quarta-feira, 4 de julho de 2018

Julho . Calendário ArtEdit 2018


Julho 2018 . Crítica, carácter e preconceito

Never judge another knight without first knowing the strength and cunning of the dragons he fights.
                                                                                  Richelle E. Goodrich, Slaying Dragons


 Somos o resultado de uma educação e de um enquadramento social e cultural, que gera, ou não, preconceitos, e da forma como reagimos ao que se nos depara pelo caminho, que nos forja, ou não, o carácter. 
Não há nada mais fácil e mais espontâneo do que criticar os outros. Criticamos a partir do que somos – como formação e como experiência de vida –, e julgamos a partir da nossa zona de conforto, à distância, o que nos incentiva a descartar filtros. A crítica pode ser humorística, mais ou menos ofensiva, cínica ou demolidora, mas é sempre uma forma de julgar e desdenhar, não só me parece hipócrita o conceito de crítica positiva, como a crítica nunca reflecte o melhor que há em nós. Aliás a crítica define muito mais quem a emite do que o visado, pois através dela pode extravasar-se muito sentimento recalcado e inconfessado. 

Cresci num ambiente preconceituoso, social e culturalmente, onde a sátira era uma forma natural de olhar a vida. Tudo se ridicularizava e se transformava em subtil ironia. Reconheço que era um ambiente sempre divertido, onde um matava e logo outro esfolava, com alguma mordacidade, claro, embora sem maldade intencional. Mas a vida encarrega-se de nos reeducar, e entre as lições mais importantes que recebi compreendi não só a relativa importância dos nossos preconceitos, que nos limitam muito mais do que nos enriquecem, como o lado perverso da ligeireza com que julgamos e crucificamos os outros sem saber nada da sua realidade.

Malgrado toda a retórica há tudo menos tolerância no mundo, e a compaixão é ainda, e sempre, um conceito abstracto. E no entanto, não há sentimento mais humano, porque é o que nos faz ir ao encontro da experiência do outro, tentando pormo-nos na sua pele, para podermos compreender as suas reacções e acções, antes de emitir qualquer juízo.

O tempo, que nos molda até ao fim, ensina-nos a rejeitar o que não nos serve, a afastarmo-nos do que não nos interessa, a despojarmo-nos de preconceitos, dando-nos um novo olhar, maior liberdade, e uma consciência renovada de que todos enfrentamos os nossos dragões, em situações que só nós conhecemos.

(Calendário Art Edit 2018)

terça-feira, 5 de junho de 2018

Junho . Calendário ArtEdit 2018


Junho 2018 . Momentos



I am looking for the nice things in life.
 I know about the bad things, but I look only for the good things.
The world is wonderful, it's full of beauty and full of miracles. 
Our brain, the memory, how does it work? 
Not to speak of art and music … It is a miracle.
                                                                 Alice Herz Sommer

Num mundo confuso, barulhento, transbordante de estímulos, que chocam e se atropelam há, para quase todos nós, com maior ou menor intensidade, momentos únicos em que o silêncio ou a doçura de uma melodia se sobrepõe ao ruído, e a emoção sobrepõe-se à razão.

A vida fica suspensa, e de repente temos a sensação de que tudo faz sentido, tudo se encaixa na perfeição, como num intrincado puzzle resolvido. Pode ser uma atmosfera especial, uma imagem, muitas vezes a música tem esse efeito em mim.

Sentimo-nos transportados e transfigurados. E o mundo torna-se límpido e transparente.

Como gostaríamos de agarrar e reter esses instantes, que nos resgatam de um quotidiano desgastante, mas são apenas momentos, que se volatilizam com a mesma imprevisibilidade com que surgiram, deixando-nos, no entanto, de alma lavada, coração quente e esperança retemperada. 

(Calendário Art Edit 2018)

terça-feira, 8 de maio de 2018

Maio . Calendário ArtEdit 2018


Maio 2018 . Elogio da diferença


Any intelligent fool can make things bigger and more complex... it takes a touch of genius – and a lot of courage to move in the opposite direction.
                                                               
                                                                                    E. F. Schumacher Small is beautiful


Querer ser apreciado, reconhecido, aceite e enturmado é comum a todos, afinal o sentimento de pertença está enraizado na nossa natureza. O segredo do sucesso das redes sociais reside precisamente nesta possibilidade de todos se poderem mostrar, para poderem ser avaliados e eventualmente (desejavelmente) louvados, apreciados, reconhecidos, aceites... A questão que se coloca é até onde estaremos dispostos a fazer concessões para ir ao encontro dos outros, de critérios padronizados, modas e gostos colectivos, escolhendo caminhos mais garantidos, ou, pelo contrário, até quando teremos coragem de nos manter fieis a nós mesmos, à nossa individualidade, sabendo que nos estamos linearmente a afastar do circuito, provavelmente a autoexcluir do sistema e até da sociedade, e que nos espera uma travessia muito solitária. Todos os artistas cuja sensibilidade não foi permeável a influências, nem se deixaram tentar por promessas de sucessos fáceis, sabem do que falo.

Na senda da visibilidade, a diferença pelo exótico, pelo absurdo, pelo chocante pode ser uma forma de chamar a atenção, e proliferam os que optam por este meio para se tentarem afirmar ou pelo menos firmar! Não acrescentam, geralmente, beleza, paz ou inspiração ao mundo. Mas mais comummente escolhe-se  o caminho fácil, seguem-se as influências, trilham-se caminhos já explorados e testados, e de repente surge uma multidão em tudo idêntica, que usa os mesmos meios, da mesma forma, e que, para se tentar distinguir, sobe progressivamente o tom. Resumindo: temos hoje um mundo onde todos gritam e ninguém os ouve. Somos literalmente agredidos com chamadas de atenção que, visualmente e sonoramente, a partir de certa altura, causam mais desgaste do que impacto.

Num minúsculo nicho à escala global, encontramos os que assumem a sua diferença de uma forma singular e genuína, são os que provavelmente nunca terão qualquer reconhecimento, mas também não buscam notoriedade, gostariam simplesmente de ser aceites, para poderem continuar o seu trabalho. Idealmente invisíveis por trás da visibilidade do que produzem. E o mundo precisa urgentemente e desesperadamente dessa diferença: a contra-corrente do barulho, da confusão, da uniformidade; a multiplicidade vs a multiplicação; o acarinhar vs o idolatrar; o direito à diferença, sem implicar ser catapultado para um cenário onde, justamente, nunca se quis pertencer. Importa manter a escala porque é o garante da independência, que permite enaltecer a poesia e a beleza, no seu estado mais simples e puro, em prol de uma linguagem emocional universal, que nos pode dar segurança, paz, harmonia, e a inspiração de que tanto e todos precisamos.