Uma das mais graves
características dos nossos tempos é a paranoia da competição, que define cada
um pela comparação com o outro. Na vida privada ou profissional avaliam-nos e
avaliamo-nos não pelo que somos, tout
court, mas pelo que somos em relação aos outros, aos que partilham a nossa
órbita.
Desde cedo, os miúdos
são pressionados para emergir na escola, liceu, universidade, a qualquer preço,
sabendo que mais tarde serão classificados pela sociedade onde se inserem
primeiro pelas competências académicas, depois pela apresentação de resultados
práticos no trabalho e finalmente pelo poder de compra. O que até faria sentido
se não tivéssemos com o exagero, e a necessidade/ambição de cumprir objectivos,
criado uma sociedade egocêntrica, tremendamente egoísta, que esqueceu a
importância das qualidades humanas, a começar pelo significado de compaixão, o
sentimento que melhor nos define enquanto seres humanos, iguais entre iguais.
Estamos rodeados de
gente com mais preparação técnica do que nunca, mas o mundo carece urgentemente
não de crânios virados para o seu umbigo e focados na sua carreira, mas de
seres humanos capazes de olhar e ver os outros e o ambiente à sua volta.
Capazes de resgatar dentro de si todas as qualidades humanas congeladas quando,
empurrados para a selva, se viram forçados a endurecer para sobreviver.
As consequências
imediatas desta deturpação na formação e educação são, por um lado, a
insegurança trazida por uma nova forma de guerra que usa como armas a surpresa,
a traição e a indiscriminação de alvos e, por outro, as catástrofes resultantes
de um secular desprezo pelo impacto das nossas acções no ambiente.
Quando, em 2006, Al Gore
realizou o magnífico documentário Uma
Verdade Inconveniente, ninguém interiorizou que as consequências do uso
abusivo dos nossos recursos naturais nos cairiam em cima no dia seguinte.
Começou com cheias, incêndios, tremores de terra, furações noutros continentes,
mas o rastilho estava lançado e não tardou a chegar à Europa.
Muito está ainda por
explicar, não tanto sobre a determinação das causas, mas sobre a extensão das
consequências e, com ou sem ligação directa, contemplamos hoje, consternados e
impotentes, o desmoronar do coração de Itália, a nossa herança cultural, entre
tantas outras catástrofes.
No meio da aflição
devemo-nos um acto de contrição não só pela impassividade perante as ameaças,
mas sobretudo pela (de)formação educativa e cultural humana que está por trás da escalada
desenfreada, que conduziu ao impacto ambiental e ao resultado presente. Valores,
interesses, objectivos, modos de pensar e de viver devem ser seriamente
repensados, porque o futuro depende de um esforço conjunto, que obriga cada um
a sair da sua microscópica zona de conforto, para contribuir para uma viragem
global.
Retomando o tema, a
competição que mais nos beneficia, será sempre a que travamos connosco, mas
aprender a competir com os outros também pode ser uma mais valia, porque
estimula e incentiva a dar mais e melhor. No entanto, ou conseguimos recuperar
e incutir o conceito de «fair play»: do jogo limpo, com ética, justiça,
respeito pelas regras e pelo adversário, ou a vitória terá sempre um sabor
amargo. Competir, tal como se pratica hoje: cada um por si e para si, só pode
conduzir à desagregação, e o futuro, real e muito pragmático, depende do
oposto, depende da agregação, do esforço conjunto, da entreajuda: todos por
todos e pelo mundo que partilhamos.
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