Animal lovers are a special breed of humans, generous of spirit, full of empathy, perhaps a little prone to sentimentality, and with hearts as big as a cloudless sky.
John Grogan Marley and Me
Quando há trinta e cinco anos vim viver para o Alentejo o espaço que seria o nosso era um monte de destroços resultante de cinco anos de uma ocupação selvática. Exceptuando a própria casa, que sabe-se lá porquê salvaguardaram, tudo o mais foi utilizado até deixar de funcionar, e subsequentemente abandonado. A herdade foi-nos entregue quando já não havia uma máquina, um tractor ou um gerador que funcionasse, e durante o primeiro ano o trabalho foi não só limpar, recuperar e reequipar, como transformar todo o ambiente dando-lhe o nosso cunho pessoal, povoando o deserto alentejano com árvores e bicharada, e instituindo regras de respeito e protecção pela natureza até então totalmente desconhecidas. Apesar da incompreensão do nosso pessoal, a caça e os tiros foram banidos para convidar a passarada a regressar. Particularmente difícil foi fazer aceitar o respeito pelas cegonhas, por tradição mal vistas, detestadas e perseguidas. Foi pois uma emoção inesquecível assistir à construção do seu primeiro ninho, ainda que no topo de um silo, longe do alcance humano. A minha admiração pelas cegonhas começou aqui, observando a perseverança e o engenho com que construíam aquele ninho a mais de doze metros de altura, numa superfície redonda e escorregadia. O trabalho de equipa do casal, o esforço de carregar galhos enormes no bico, o cuidado a equilibrá-los, os sucessivos malogros, o recomeçar vezes sem fim até conseguirem segurar os primeiros galhos que serviriam de base a uma estrutura sólida e maravilhosamente bem arquitectada. Depois foi o chocar dos ovos à vez, até surgirem três cabeças pequeninas, e a criação repartida – enquanto um dos progenitores tomava conta das crias, ameaçando à distância quem se aproximasse, o outro caçava e trazia-lhes alimento –, até por fim os filhos se lançarem no ar atrás dos pais. Partiram todos juntos, para regressarem juntos no princípio da época seguinte. O primeiro ninho foi restaurado e outro ninho foi construído no silo do lado. E nunca mais parou. A cegonhas e os ninhos multiplicaram-se com os anos, cada vez mais baixo e perto de nós, no que foi talvez o primeiro santuário de cegonhas da região.
Anos mais tarde, sob pressão da Quercus, as cegonhas passaram a ser uma espécie protegida, com direito à construção de poleiros altos e estáveis para construírem os seus ninhos, e assim proliferaram nesta zona do Alentejo.
Já não existem os silos onde construíram os primeiros ninhos na nossa herdade, mas em compensação temos dezenas de outros ninhos por todo o lado, e a descendência daquele primeiro casal, que confiou em nós quando todos os hostilizavam, continua a regressar todos os anos para aqui se multiplicar.
Coragem, perseverança, engenho, adaptabilidade, entreajuda, verdadeira partilha de vida – do prazer e do dever–, e um extraordinário sentido de orientação, tudo isto me têm ensinado, ao longo dos anos, as cegonhas.
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