sexta-feira, 10 de julho de 2020

Somos muito mais do que uma classificação num papel

A escola, e a importância dos resultados escolares, é um tema que me é recorrentemente caro. Por um lado, porque não me lembro de me sentir feliz e integrada na escola até muito tarde. Por outro, porque revivi muitos dos meus problemas pessoais através dos meus filhos. No momento em que as minhas netas iniciam a escolaridade, já não dependem de mim as decisões, o que não me impede de me preocupar com a sua felicidade e o seu bem estar.

Atribui-se demasiada importância às notas escolares, e desde cedo, e até acabarem os estudos, pressionam-se, exacerbadamente, os miúdos para que obtenham bons resultados.
Não é que os resultados não sejam importantes, claro, mas não deveriam ser o mais importante, basta pensarmos o quanto as notas e os exames, que assumem uma gigantesca importância quando se é estudante, são efémeros no contexto de uma vida.

As boas classificações não são um inequívoco sinal de inteligência, ou de seres mais ou menos capazes. Nem sequer garantem a excelência na vida profissional. As notas indiciam força de vontade, determinação, dedicação e facilidade em memorizar, qualidades que vi surgir em miúdos completamente desinteressados na escola, quando finalmente encontram e se dedicam ao que lhes interessa.

Todos nascemos com qualidades e talentos naturais. E todos temos pontos fracos e pontos fortes. Talvez a abordagem da educação devesse ser diferente, e em vez da repreensão, por não se obter o resultado esperado em determinadas matérias – os pontos fracos –, fosse mais produtivo estimular a expressão dos pontos fortes.

O juízo dos professores e as notas escolares diluem-se e esfumam-se na vida de cada um, mas a confiança e a auto-estima são competências que se adquirem, ou não, muito cedo, e que farão toda a diferença no percurso daí para a frente.

Gosto muito deste excerto de uma entrevista feita a Agostinho da Silva, uma ideia que não só todo o educador devia ter sempre presente, como nos devia acompanhar toda a vida, sobretudo em momentos críticos, em que os alicerces tremem:

Cada pessoa que nasce deve ser orientada para não desanimar com o mundo que encontra à volta. Porque cada um de nós é um ente extraordinário, com lugar no céu das ideias; se nos soubermos lavar da lama que se nos pegou quando aparecemos na terra, seremos capazes de nos desenvolver, de reencontrar o que em nós é extraordinário, e transformaremos o mundo.                                                                                                        Agostinho da Silva, (Entrevista, 1985 – Dispersos, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1988)

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