segunda-feira, 11 de novembro de 2019
Probabilidade vs aceitabilidade
O «destino»e as suas tropas de guerrilha, os acidentes, decidem os conjuntos de escolhas com que se confrontam os artistas da vida. Mas é o «carácter»que decide as escolhas que são feitas.
O ambiente torna algumas escolhas mais prováveis do que outras. O carácter desafia essas probabilidades. Ele priva os acidentes da omnipotência que se acredita que eles tenham e que eles próprios afirmam ter. Entre a sua aceitação resignada e a decisão corajosa de desafiar a força das circunstâncias coloca-se o carácter. É o carácter do actor que submete as escolhas triunfalmente aprovadas no teste da«probabilidade»a outro teste, muito mais exigente, o da «aceitabilidade».
Zygmunt Bauman A Arte da Vida
Acredito que por trás de qualquer doença grave existe muitas vezes uma história traumática, mais ou menos prolongada, que suga a esperança, enquanto enfraquece as defesas naturais do organismo.
Os sintomas permitem identificar e tratar a doença, mas a precedê-los existem geralmente causas que permanecerão obscuras, muitas vezes insuspeitadas, e que em silêncio foram minando e devastando.
Morre-se de tristeza, de desencanto, de impotência, de cansaço, muito antes de aflorarem sintomas e soarem alarmes. Morre-se quando se perde a esperança. Estou a lembrar-me do livro de Viktor Frankl sobre o sentido da vida, inspirado na sua experiência durante o holocausto, em que explicava que aqueles que perdiam a esperança sucumbiam rapidamente.
E, no entanto, quando o cerco aperta e o céu escurece somos, regra geral, compelidos a reagir, é o carácter, a nossa arma pessoal, que em última instância decide se aceitamos pacificamente a nossa sorte ou reagimos contra as circunstâncias, e é impressionante a capacidade que temos de reinventar a esperança, às vezes tateando no meio do nada, e a força de que nos revestimos quando seguramos e seguimos esse fio ténue que nos pode reabilitar.
Não vivemos num mundo depressivo de trevas, nem tão pouco num meio eufórico de rosas. Somos um work in progressdo princípio ao fim. As circunstâncias ditam-nos os percalços, mas o que nos move é, tal como acontece com as plantas, a procura da luz.
Bauman começa e termina o seu livro AArte da Vidacitando Séneca: quando se trata de ver claramente o que torna a vida feliz (nós) tateamos em busca da luz, e acrescenta, dois milénios depois, não parecemos estar muito mais perto dessa luz do que os contemporâneos de Séneca. Continuamos a tatear. É nisso, em última instância que consiste a «arte da vida».
Ainda sobre a importância da vida social
Podemos não desejar viver cem anos, mas julgo que todos desejamos ter saúde enquanto por cá andamos. Quanto mais não seja para não depender dos outros.
Vivemos maioritariamente em cidades, onde mal conhecemos os vizinhos de patamar, quanto mais os habitantes do nosso prédio. Fechados em casulos, tentamos, precisamente, fazer o contrário do que seria benéfico para a nossa saúde: manter a distância e interagir o menos possível com o próximo. Cada um por si e Deus por todos!
Precisamos de tempo, dinheiro, energia para manter uma vida social activa. Regra geral, falta-nos tudo, ou quase tudo, isto, inseridos que estamos em máquinas que nos ditam o ritmo, as dependências, as prioridades, as despesas. O que é particularmente válido para as mulheres. Temos alma de bombeiro voluntário, sempre alerta e de serviço, prontas a acudir aos filhos, aos pais, aos maridos, aos netos e de volta, ainda e sempre, aos filhos.
Mas há um outro tipo de contacto social, a custo zero, igualmente, senão mais, proveitoso. Pessoalmente, sempre gostei de compensar a minha natural necessidade de isolamento conversando com quem cruzo diariamente. Na província, onde vivo há dois anos, é aliás muito comum entabular-se conversa. Faço-o espontaneamente, e sempre senti que me fazia bem, embora eu própria também esteja muitas vezes demasiado absorta nos meus problemas, e alheia ao que se passa à minha volta, para poder interagir com quem está à minha frente ou ao meu lado.
Um dos motivos para a diferença de esperança de vida feminina e masculina, está provavelmente na forma como as mulheres tendem a relacionar-se socialmente, e como tendem a cultivar as suas amizades pessoais, o que lhes pode reforçar um escudo biológico contra as doenças e o declínio. O outro motivo imagino que se prenda com o tal espírito de bombeiro, que nos torna úteis e activas durante mais tempo do que os nossos companheiros.
A falta de alguém com quem conversar é a principal queixa daqueles que deixam de ter «utilidade» social. As estatísticas dizem-nos que para cada pessoa haverá em média uma, duas, no máximo três outras com quem «acha» que pode contar, e que aqueles que se sentemsós (o que não é bem o mesmo do que viver só), têm o seu tempo de vida reduzido em 30% comparado com os seus pares. A solidão, até há pouco considerada um factor puramente subjectivo, afecta muito mais a imunidade do que se pensava, e o isolamento social tornou-se uma verdadeira ameaça para a saúde pública.
Paradoxalmente, se fisicamente se vive cada vez mais isolado, através das redes sociais encurtámos distâncias e podemos estar em permanente contacto uns com os outros. De facto, quem acompanhou o progresso ocupa hoje mais tempo on-line do que com qualquer outra actividade (incluindo dormir...), mas será que a interação digital produz um efeito semelhante ao contacto presencial? Tudo indica que não, já que o contacto pessoal liberta neurotransmissores que melhoram a autoconfiança e a sensação de segurança, reduzem o stress, induzem prazer, e é tudo isto que nos pode reforçar a imunidade.
O segredo de uma longa vida pode depender da vida social
Digital networks and screen media have the power to make the world seem much smaller. But when it comes to certain life-changing transformations, they’re no match for face-to-face.
Susan Pinker, The Village Effect: Why Face-to-face Contacts Matters
É curioso o facto de no mundo desenvolvido em geral, as mulheres viverem em média mais seis a oito anos do que os homens, mas a psicóloga canadiana Susan Pinker descobriu que há um lugar no mundo, em Villagrande, na ilha italiana da Sardenha, onde a esperança de vida dos seus cerca de 3000 habitantes não só é igual para os dois sexos, como existem dez vezes mais centenários do que em toda a América do Norte.
Intrigada, decidiu estudar quer os aspectos científicos, quer os hábitos de vida do lugar. Começando pelo perfil genético, descobriu que só concorre em 25% para este resultado, os restantes 75% relacionam-se com o estilo de vida. Depois considerou a possibilidade de poder depender de uma atitude positiva e de um temperamento alegre, mas ao entrevistar alguns dos centenários verificou que nem sempre eram pessoas prazenteiras. Por outro lado, observando os seus hábitos alimentares, constatou que a dieta (rica em massas e molhos) também não deveria estar na origem da longevidade. Ao tentar perceber qual seria o fator mais decisivo encontrou um estudo universitário americano que investigara, justamente, os índices que influenciam a longevidade, e que registara e analisara todos os aspectos relacionados com o estilo de vida de milhares de pessoas de meia-idade, ao longo de sete anos. Os resultados são surpreendentes, desde o indicador menos influente: o ar que respiramos, passando por aquilo que temos por decisivo, como uma alimentação regrada e o exercício físico, que afinal apenas contribuem moderadamente para vivermos mais tempo, chegando ao mais influente: as relações sociais, o quanto interagimos diariamente, e que tanto pode ser com quem nos está próximo afectivamente, como com aqueles que contactamos de passagem.
Pelo isolamento e pelo traçado da cidade – uma intrincada estrutura onde as casas se amontoam –, em Villagrande as pessoas vivem ainda com uma proximidade típica das vilas medievais. Resultado: todos se conhecem e se entreajudam. Ali tudo gira à volta da família, e dentro de cada família à volta dos mais velhos, os quais são considerados o centro da comunidade. Tratados com todas as deferências, nunca estão sós: familiares, amigos, vizinhos, vão passando, vão entrando, vão conversando, constantemente. Muito provavelmente, o segredo que mantém os moradores da ilha saudáveis dependerá exactamente da importância que os seus habitantes dão às relações pessoais e às interações cara-a-cara.
A evolução ditou-nos outros rumos. Ainda encontramos esta proximidade física nas aldeias rurais, mas não o respeito e a preocupação pelos mais velhos, que nas aldeias como na cidade acabam entregues a eles próprios, quando os mais novos partem em debandada. A família desagregou-se. É cada vez mais raro encontrar membros da família nuclear a viverem na mesma cidade, e podemos dar-nos por felizes enquanto os filhos ainda vivem no nosso país. O centro das atenções, com todos os direitos que, voluntária ou involuntariamente, lhe atribuímos, passou a ser privilégio de uma geração juvenil, para a qual o maior incentivo é o poder de compra, e o know-howque mais valoriza é o das novas tecnologias...! A solidão, muitas vezes emparceirada com a depressão, tornou-se um problema epidémico no mundo civilizado, começando a manifestar-se cada vez mais cedo (as crianças de hoje são super estimuladas pelo meio onde crescem, mas sofrem pela falta de atenção de pais emocionalmente pouco disponíveis), e com contornos de flagelo à medida que se envelhece. Iremos no bom caminho?
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