quinta-feira, 12 de abril de 2018
Abril 2018 . Coisas
A essência das coisas é senti-las
tão densas e tão claras,
que não possam conter-se por completo
nas palavras.
A essência das coisas é nutri-las
tão de alegria e mágoa,
que o silêncio se ajuste à sua forma
sem mais nada.
Glória de Sant' Anna, Afirmaçãoin Um Denso Azul Silêncio
Há alguns anos li um livro muito interessante que confrontava a relação que os ocidentais têm com as coisas – a importância que lhes conferem, o apego e as emoções que podem transpor para os objectos, bem como a necessidade de os multiplicar e acumular, porventura para compensar, ainda que inconscientemente, sensações de frustração, períodos de insegurança, infelicidade ou, simplesmente, de insatisfação –, com a atitude selecta, minimalista, racional e funcional dos orientais, mais concretamente dos japoneses. A Arte da Simplicidade, que reli e continuo a reler sempre que preciso de rever a matéria, é escrito por uma francesa que viveu várias décadas no Japão e, se quisermos, constitui uma espécie de guia para nos orientar para uma vida mais leve, mais desapegada, mais essencial, onde a qualidade substitui sempre a quantidade.
Coisas são coisas, é sabido, mas como ocidental que sou, na educação e nos hábitos, também eu cresci criando apego a tralhas. Num esforço para me reeducar e disciplinar, consciente de que objectivamente é o caminho sensato a seguir, em épocas mais tranquilas e equilibradas consigo ser bastante radical, seleccionando e descartando alegremente o que é suplementar, e reorganizando e aligeirando o meu espaço, mas em épocas mais tremidas, leia-se emotivas, tenho «recaídas», procurando na minha bagagem a sensação de conforto, de enquadramento e segurança.
Nunca somos tão racionais nem tão sensatos quanto gostaríamos. E as coisas podem ser também referências e memórias. Por duas vezes na minha vida, por razões diferentes, encaixotei o meu «habitat» e julguei que não iria voltar a ver e a conviver com a minha parafernália, sobretudo com os meus livros, que foram desde sempre o mais importante da bagagem, e a angústia que me causava a ideia deu-me a justa medida do valor afectivo e da importância que as coisas podem ter. E se dúvidas houvesse estas seriam dissipadas pela alegria genuína, que em qualquer dos casos senti, quando recuperei os pertences.
O difícil e o objectivo, deverá ser sempre o justo equilíbrio. Aprender a escolher, a descartar e a eleger. Num esforço contínuo, como forma não só de aligeirar a vida, mas sobretudo de valorizar as coisas que são para nós muito mais do que simples coisas.
(Abril, Calendário ArtEdit 2018)
domingo, 4 de março de 2018
Março 2018 . Suspenso
Even cowards can endure
hardship; only the brave can endure suspense.
Mignon
McLaughlin
Não há pior do que viver
em suspenso, porque é o maior obstáculo para podermos gozar a vida e o momento.
No entanto, vivemos
quase todos, quase sempre, suspensos. Viver suspenso significa estar dependente
do que nos é estranho. De circunstâncias, de outras pessoas, de reacções,
atitudes, humores, de palavras e de silêncios. De tudo cujo desenrolar não
depende da nossa acção e nos pode surpreender a qualquer momento. Alguns
conseguem gerir tudo isto com mais desenvoltura, mas quanto mais vulneráveis,
mais difícil se torna «sacudir».
Todos conhecemos números
de equilibrismo no arame, a maior ou menor altitude, com ou sem rede de
segurança. Mas uma coisa é lançarmo-nos voluntariamente no desafio, e outra é
sermos empurrados, como tantas vezes acontece, sem preparação nem pré-aviso,
para mais uma travessia solitária, que nos suga a concentração, nos dispara a
adrenalina ao rubro, e consome toda a energia.
O viver suspenso gera
frequentemente insegurança, e a insegurança por seu turno gera o medo, o nosso
pior aliado. Passando da narrativa pessoal à generalização, esta sequência
derrotista, infelizmente, tornou-se uma tónica do nosso tempo, uma praga que
tem vindo a contaminar o mundo, numa escalada progressiva.
Para os amadores que
somos, o trabalho para nos treinarmos a descartar preocupações por antecipação,
a despoluir a alma e a focarmo-nos no momento evapora-se quando, sem que
tenhamos contribuído para isso, inesperadamente nos encontramos no meio de um
turbilhão, suspensos no arame. Tal como para o acrobata profissional, a solução
ou prevenção das piores consequências passa pelo esforço, persistência, para
apurar o controlo e o equilíbrio em qualquer circunstância. E representa anos
de treino consecutivo.
Aprende-se a viver sem
fazer planos, a ter esperança sem esperar quase nada. A perceber, sem
dramatizar, que quanto menos esperarmos menos nos desencantamos. A deixar a
vida fluir e passar por nós, sem lhe erguermos obstáculos que lhe compliquem o
curso. E convém não confundir o viver com esperança, com o viver em suspenso. O
primeiro caso dá-nos força, pacifica-nos, é uma fonte de alegria, o segundo
pode minar e aniquilar qualquer hipótese de alento, comprometendo-nos a paz, e
toldando-nos a alegria.
Embora o tempo e a
vontade se encarreguem de nos irem revestindo de sucessivas camadas
impermeáveis, que nos permitem melhorar o jogo de cintura no dia a dia – o
treino do acrobata –, estaremos sempre sujeitos a ser surpreendidos por um
temporal, para o qual não haverá impermeável que nos proteja. Mas mesmo
encharcados até aos ossos não podemos desmoralizar, mais do que nunca temos de
fazer apelo a todos os recursos, quanto mais não seja cientes de que tudo é
passageiro, que não há mal que sempre dure, ou que, como nos dizia o meu Pai, après la pluie le beau temps.
Calendário ArtEdit 2018
Fevereiro 2018 . Sobre o que sei com certeza
Happiness is not a state to arrive at, but a manner of
traveling.
Margaret Lee Runbeck
Há um vento por trás de
cada um de nós, que nos leva para destinos que muitas vezes não escolhemos,
cuja orientação nem sempre compreendemos, mas que no fim, temos de acreditar,
fará sentido.
Há alguns anos, Oprah
Winfrey publicou um livrinho intitulado What
I know for sure, sobre o mais importante que a vida lhe ensinara. Todos nós
temos as nossas certezas, que nos vêm do que aprendemos, da pior ou da melhor
forma, com a experiência. São os nossos portos seguros e as nossas únicas
âncoras. Tudo o mais, diz-me a minha experiência, a começar pelo que geralmente
temos por garantido – família, amigos, casas, ambientes, rendimentos –, é
inconstante, dependente de circunstâncias, e quando menos esperamos pode
transformar-se, ou volatilizar-se, perante o nosso olhar incrédulo. Não tem de
assim ser, claro, podemos viver vidas lineares, suaves e sem sobressaltos, o
que não podemos é tê-las por garantidas. O que também não tem de ser dramático.
Há que compreender, e depois aceitar, que nada, a começar por nós, é estático e
imutável. Somos super dotados transformers
desde que nascemos até ao fim, tal como tudo e todos à nossa volta. O único
problema é acreditar que controlamos alguma coisa, e que o dia de amanhã
depende só da nossa vontade, resiliência, inspiração, porque enquanto assim for
estaremos sujeitos ao desencanto, e isso sim pode ser doloroso. Para os controladores
natos, como é o meu caso, implica a apreensão de uma dura lição de humildade.
Curiosamente, a idade
traz-nos muito mais incertezas do que certezas. Mas sei hoje, com certeza, que
o equilíbrio e a harmonia não se conseguem lutando contra a corrente, que
precisamos de acreditar que tudo tem o seu propósito, mesmo que esteja
invisível ou seja incompreensível para nós.
Sei com certeza, que
preciso de aprender a baixar a guarda, e a confiar no vento que cada manhã me
sopra na rectaguarda, me abraça e me conduz, acreditando que tem mais sabedoria
do que eu.
Calendário ArtEdit 2018
quinta-feira, 4 de janeiro de 2018
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