domingo, 4 de março de 2018

Março 2018 . Suspenso

Even cowards can endure hardship; only the brave can endure suspense.
Mignon McLaughlin

Não há pior do que viver em suspenso, porque é o maior obstáculo para podermos gozar a vida e o momento.
No entanto, vivemos quase todos, quase sempre, suspensos. Viver suspenso significa estar dependente do que nos é estranho. De circunstâncias, de outras pessoas, de reacções, atitudes, humores, de palavras e de silêncios. De tudo cujo desenrolar não depende da nossa acção e nos pode surpreender a qualquer momento. Alguns conseguem gerir tudo isto com mais desenvoltura, mas quanto mais vulneráveis, mais difícil se torna «sacudir».

Todos conhecemos números de equilibrismo no arame, a maior ou menor altitude, com ou sem rede de segurança. Mas uma coisa é lançarmo-nos voluntariamente no desafio, e outra é sermos empurrados, como tantas vezes acontece, sem preparação nem pré-aviso, para mais uma travessia solitária, que nos suga a concentração, nos dispara a adrenalina ao rubro, e consome toda a energia.

O viver suspenso gera frequentemente insegurança, e a insegurança por seu turno gera o medo, o nosso pior aliado. Passando da narrativa pessoal à generalização, esta sequência derrotista, infelizmente, tornou-se uma tónica do nosso tempo, uma praga que tem vindo a contaminar o mundo, numa escalada progressiva.

Para os amadores que somos, o trabalho para nos treinarmos a descartar preocupações por antecipação, a despoluir a alma e a focarmo-nos no momento evapora-se quando, sem que tenhamos contribuído para isso, inesperadamente nos encontramos no meio de um turbilhão, suspensos no arame. Tal como para o acrobata profissional, a solução ou prevenção das piores consequências passa pelo esforço, persistência, para apurar o controlo e o equilíbrio em qualquer circunstância. E representa anos de treino consecutivo.

Aprende-se a viver sem fazer planos, a ter esperança sem esperar quase nada. A perceber, sem dramatizar, que quanto menos esperarmos menos nos desencantamos. A deixar a vida fluir e passar por nós, sem lhe erguermos obstáculos que lhe compliquem o curso. E convém não confundir o viver com esperança, com o viver em suspenso. O primeiro caso dá-nos força, pacifica-nos, é uma fonte de alegria, o segundo pode minar e aniquilar qualquer hipótese de alento, comprometendo-nos a paz, e toldando-nos a alegria.


Embora o tempo e a vontade se encarreguem de nos irem revestindo de sucessivas camadas impermeáveis, que nos permitem melhorar o jogo de cintura no dia a dia – o treino do acrobata –, estaremos sempre sujeitos a ser surpreendidos por um temporal, para o qual não haverá impermeável que nos proteja. Mas mesmo encharcados até aos ossos não podemos desmoralizar, mais do que nunca temos de fazer apelo a todos os recursos, quanto mais não seja cientes de que tudo é passageiro, que não há mal que sempre dure, ou que, como nos dizia o meu Pai, après la pluie le beau temps.

Calendário ArtEdit 2018

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