Presto
Era uma vez um homem que corria e
corria pela vida… A vida era curta e necessitava de correr muito para a gozar
muito e ser feliz. E quanto mais corria, mais necessitava de correr! Descobria
sempre mais lugares para visitar! Necessitava encontrar tudo e gozar de tudo.
Até que um dia, cansado de tanto correr, parou. Então, a felicidade pôde
alcançá-lo.
Vasco Pinto
de Magalhães, s.j. Não há soluções, há caminhos
Corremos pela vida. Podemos correr atrás da
felicidade, como quem corre atrás de uma miragem, ou, o mais das vezes, mesmo
sem que disso tenhamos consciência, corremos à frente da felicidade, numa fuga
em frente com mil propósitos, funções, obrigações, alimentados pela adrenalina,
que nos evita enfrentar ou confrontar tudo o que não escolhemos deliberadamente
mas faz parte integrante da nossa vida.
Correr pode ser, é quase sempre, um modo de vida, que
abraçamos enquanto temos energia, pernas, justificações. Vem-me à lembrança um
livro que o meu Pai me deu a ler há muitos anos: La Solitude du coureur de fond, de Alan Sillitoe, onde a corrida é
utilizada como meio de libertação e reflexão. A corrida de fundo permite esta
abordagem, pois por definição tem objectivos à distância, já a corrida onde nos
envolvemos e esgotamos diariamente é mais do tipo sprint multidireccional, com
objectivos a muito curto prazo, sem espaço nem tempo para reflexões.
Corremos até ao dia em que as circunstâncias nos forçam
a parar. Só então, com o baixar da adrenalina e o acalmar das águas, é possível
ver à transparência a verdade dormente, o que nos permite ou obriga a descobrir
outros andamentos, caminhos alternativos, em última análise a reestruturar a
nossa vida: laços afectivos, valores, propósitos. É um processo moroso e
doloroso, implica assentar e processar muita poeira.
De qualquer forma, mesmo sem sermos forçados a
isso, se queremos que qualquer coisa de mais profundo e duradouro nos anime a
vida precisamos de parar de correr a dada altura, e deixar que, tal como o fim
das ondas quando suavemente nos alcançam na praia, a paz, a harmonia, e por
arrasto a felicidade nos invadam.
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