segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Verdades inconvenientes

As for why so many people still resist what the facts clearly show, I think, in part, the reason is that the truth about the climate crisis is an inconvenient one that means we are going to have to change the way we live our lives.
Al Gore An Inconvenient Truth(2006)

Na natureza, com a sua capacidade de se transformar para reagir às agressões impostas, encontramos as maiores lições de adaptabilidade, resiliência, imaginação. Mas nós, humanos, muito menos dotados destas qualidades, temos grande dificuldade em implementar mudanças no nosso modo de vida.
Habituámo-nos a associar a qualidade de vida ao nível económico, e este ao consumo. Carros, telemóveis e afins de última geração, viagens, mais tudo o que se possa comprar. Mas orientámo-nos mal e rumámos na direcção errada, porque qualidade de vida é exactamente o que nos falta, a começar pelo ar contaminado que respiramos e pelos alimentos processados e desvirtuados que comemos. 
As viagens, que já foram um privilégio de alguns, banalizaram-se. Hoje todos viajam, para todo o lado, constantemente. O que seria ótimo, se o turismo de massa que se faz hoje, em que tudo se processa em rebanho, pré-programado e com infinitos tempos de espera, não tivesse destruído completamente o encanto da descoberta do desconhecido. Visto de fora para dentro, as cidades, os portos, as vilas, que nos arrancavam do conforto de casa para as visitar e vivenciar, estão a ter progressivamente destruído justamente o que as tornava especiais e atraentes outrora. Visto de dentro para fora, em nome de interesses económicos de alguns, a vida de muitos (todos os invadidos) está a infernizar-se a olhos vistos. Especial destaque devem ter os cruzeiros transatlânticos, essa grande invenção das cidades flutuantes, que não só despejam quatro a sete mil pessoas de uma assentada, nalguns casos em portos onde a população local é inferior aos invasores..., como brindam os locais por onde passam com uma poluição vinte vezes superior aos centros de grandes cidades com tráfico intenso.

Em poucos anos, o desastre ambiental passou do nível de alerta –previsão, ameaça –, ao do toque dos sinos a rebate. Deixou de ser uma preocupação relativa a um futuro longínquo, de uma minoria alternativa (e incomodativa...), para se tornar um assunto na ordem do dia, uma verdade inconveniente, que mais ou menos directamente nos afecta a todos,

Independentemente das catástrofes naturais, a consequência mais visível do problema, temos cada vez mais poluição, mais alergias congénitas ou adquiridas, inúmeras intolerâncias alimentares, mais problemas respiratórios, mais vírus e maleitas desconhecidas, e mais cancros e doenças neuro-degenerativas, em pessoas cada vez mais novas. 

Mas não tendo a milenar sabedoria da Natureza, e na dificuldade em reverter processos em curso ou alterar modos de vida, insistimos na opção da fuga em frente. Até quando?

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