Há mais de vinte anos, em menos de 24horas, uma sequência de acontecimentos com crescente gravidade – dentro daquela lei de Murphy segundo a qual: tudo o que corre mal pode sempre piorar –, que começou numa peripécia insignificante (pese embora me tenha transtornado bastante), acabando no que poderia ter sido uma verdadeira tragédia (não fosse o anjinho da guarda que paira na sombra de toda a criança), demonstrou-me, exactamente, o significado de relatividade, porque à medida que um acontecimento sucedia ao outro, o primeiro perdia completamente razão de ser, face à importância do seguinte.
Com o tempo e, sobretudo, com uns firmes abanões, aprendi a relativizar ou a desdramatizar os problemas com que me deparo, e raro é o dia em que não me lembre desta história, porque raro é o dia em que, num ou noutro momento, não precise de respirar fundo, para desintoxicar as ideias e clarificar a visão.
Para tudo haverá um termo de comparação. Qualquer que seja a circunstância poderia sempre ser melhor, se for esta a nossa bitola (embora nunca seja uma atitude gratificante), muito mais satisfatório será partir do princípio de que podia ser pior, e nem precisamos de ir buscar situações extremas para comparação, basta baixar a fasquia e apreciar o que nos corre bem, em vez de lamentar o que nos falta ou nos corre mal. É um lugar-comum, eu sei, e não posso garantir que venha felicidade daí, mas sei, de certeza, que permite apaziguar a alma.
É bem verdade que tomamos por garantido tudo o que nos foi dado sem que implicasse um esforço ou uma conquista da nossa parte, e que só valorizamos essas dádivas gratuitas quando as perdemos. Mas é essa tomada de consciência que nos deveria despertar, para reprogramarmos a forma como olhamos o que temos.
Raramente a vida é o que idealizámos. As circunstâncias são o que são, e a estabilidade psíquica e, por arrasto, física depende de uma adaptabilidade permanente ao que vai acontecendo.
Pois é, ironicamente, neste mundo tão inconstante, onde tudo é relativo, só a própria mudança é constante.
Esperar pouco e agradecer tudo, penso que seria um bom lema para nos nortear.
(Fevereiro 2020 . Calendário Art Edit )
sexta-feira, 10 de julho de 2020
Tudo é relativo
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