segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Presto

Era uma vez um homem que corria  e corria pela vida… A vida era curta e necessitava de correr muito para a gozar muito e ser feliz. E quanto mais corria, mais necessitava de correr! Descobria sempre mais lugares para visitar! Necessitava encontrar tudo e gozar de tudo. Até que um dia, cansado de tanto correr, parou. Então, a felicidade pôde alcançá-lo.
                                                           Vasco Pinto de Magalhães, s.j.  Não há soluções, há caminhos


Corremos pela vida. Podemos correr atrás da felicidade, como quem corre atrás de uma miragem, ou, o mais das vezes, mesmo sem que disso tenhamos consciência, corremos à frente da felicidade, numa fuga em frente com mil propósitos, funções, obrigações, alimentados pela adrenalina, que nos evita enfrentar ou confrontar tudo o que não escolhemos deliberadamente mas faz parte integrante da nossa vida.

Correr pode ser, é quase sempre, um modo de vida, que abraçamos enquanto temos energia, pernas, justificações. Vem-me à lembrança um livro que o meu Pai me deu a ler há muitos anos: La Solitude du coureur de fond, de Alan Sillitoe, onde a corrida é utilizada como meio de libertação e reflexão. A corrida de fundo permite esta abordagem, pois por definição tem objectivos à distância, já a corrida onde nos envolvemos e esgotamos diariamente é mais do tipo sprint multidireccional, com objectivos a muito curto prazo, sem espaço nem tempo para reflexões.  

Corremos até ao dia em que as circunstâncias nos forçam a parar. Só então, com o baixar da adrenalina e o acalmar das águas, é possível ver à transparência a verdade dormente, o que nos permite ou obriga a descobrir outros andamentos, caminhos alternativos, em última análise a reestruturar a nossa vida: laços afectivos, valores, propósitos. É um processo moroso e doloroso, implica assentar e processar muita poeira.


De qualquer forma, mesmo sem sermos forçados a isso, se queremos que qualquer coisa de mais profundo e duradouro nos anime a vida precisamos de parar de correr a dada altura, e deixar que, tal como o fim das ondas quando suavemente nos alcançam na praia, a paz, a harmonia, e por arrasto a felicidade nos invadam.

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