sexta-feira, 10 de julho de 2020

Nestor

A vida no campo torna-nos muito mais conscientes das constantes perdas e ganhos, presentes em todas as vidas.


À nossa porta têm batido, ao longo de muitos anos já, inúmeros cães e gatos abandonados. Embora representem um peso acrescido, depressa são acolhidos e sentidos como inesperados bónus. Porque no momento em que lhes fazemos uma festa, e lhes estendemos uma tigela com água, já estão conquistados, com uma devoção e uma gratidão infinitas, e sem paralelo entre os humanos.


Há anos particularmente agitados, como no caso presente. Em menos de um ano «ganhamos» quatro cães, e perdemos outros tantos, três dos quais faziam parte dos recém-chegados.


Nestor apareceu do nada entre Fevereiro e Março, muito provavelmente abandonado ou fugido de algum cativeiro.

Grande, corpulento, cabeçudo, pelo comprido malhado de preto e branco, não teria raça própria, mas era um bonito cão. Surgiu junto à janela da sala num fim de tarde, e quando saí para o ver melhor, o Pedro, meu marido, alertou-me para que não lhe tocasse, porque não era de confiança, rosnara-lhe (coisa rara, efectivamente), mas quando me aproximei, falando com ele, baixou a cabeça, abanou o rabo e revelou uma enorme doçura.

Na manhã seguinte, quando saí para a minha caminhada, veio atrás de mim, e acompanhou-me todo o passeio. E assim passou a ser todos os dias.

Chamei-lhe Nestor, e ficou conhecido, aqui em casa, como o meu cão (já que todos os outros são assumidamente do Pedro). E de abandonado, depressa passou a muito mimado.

Nestor tinha alguns problemas comportamentais (como têm muitos dos cães abandonados), obedecia quando queria (só vinha quando era eu a chamá-lo), não tolerava cativeiros (por mais que o Pedro inventasse esquemas para o prender quando não queria que o seguisse, arranjava maneira de se esgueirar); aceitava bem uma coleira, mas recusava-se a andar à trela e, mais complicado, tinha o vício de correr ao lado dos carros, acompanhando-os com uma resistência e uma velocidade impressionantes. Vaticinámos que seria o seu fim. 

Na minha tentativa para o disciplinar, andei bastante com ele na estrada que atravessa o campo, chamando-o e prendendo-o com a trela, cada vez que passava um carro. 

Tudo correu bem até à explosão da Primavera. De um dia para o outro sentia-se uma euforia na atmosfera, e o Nestor parecia embriagado. Não me ouvia, e corria até desaparecer no horizonte. Quando o chamava via aparecer um pontinho ao longe, que parava, para depois continuar a sua frenética actividade. Só quando se apercebia que eu tinha retomado o caminho de casa é que se decidia a vir atrás de mim. 

No último passeio que demos, ao vê-lo saltar entre ervas altas e papoilas atrás de borboletas, pensei na alegria contagiante de que os cães, mais do que qualquer outro bicho, são capazes. Mas quando passaram dois carros não me obedeceu, de tal modo estava desaustinado. E regressei a casa desencorajada com a minha tentativa de reeducação. 

No dia seguinte foi brutalmente apanhado por um carro, que não o matou mas lhe cortou os nervos de um braço deixando-o irreversivelmente aleijado. Seguiu-se um mês de tentativa de recuperação e de cativeiro traumático. A única solução seria a amputação, que o Pedro se recusava aceitar. 

Quando finalmente o soltámos, cientes de que os danos eram irreversíveis, saltou de felicidade, mas imediatamente percebemos não só que a mão morta, que arrastava consigo, depressa ficaria ferida, como que, sendo um cão corpulento, se cansava brutalmente com o esforço de correr em três patas para acompanhar a matilha. 

Uma semana mais tarde, vendo a sua mão num estado miserável, com o calor e as moscas a atormentarem-no, decidi que não valia a pena continuar. Falei com o médico, que concordou que não o querendo amputar, nem manter preso, o futuro só podia ser um ciclo de tormentos. É uma decisão dolorosa, como só quem já passou por ela sabe, mas quando o que a vida tem para lhes oferecer é pouco mais do que sofrimento, penso que é uma prova de amor e respeito. O Nestor adormeceu tranquilamente em casa, na sua boxe. 


Esta manhã forcei-me a sair para andar a pé, o que não fazia há mais de um mês. Não ia sozinha, comigo iam todos os cães que um dia me acompanharam e já partiram e, mesmo ao meu lado, senti todo o tempo a presença do Nestor.

Maio 2020 . Calendário ArtEdit 2020

Sem comentários:

Enviar um comentário