quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

A esfera da inspiração Calendário ArtEdit 2018

Le persone con cui i nostri cammini si incrociano lasciano cadere dei semi dentro di noi, e questi semi magari anche dopo molto tempo germogliano e diventano alberi immensi.
Piero Ferrucci Le Sfere di Indra


Em Outubro de 2013, cerca de oito mil budistas vindos de todo o mundo concentraram-se em Cascais, para durante uma semana celebrarem um festival anual. Ninguém se apercebeu do evento até à véspera da abertura, quando milhares de monges e monjas budistas começaram a chegar e a «tomar de assalto» a vila, em pequenos grupos ou sozinhos. Para além do exótico dos seus trajes no nosso cenário, o que me impressionou desde logo foi a sua expressão. Serenos e sorridentes, contrastavam de tal modo com o nosso ambiente cinzento, chuvoso, desesperançado e tristonho, com a nossa barulhenta e atordoada aceleração, que mais parecia estarem a chegar de um outro planeta. Impossível passarem despercebidos, além dos trajes havia qualquer coisa neles que se propagava como um manto de paz e felicidade à sua passagem. 
Sei que sou suspeita, porque desde sempre a filosofia oriental exerce sobre mim um enorme fascínio, por isso vou falando com uns e com outros, com gente simples, que nunca ouviu falar em budismo, para sentir se também eles partilham a minha percepção da energia positiva que esta gente transporta e espalha. Ninguém parece ficar indiferente a estes monges que se alojam por todo o lado num raio de 5 ou mais quilómetros, percorridos a pé de cá para lá, que entram nos nossos cafés, restaurantes, supermercados, que invadem as nossas vidas quotidianas. A curiosidade aproxima-me do recinto onde decorre o festival. O hipódromo de Cascais foi invadido por uma organização de autênticas formigas, ordeiras e disciplinadas, que ergueram tendas monumentais, templos, recepções, restaurantes, lojas, casas de banho, etc. tudo cuidadosamente previsto e mantido. A segurança vigia todas as entradas, mas é possível observar cá de cima a ordem e a calma com que milhares de pessoas se movimentam neste espaço. 
Uma das participantes, que também faz parte da organização, está alojada numa casa de hóspedes de um irmão meu. Convenço-o a interceder junto dela para poder assistir a uma palestra. Aceita na condição de previamente se encontrar comigo para me conhecer, leia-se para me testar e compreender as minhas verdadeiras intenções. Kay é uma irlandesa de cerca de sessenta anos que em dada altura da sua vida trocou a religião católica com que foi educada pelo budismo. Há doze anos que estuda e pratica com um mestre, mas considera-se uma principiante. Tomamos chá e, com a tranquilidade dos que abraçaram esta via, faz-me uma introdução ao budismo. Enquanto a oiço falar, recordo a expressão de felicidade das pessoas que cruzei nos últimos dias e o tom baixo e suave das suas vozes. 
A tão desejada participação numa palestra de um reputado mestre revelou-se afinal muito pouco interessante para mim. A complexidade das ideias, juntamente com o inglês imperceptível do velho monge tibetano, mais a decoração e os aromas do ambiente, em nada me seduziram. Dir-se-ia que a minha experiência com o budismo ficou por aqui. 

Alguns anos depois, no momento de começar a pintar o meu calendário, apercebi-me que a aceleração e atropelo habituais tinham cedido lugar a uma tranquilidade e uma alegria inéditas, e o resultado foi o calendário mais bonito e que mais prazer me deu produzir em dez anos. Lembrei-me da lição dos budistas, que finalmente frutificava, que se traduz numa atitude calma de humildade, respeito e encantamento perante o que se nos depara, e que se propaga ao que fazemos. É esta abordagem da vida que produz o que os orientais chamam estado zen, uma sensação de paz, harmonia, contentamento, porque o que damos recebemos, na mesma onda, ao mesmo ritmo, com a mesma intensidade. 

Somos o somatório de múltiplas contribuições dos que cruzámos, pessoalmente ou através das suas obras, e que nos deixaram qualquer coisa de si, que pode não desencadear uma reacção imediata, mas um dia, quando menos esperamos, irá germinar numa flor singela ou, quem sabe, numa árvore esplendorosa. Faz parte do encanto desta esfera de inspiração, onde damos e recebemos constantemente e até ao fim.

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