Talvez a evolução tenha sido muito rápida, impedindo de controlar o seu desenvolvimento ou os meandros por onde se infiltrou, ou talvez o ser humano na sua essência seja muito mais superficial e influenciável do que gostaríamos de imaginar. Facto é que as redes sociais, que começaram por ser uma forma fácil e divertida dos amigos contactarem, trocarem ideias, divulgarem interesses, tomaram um rumo muitas vezes patético.
Pertenço, até ver, ao bilião e meio de pessoas conectadas numa rede social, e reconheço que cada um é livre de fazer dela o uso que bem entender, o que não me impede de olhar com apreensão para o que vejo. Uma crescente percentagem das notícias que se publicam e se espalham são «fake», incluindo as mais louváveis, que apelam à solidariedade. Tal como falsos são mais de 80 milhões de perfis criados. Este aproveitamento de uma falta de responsabilização, para gerar confusão, incendiar, lançar boatos, explorar o bem intencionado, etc. reflecte uma sociedade inconsequente, sem escrúpulos e muito mal alicerçada.
O conteúdo do que se publica e partilha é o espelho não do país (o que já seria preocupante), mas do mundo. Um mundo sem credo, ou pelo menos com pouca convicção no seu credo, a avaliar pela ligeireza com que se muda de opinião. Onde não se perde tempo a aprofundar o que quer que seja, porque o importante é acompanhar a onda. Abundam citações avulso, vulgarizadas pelo seu uso abusivo. Aproveita-se a janela aberta para libertar raivas, azedumes, e todo o tipo de recalcamentos. E depois, não menos caricato, levamos com enxurradas de fotografias, daqueles que descobriram neste meio um palco com que imagino sempre sonharam. Pretendem, penso, exibir ao mundo a sua aparente paradisíaca vida, e o comum mortal, que procura distração e ânimo nestes meios, em vez de desconfiar da fartura de boa-vida, acaba muitas vezes deprimido, pela comparação com a sua vida sensaborona. Este é o grande paradoxo das redes sociais, que vêm mitigar o descontentamento, frustração e isolamento de quem nelas procura conforto ou enquadramento.
Noventa e nove por cento do que me aparece à frente, não me interessa, nem me acrescenta rigorosamente nada. Então porquê perder tempo? Porque de repente, perdida entre banalidades, aparece uma ideia, uma imagem, um texto, que são especiais, ou um link para uma entrevista, uma crónica, uma palestra, uma peça musical, que são uma autêntica inspiração.
E é de inspiração que eu vivo!
Março 2020 . Calendário ArtEdit 2020
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