Todos experimentámos perdas de
alguma natureza na vida. Portas por onde entramos que desaparecem e já lá não estão
quando queremos sair. Mas o importante no fim não são as perdas ou as causas em
si, mas sim aquilo que nos abrem, que nos proporcionam estas experiências. Não
se trata de minimizar a perda, mas é através dela que se acede ao patamar
seguinte do nosso percurso. As duas etapas, a dura e a reveladora, fazem parte
da dinâmica da experiência humana, e Deus está presente em ambas, é o ritmo das
duas que nos permite a experiência do céu na terra.
Mark Nepo
Sentimo-nos únicos,
especiais, diferentes, e somos no pormenor, mas não na essência, que nos
aproxima e identifica muito mais do que nos distingue.
Nascemos inteiros, mas
precisamos dos outros para nos sentirmos completos, disse Mark Nepo, o poeta
americano. Queremos ser ouvidos, precisamos de testemunhas pelo caminho, mas
ninguém está verdadeiramente interessado na narrativa do outro, a não ser
quando nela descobre detalhes que lhe são familiares, quando ela dá voz à sua
voz.
Num mundo barulhento,
turbulento, muito mais destrutivo do que construtivo, todos se sentem
habilitados a opinar e a julgar as atitudes dos outros. E é tão fácil, tão
tentador, julgar, crucificar, aconselhar, sobre o que nos é estranho.
Mas não é assim que
funciona. Ninguém está habilitado a opinar sobre o outro, a menos que tenha
passado por uma experiência idêntica. Aquele que passou pelo nosso patamar, e
que nos pode ouvir e falar de igual para igual, é a única voz que nos pode
complementar e ajudar a juntar os bocados de nós que ficaram dispersos quando
nos fragmentámos, permitindo-nos recuperar a integridade perdida.
Assumir a perda e a dor,
que num ou noutro momento é comum a todos,
pressupõe ter feito a viagem de ida e volta, e implica coragem, quer
para quem ousa falar dos aspectos mais lunares que lhe deram acesso a outros
mais luminosos, quer para quem ousa ouvir e compactuar.
Aprende-se a ser
tolerante, através da intolerância dos outros connosco. Aprende-se a não julgar
deliberadamente, com quem nos julgou deliberadamente. Aprende-se a valorizar a
gratidão, com a ingratidão dos outros. Aprende-se a perceber que o sarcasmo e a
indiferença escondem muitas vezes frustração, inveja, cobardia. Aprende-se a
dar graças pela saúde e pela vida, perante a doença ou a morte, nossa ou dos
outros. Aprende-se a ouvir em silêncio, com aqueles que se dispõem a ouvir-nos.
Aprende-se a valorizar a paciência, a generosidade, a prestabilidade, com o
sorriso com que nos retribuem o que damos ou fazemos voluntariamente. Aprende-se, aprende-se sempre, ora pela
positiva, ora pela negativa.
As lições mais
aparatosas são as que nos desintegraram, mas são também estas que nos
projectaram noutro patamar.
As lições que nos
reintegraram são as mais silenciosas, são as que nos ensinaram a arte de juntar
pacientemente os cacos, as que nos reconduzem, num processo sereno, para
voltarmos a ser inteiros, e são as que nos devolvem a esperança.
E esta frágil dualidade
entre a sombra e a luz, que interagem e se complementam constantemente,
constitui, porventura, a dinâmica da experiência humana.
(Calendário Art Edit 2017)
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