Even cowards can endure
hardship; only the brave can endure suspense.
Mignon
McLaughlin
Não há pior do que viver
em suspenso, porque é o maior obstáculo para podermos gozar a vida e o momento.
No entanto, vivemos
quase todos, quase sempre, suspensos. Viver suspenso significa estar dependente
do que nos é estranho. De circunstâncias, de outras pessoas, de reacções,
atitudes, humores, de palavras e de silêncios. De tudo cujo desenrolar não
depende da nossa acção e nos pode surpreender a qualquer momento. Alguns
conseguem gerir tudo isto com mais desenvoltura, mas quanto mais vulneráveis,
mais difícil se torna «sacudir».
Todos conhecemos números
de equilibrismo no arame, a maior ou menor altitude, com ou sem rede de
segurança. Mas uma coisa é lançarmo-nos voluntariamente no desafio, e outra é
sermos empurrados, como tantas vezes acontece, sem preparação nem pré-aviso,
para mais uma travessia solitária, que nos suga a concentração, nos dispara a
adrenalina ao rubro, e consome toda a energia.
O viver suspenso gera
frequentemente insegurança, e a insegurança por seu turno gera o medo, o nosso
pior aliado. Passando da narrativa pessoal à generalização, esta sequência
derrotista, infelizmente, tornou-se uma tónica do nosso tempo, uma praga que
tem vindo a contaminar o mundo, numa escalada progressiva.
Para os amadores que
somos, o trabalho para nos treinarmos a descartar preocupações por antecipação,
a despoluir a alma e a focarmo-nos no momento evapora-se quando, sem que
tenhamos contribuído para isso, inesperadamente nos encontramos no meio de um
turbilhão, suspensos no arame. Tal como para o acrobata profissional, a solução
ou prevenção das piores consequências passa pelo esforço, persistência, para
apurar o controlo e o equilíbrio em qualquer circunstância. E representa anos
de treino consecutivo.
Aprende-se a viver sem
fazer planos, a ter esperança sem esperar quase nada. A perceber, sem
dramatizar, que quanto menos esperarmos menos nos desencantamos. A deixar a
vida fluir e passar por nós, sem lhe erguermos obstáculos que lhe compliquem o
curso. E convém não confundir o viver com esperança, com o viver em suspenso. O
primeiro caso dá-nos força, pacifica-nos, é uma fonte de alegria, o segundo
pode minar e aniquilar qualquer hipótese de alento, comprometendo-nos a paz, e
toldando-nos a alegria.
Embora o tempo e a
vontade se encarreguem de nos irem revestindo de sucessivas camadas
impermeáveis, que nos permitem melhorar o jogo de cintura no dia a dia – o
treino do acrobata –, estaremos sempre sujeitos a ser surpreendidos por um
temporal, para o qual não haverá impermeável que nos proteja. Mas mesmo
encharcados até aos ossos não podemos desmoralizar, mais do que nunca temos de
fazer apelo a todos os recursos, quanto mais não seja cientes de que tudo é
passageiro, que não há mal que sempre dure, ou que, como nos dizia o meu Pai, après la pluie le beau temps.
Calendário ArtEdit 2018
Como sempre, muiro bem escrito e inspirador.Parabéns Emilia.
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