segunda-feira, 3 de julho de 2017

Ser vs pretender ser



If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with Kings - nor lose the common touch (…)
Rudyard Kipling, If

Cada vez tenho menos paciência para festas, casamentos, cocktails, vernissages, jantares com mais de uma dúzia de pessoas, conversas de circunstância, alegrias forçadas, diálogos estereotipados e carnavais afins.

No entanto, cada vez gosto mais de conhecer pessoas, entabular conversas, conhecer histórias de vida, trocar ideias, sobretudo com gente simples, que diz o que pensa, sem intenções encapotadas, sem temer críticas, nem se preocupar em causar sensação.

Na verdade, até gosto muito de pessoas, o que não suporto é o postiço e a preocupação em fazer de conta que se é o que não se é: culto, inteligente, informado, graduado, chique, bem nascido, por aí fora, e depois, noutras esferas, menos lavadinhas, movem-se os pseudo: intelectuais, artistas, radicais: igualmente aberrantes. Nada tenho contra estes atributos, note-se, mas não há mais patético do que insistir em envergar um estereótipo, sobretudo quando a roupinha não nos assenta, porque não nos pertence, e nos apresenta mascarados. Nem em criança gostei do Carnaval!

Tudo isto se torna mais patético ainda pelo facto destes almejados atributos não definirem, por si só, o valor pessoal. Cada um é o que é: inteligente, artista, culto..., nem por isso, ou nada disto. Resulta de características genéticas, do ambiente onde nasceu, da educação que teve, (pelo qual nada fez e contra o qual pouco pode), mas o que o define, e faz de alguém uma pessoa especial, digna de respeito e admiração, é a forma como geriu quer o seu potencial à partida, quer sobretudo a sua vida, as alegrias e as tristezas, a sorte e o azar, o destino que lhe coube.

O que procuro e valorizo cada vez mais em quem encontro é a autenticidade, ter a frontalidade de assumir, naturalmente, o que se é em todas as circunstâncias, mantendo total liberdade nas escolhas ou nos gostos, independente e indiferente a etiquetas e opiniões pré-definidas. E, sobretudo, procuro e valorizo o carácter, a sensatez, a boa disposição, a bondade, a generosidade, que também posso encontrar em pessoas cultas, inteligentes, bem nascidas, radicais etc., mas com muito mais probabilidades tenho encontrado em pessoas humildes, genuínas e despretensiosas.


Março, Calendário Art Edit 2017

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