Hope is the thing with feathers
That perches in the soul,
And sings the tune without the words,
And never stops at all…
Emily Dickinson
Acomodam-se as crianças nos carros atulhados de bagagem, últimos beijos e arrancam de regresso a suas casas.
Quando já rastejante de cansaço os vejo partir, a minha tristeza é proporcional à felicidade com que os vejo chegar. Invade-me um vazio inexplicável, uma sensação de que o tempo não chegou para me saciar as saudades, uma sensação de que vivemos cada vez mais agitados, numa aceleração contínua, para cumprir objectivos que convencionamos serem indispensáveis, em detrimento do que será mais importante, que nos enche a alma e aquece o coração. O mesmo tempo que se arrasta quando sentimos a resistência a falhar, torna-se rápido demais quando constatamos que ainda agora chegaram e já estão de partida.
Depois apercebo-me de que a atmosfera arrefeceu, a luz mudou e que, uma vez mais, o Verão acabou ainda antes de começar para mim, porque tudo o que vivi até aqui: calor, mosquitos, trabalho, foram apenas os preliminares do Verão do meu imaginário.
Por muito que vá sendo desvirtuado pelas suas vicissitudes, associo o Verão a férias, as férias à praia e a praia ao Guincho. Ou seja à minha infância e juventude, e aos tempos de sonho e despreocupação. Todos os anos tenho esperança que me seja devolvido um pouco do Verão dos meus sonhos e, no entanto, cada vez me distancio mais.
O Verão tornou-se sinónimo da ameaça constante de fogos, do calor sufocante no Alentejo, de picadas de mosquitos que infectam. De autoestradas cheias de trânsito cada vez que tenho de ir a Lisboa – e morre-se, casa-se, festeja-se, adoece-se muito nestes meses de canícula! De supermercados cheios de movimento, de muita cozinha, muita loiça, muita roupa, crianças, birras, passeios, banhos, noites mal dormidas, e dos mais doces e ternurentos abracinhos também. De muita solicitação! E eu que não sei dizer que não, e que anseio por todos os minutos em que tenho por perto filhos e netas!
Este ano o «meu» Verão resumiu-se a cinco caminhadas na praia, três banhos de mar, e uma tarde livre em que deambulei pelo Cascais velho que adoro, explorei a feirinha do livro transplantada para o jardim da Parada, comi um Santini e, talvez por ter sido tão pouco e tão breve, gozei cada minuto e tudo isto me soube pela vida. Para o ano haverá Verão outra vez, com renovados planos e renovada esperança... esse passarinho que pousado na alma, nos entoa uma canção sem palavras, que não se esgota nunca ...
Sem comentários:
Enviar um comentário