terça-feira, 4 de julho de 2017

Sobre o medo e o amor



O amor é o que nasce connosco. O medo é o que aprendemos. A viagem espiritual pressupõe uma desaprendizagem do medo e dos preconceitos e a aceitação do amor de volta ao nosso coração.
Marianne Williamson

Nascemos com amor-próprio, mas cedo aprendemos o que significa o medo, a vergonha, a insegurança de não corresponder ao que se espera de nós. A auto-confiança, que é o antídoto destes sentimentos, está directamente dependente da apresentação de resultados, e se a pré-disposição genética é uma vantagem, o enquadramento não é menos importante.

Temos uma sociedade cada vez mais competitiva. A perfeição é a fasquia. A comparação é o incentivo. Quem ganha é óptimo, quem perde não é suficientemente bom. Como os óptimos são as exceções, a mensagem para a maioria é de que não está à altura das expectativas. Logo, o resultado é, na melhor das hipóteses, a insatisfação ou, na pior, a frustração e a baixa-estima.

Tudo isto é incutido nos primeiros anos. Na idade em que as crianças deviam simplesmente brincar, e a brincar aprender a conviver e a enquadrar-se no ambiente – tão simples, tão importante e tão pouco valorizado quanto isto –, estão já a ser «massacradas» e avaliadas com letras, números e outros conceitos abstractos. Resultado: na idade em que deviam estar a forjar o carácter, que está tão associado à auto-estima, desenvolvem medos, vergonhas e inseguranças, feridas e cicatrizes que vão perdurar pela vida fora.

Com o tempo aprende-se a controlar estas e outras emoções, a criar carapaças de protecção e estratégias que deem a sensação de autossuficiência. Mas é preciso (matur)idade para perceber que o modelo de perfeição que nos guiou e nos atormentou é absurdo, que todos temos fragilidades, com as quais alguns lidam melhor do que outros. Somos o que somos, e fazemos e fizemos, o que soubemos e pudemos. Ponto. Só depois desta constatação estaremos finalmente aptos a regenerar feridas antigas, capazes de descodificar o medo, a vergonha e a insegurança, de regresso ao amor.

Curiosamente, quanto mais aprofundamos o que quer que seja, mais nos apercebemos do pouco que sabemos. E, sobretudo, mais importante do que as certezas que vamos adquirindo, compreendemos que haverá sempre mistérios por desvendar.


Aprendemos, literalmente, até morrer, e quanto mais velhos, mais capacidade temos de «apreender». É certo que a sociedade não valoriza esta bagagem, mas isso é outra conversa. Libertarmo-nos do julgamento alheio, e proceder por nós e para nós, faz parte da aprendizagem.

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