quinta-feira, 4 de janeiro de 2018
Janeiro 2018 . Ano Novo
What we call the beginning is often the end.
And to make an end is to make a beginning.
The end is where we start from (…)
T.S.Eliot Little Gidding
As redes sociais explodem
de euforia. Alardeiam-se as maravilhas do ano findo e as expectativas para o
ano que começa...
Contudo, por quanto o
possamos investir de desejos e boa vontade, o ano que começa será sempre,
basicamente, o prolongamento do que existe já.
Por outro lado, as cada
vez mais abundantes festividades colectivas fazem cada vez menos sentido para
mim. Idealmente deveríamos ser capazes de abolir o «dia de...» para transformar
todos os nossos dias num hino à vida, à paz e à concórdia, à amizade, ao amor,
a todos os que nos cobrem ou cobriram de bênçãos. Sobretudo as festas e os
tributos deveriam vir de dentro para fora e não ao contrário.
Mas podemos sempre
aproveitar este tempo, que se convencionou ser de mudança de patamar, para
fazer um balanço e retirar a respectiva ilação: sobre o que queremos recordar
do ciclo que termina, o que mais nos marcou, que sentimentos nos dominaram, o
que gostaríamos de esquecer, o que gostaríamos de mudar etc., para podermos
(citando o provérbio indiano) ter serenidade para aceitar tudo o que não
depende de nós, coragem para alterar tudo o que de nós depende, sabedoria para
distinguir entre os dois.
Neste ciclo ininterrupto,
só aparentemente tudo se repete, se
conseguirmos ver para lá da fachada compreendemos que, subtilmente, tudo se
transforma, que a vida é uma sucessão de acontecimentos, cada um dos quais resulta
de uma causa e gera um efeito, e que cada acontecimento que acaba, recomeça sob
nova forma, quanto mais não seja enriquecido por uma nova experiência... nada
se perde, nada se cria, tudo se transforma ... é um princípio que vale tanto
para a natureza como para nós, que acontece hoje, neste momento, e em todos os
dias e todos os momentos que se seguem.
E se todo o fim é um ponto
de partida, então que o caminho que recomeça aqui possa ser percorrido com
serenidade, coragem e sabedoria.
Bom Ano!
sexta-feira, 1 de dezembro de 2017
Identificar, ordenar, recriar, executar, ousar
O mundo em si não
tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui identidade, sem o nosso
pensamento que lhe confere alguma ordem. Viver, como talvez morrer, é
recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas
elaborada. Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes,
ousada.
Lya Luft
Uma boa parte da nossa
vida é feita de acção, movemo-nos de forma automática, impulsiva, não há tempo
para parar e pensar, o pensamento segue a acção. Mas a partir de uma
determinada fase, a vida passa a ser feita sobretudo de reacção: paramos,
pensamos e reagimos ou, muitas vezes, forçamo-nos a reagir, porque a tentação
forte seria parar, baixar armas, hibernar... Confrontados com verdadeiros
dramas existenciais, que nos entram em casa todos os dias através da
comunicação social, somos rapidamente sacudidos e reenquadrados no nosso devido
lugar de formiguinhas caprichosas, ridiculamente egocêntricas.
Qualquer vida (a minha,
a sua e a da formiguinha) processa-se até ao último suspiro. E até ao fim há
uma constante evolução com perdas e ganhos. É verdade que com o tempo a
capacidade de intervenção acompanha a redução da capacidade física, mas podemos
ir intervindo a outro nível, com menos força, mas de uma forma mais incisiva;
com menos vista, mas com um olhar mais limpo, e sobretudo com mais tolerância,
menos drama e mais doçura.
Como barquinhos de papel
à deriva, que somos quase sempre, precisamos, constantemente, de nos adaptar ao
que se depara no caminho. Identificamos até ao fim, ordenamos enquanto temos
capacidade cognitiva, recriamos enquanto temos força anímica, executamos
enquanto temos força física, ousamos enquanto temos coragem.
O mundo pode
confundir-nos com os seus sinais. O alvo da perfeição é uma utopia, e o
bem-estar interior não se alcança com o poder de compra. Por outro lado, tanto
a intolerância e a crítica fácil, como a comparação e a inveja, que se tornaram
instrumentos vulgares, só podem produzir instabilidade e inconformismo. Em vez
de construir vivemos para destruir, e fazemo-lo em círculos concêntricos e
progressivos, até onde chega o raio de alcance, como se vingar a nossa frustração
por não conseguirmos atingir os objectivos que nos foram propostos, nos pudesse
dar algum tipo de consolo.
Está tudo errado, só
pode. Se conseguirmos ultrapassar as conveniências dos tempos para vermos mais
além, compreendemos que a vida é um milagre, desde o momento em que nascemos
até ao fim. Que se processa como um caleidoscópio que nos abre sucessivamente
novos quadros, novas perspectivas, com luminosidades e coloridos diferentes, e
que a nossa única obrigação neste mundo e nesta vida é irmos descrevendo uma
narrativa pessoal, que fica gravada talvez no caminho por onde passámos,
naqueles que se cruzaram connosco, em qualquer coisa que ajudámos a construir.
Acredito que muito mais importante do que o valor ou a qualidade absoluta do
que fizemos, é o facto de elaborarmos uma narrativa coerente, conscientemente executada, sempre que possível ousada.
quarta-feira, 8 de novembro de 2017
Sobre a (in)segurança
Em frente à minha janela
tenho uma oliveira centenária, milenária, ou mesmo intemporal. O tronco grosso,
imenso, retorcido deixa-nos imaginar o peso da sua idade. Para além da beleza
estética desta escultura natural, os sulcos da casca contam-nos histórias
infindáveis.
Não nasceu aqui. Nasceu,
firmou raízes, cresceu e envelheceu no campo, entre outras oliveiras. Quis o
destino que um dia, já muito velha, tenham decidido transplantá-la, com mil
cuidados para não lhe ofenderem a vida. Contra todas as expectativas, voltou a
firmar raízes, e aqui renasceu. Rebentos tenros num tronco velho e enrugado.
Enquanto há vida, há esperança! Lições simples, básicas, essenciais.
Há uma relação
incontornável entre a segurança – as raízes que nos amparam –, e o florescer,
essa manifestação de vida, de esperança, de alegria.
Num mundo cada vez mais
desregrado, e mais dominado pela insegurança, a felicidade passou a ser um
conceito especulativo. Sinto toda esta tão actual euforia, esta tão artificial
necessidade de alardear uma alegria mal contida – utilizando as redes sociais
para a extravasar –, como uma forma de atordoamento, como forma de se iludir,
iludindo o mundo. As raízes que deveriam enquadrar e firmar estarão porventura
flutuantes, mas aparentemente todos, ou muitos, pairam à superfície
esvoaçantes, numa festa inconsequente!
Nada disto é
consistente, porque falta chão. O aqui e agora é bonito, mas também precisamos
do ontem e sobretudo do amanhã. A alegria, a profunda e duradoura, depende do
encanto, o encanto está ligado à esperança, a esperança assenta na segurança. E
não há volta a dar.
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