terça-feira, 5 de junho de 2018

Junho . Calendário ArtEdit 2018


Junho 2018 . Momentos



I am looking for the nice things in life.
 I know about the bad things, but I look only for the good things.
The world is wonderful, it's full of beauty and full of miracles. 
Our brain, the memory, how does it work? 
Not to speak of art and music … It is a miracle.
                                                                 Alice Herz Sommer

Num mundo confuso, barulhento, transbordante de estímulos, que chocam e se atropelam há, para quase todos nós, com maior ou menor intensidade, momentos únicos em que o silêncio ou a doçura de uma melodia se sobrepõe ao ruído, e a emoção sobrepõe-se à razão.

A vida fica suspensa, e de repente temos a sensação de que tudo faz sentido, tudo se encaixa na perfeição, como num intrincado puzzle resolvido. Pode ser uma atmosfera especial, uma imagem, muitas vezes a música tem esse efeito em mim.

Sentimo-nos transportados e transfigurados. E o mundo torna-se límpido e transparente.

Como gostaríamos de agarrar e reter esses instantes, que nos resgatam de um quotidiano desgastante, mas são apenas momentos, que se volatilizam com a mesma imprevisibilidade com que surgiram, deixando-nos, no entanto, de alma lavada, coração quente e esperança retemperada. 

(Calendário Art Edit 2018)

terça-feira, 8 de maio de 2018

Maio . Calendário ArtEdit 2018


Maio 2018 . Elogio da diferença


Any intelligent fool can make things bigger and more complex... it takes a touch of genius – and a lot of courage to move in the opposite direction.
                                                               
                                                                                    E. F. Schumacher Small is beautiful


Querer ser apreciado, reconhecido, aceite e enturmado é comum a todos, afinal o sentimento de pertença está enraizado na nossa natureza. O segredo do sucesso das redes sociais reside precisamente nesta possibilidade de todos se poderem mostrar, para poderem ser avaliados e eventualmente (desejavelmente) louvados, apreciados, reconhecidos, aceites... A questão que se coloca é até onde estaremos dispostos a fazer concessões para ir ao encontro dos outros, de critérios padronizados, modas e gostos colectivos, escolhendo caminhos mais garantidos, ou, pelo contrário, até quando teremos coragem de nos manter fieis a nós mesmos, à nossa individualidade, sabendo que nos estamos linearmente a afastar do circuito, provavelmente a autoexcluir do sistema e até da sociedade, e que nos espera uma travessia muito solitária. Todos os artistas cuja sensibilidade não foi permeável a influências, nem se deixaram tentar por promessas de sucessos fáceis, sabem do que falo.

Na senda da visibilidade, a diferença pelo exótico, pelo absurdo, pelo chocante pode ser uma forma de chamar a atenção, e proliferam os que optam por este meio para se tentarem afirmar ou pelo menos firmar! Não acrescentam, geralmente, beleza, paz ou inspiração ao mundo. Mas mais comummente escolhe-se  o caminho fácil, seguem-se as influências, trilham-se caminhos já explorados e testados, e de repente surge uma multidão em tudo idêntica, que usa os mesmos meios, da mesma forma, e que, para se tentar distinguir, sobe progressivamente o tom. Resumindo: temos hoje um mundo onde todos gritam e ninguém os ouve. Somos literalmente agredidos com chamadas de atenção que, visualmente e sonoramente, a partir de certa altura, causam mais desgaste do que impacto.

Num minúsculo nicho à escala global, encontramos os que assumem a sua diferença de uma forma singular e genuína, são os que provavelmente nunca terão qualquer reconhecimento, mas também não buscam notoriedade, gostariam simplesmente de ser aceites, para poderem continuar o seu trabalho. Idealmente invisíveis por trás da visibilidade do que produzem. E o mundo precisa urgentemente e desesperadamente dessa diferença: a contra-corrente do barulho, da confusão, da uniformidade; a multiplicidade vs a multiplicação; o acarinhar vs o idolatrar; o direito à diferença, sem implicar ser catapultado para um cenário onde, justamente, nunca se quis pertencer. Importa manter a escala porque é o garante da independência, que permite enaltecer a poesia e a beleza, no seu estado mais simples e puro, em prol de uma linguagem emocional universal, que nos pode dar segurança, paz, harmonia, e a inspiração de que tanto e todos precisamos.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Abril . Calendário ArtEdit 2018


Abril 2018 . Coisas

A essência das coisas é senti-las
tão densas e tão claras, 
que não possam conter-se por completo 
nas palavras.

A essência das coisas é nutri-las 
tão de alegria e mágoa, 
que o silêncio se ajuste à sua forma 
sem mais nada.
                            Glória de Sant' Anna, Afirmaçãoin Um Denso Azul Silêncio

Há alguns anos li um livro muito interessante que confrontava a relação que os ocidentais têm com as coisas – a importância que lhes conferem, o apego e as emoções que podem transpor para os objectos, bem como a necessidade de os multiplicar e acumular, porventura para compensar, ainda que inconscientemente, sensações de frustração, períodos de insegurança, infelicidade ou, simplesmente, de insatisfação –, com a atitude selecta, minimalista, racional e funcional dos orientais, mais concretamente dos japoneses. A Arte da Simplicidade, que reli e continuo a reler sempre que preciso de rever a matéria, é escrito por uma francesa que viveu várias décadas no Japão e, se quisermos, constitui uma espécie de guia para nos orientar para uma vida mais leve, mais desapegada, mais essencial, onde a qualidade substitui sempre a quantidade.

Coisas são coisas, é sabido, mas como ocidental que sou, na educação e nos hábitos, também eu cresci criando apego a tralhas. Num esforço para me reeducar e disciplinar, consciente de que objectivamente é o caminho sensato a seguir, em épocas mais tranquilas e equilibradas consigo ser bastante radical, seleccionando e descartando alegremente o que é suplementar, e reorganizando e aligeirando o meu espaço, mas em épocas mais tremidas, leia-se emotivas, tenho «recaídas», procurando na minha bagagem a sensação de conforto, de enquadramento e segurança.

Nunca somos tão racionais nem tão sensatos quanto gostaríamos. E as coisas podem ser também referências e memórias. Por duas vezes na minha vida, por razões diferentes, encaixotei o meu «habitat» e julguei que não iria voltar a ver e a conviver com a minha parafernália, sobretudo com os meus livros, que foram desde sempre o mais importante da bagagem, e a angústia que me causava a ideia deu-me a justa medida do valor afectivo e da importância que as coisas podem ter. E se dúvidas houvesse estas seriam dissipadas pela alegria genuína, que em qualquer dos casos senti, quando recuperei os pertences.

O difícil e o objectivo, deverá ser sempre o justo equilíbrio. Aprender a escolher, a descartar e a eleger. Num esforço contínuo, como forma não só de aligeirar a vida, mas sobretudo de valorizar as coisas que são para nós muito mais do que simples coisas.

(Abril, Calendário ArtEdit 2018)