sexta-feira, 10 de julho de 2020

Life review

Chega uma altura da vida, em que precisamos de aligeirar parte da carga que nos acompanha, e que se foi avolumando com os anos, para podermos continuar mais leves e mais livres. 


Entre outros, a nossa bagagem é feita de medos, inseguranças, dúvidas sobre o nosso valor e a nossa capacidade, que desde cedo e ao longo de todo o caminho, de forma explicita ou implícita, estão muitas vezes presentes, e dependentes da aceitação e aprovação dos outros.


Muita da nossa bagagem é feita de sentimentos de culpa. 

Com a mesma intensidade com que a nossa condição feminina nos leva a abraçar o mundo, a tomar conta do mundo, mortificamo-nos pelo o que não correu bem no nosso raio de alcance. 

E, como se a autocrítica não bastasse para nos penalizar, estaremos sempre vulneráveis a críticas fáceis, vindas de quem comungou da nossa experiência, mas teve outra percepção dos acontecimentos.


No momento em que paramos para analisar o que ficou para trás e nos trouxe até aqui, percebemos que não é justo, nem razoável, o fardo de responsabilidade que tantas vezes colocamos às costas. 


Antes de mais porque somos o resultado de uma educação, de um ambiente, de milhentas circunstâncias, para as quais não contribuímos, mas que, definitivamente, nos moldaram. 

Muito do que fomos e somos é uma consequência dos pais que tivemos, que por sua vez foram uma consequência dos seus próprios pais. E é esta herança, temperada a cada tempo com os acontecimentos próprios de cada vida, que recebemos e transmitimos aos nossos filhos, que a absorvem à sua maneira, tal como antes deles nós o fizemos, e antes de nós os nossos pais. 


Quando chegamos a um determinado patamar da vida percebemos, finalmente, que todos nós: avós, pais, filhos, fizemos em cada momento o melhor que soubemos, e o melhor que foi possível, o que deveria ser suficiente para nos desculpabilizar e nos tornar mais imunes a críticas.


Mas precisamos de muito tempo, e muito terreno desbravado, para lá chegar. Para nos desculpabilizarmos pelo que não pudemos fazer melhor ou diferente. Para revermos a vida com outro olhar, com outra compreensão e aceitação, a começar por nós próprios, e extensível a todos os que a integraram.

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