainda vivem no nosso país. O centro das atenções, com todos os direitos que, voluntária ou involuntariamente, lhe atribuímos, passou a ser privilégio de uma geração juvenil, para a qual o maior incentivo é o poder de compra, e o know-howque mais valoriza é o das novas tecnologias...!  A solidão, muitas vezes emparceirada com a depressão, tornou-se um problema epidémico no mundo civilizado, começando a manifestar-se cada vez mais cedo (as crianças de hoje são super estimuladas pelo meio onde crescem, mas sofrem pela falta de atenção de pais emocionalmente pouco disponíveis), e com contornos de flagelo à medida que se envelhece. Iremos no bom caminho?


Sem comentários:

Enviar um comentário