domingo, 27 de agosto de 2017
Saudade
Alentejo, primeiro dia de Agosto. Enquanto o calor não me sufoca gozo a
frescura da manhã, sentada frente a um cenário que conheço bem, apesar de
algumas alterações com os anos: a fisionomia alinhada dos olivais, que
invadiram esta zona desde o início do século; dois plátanos, que assinalam o
lugar onde existiam os velhos silos; um tentadero e um picadeiro, que recordam
sonhos perdidos. O pátio da casa, agora mais arranjadinho, liberto de galinhas,
perus, gansos, pavões, fracas, que continuam a vaguear mais uns metros à
frente. O lago dos patos, reabilitado com dois cisnes pretos de enorme beleza.
Duas oliveiras antigas, transplantadas e, sobretudo, todas as árvores frondosas
que plantei ou vi plantar pequeninas, e se formaram e fizeram velhas comigo,
mais a passarada imensa que as árvores e o lago atraíram.
Aqui vivi os melhores anos da minha vida. Momentos de harmonia absoluta.
Tempos de esperança, onde tudo era possível. A criação dos meus bebés, livres,
despreocupados, criativos, felizes. Depois, um dia, as vicissitudes da vida
deram-nos outro rumo e transformaram-nos a todos, cada qual à sua maneira.
As mesmas vicissitudes, inesperadamente, devolveram-me agora ao ponto de
partida. Trinta e cinco anos depois o cenário é-me familiar, não obstante as
alterações do enquadramento florestal. Já eu tenho dificuldade em
reconhecer-me.
Nada melhor para aferir o tempo do que a saudade, que vai tomando posse de
nós como um lago que enche de mansinho. Nos últimos meses desempacotei mais de
quarenta anos de vida, encaixotados num casão há dois anos. Foi estranho
arrumar aqui móveis, loiças, quadros, livros de casa dos meus pais. Os objectos
fundiram-se bem no ambiente, entre outros objectos nativos, mas para mim cada
caixa que abria era uma nova vaga de emoções, resultado: acabei inundada,
submersa em saudades.
É uma expressão ambivalente esta, onde a profunda tristeza e nostalgia por
tudo o que se perdeu se confunde com a felicidade de tudo o que ganhámos e que
a memória nos devolve intacto.
Há quem diga que a perda da memória é a maior provação que pode ser
infligida, e acredito que sim. A memória não é só a nossa identidade, é todo
esse espólio de boas experiências que nos embalam e acarinham quando mais
precisamos.
quarta-feira, 12 de julho de 2017
Menos é mais
Alguém disse que sábio
não é aquele que acumula conhecimentos, mas aquele usa eficazmente aquilo que
aprendeu.
Precisamos de tempo e
experiência, para desaprender muito do que tínhamos por certo e compreender o
essencial.
Essencial é distinguir o
que nos traz benefício, do que nos intoxica ou não nos acrescenta nada, o que
vale para tudo o que nos envolve, desde as pessoas com quem nos relacionamos,
às actividades a que nos dedicamos, e ao espaço que habitamos.
Nem tudo o que vem a
mais nos faz «crescer» (excepção feita para o que comemos, claro...) e temos de
desmontar o conceito básico da nossa sociedade, que nos quer fazer crer que
tudo o que multiplicamos e acumulamos nos beneficia, ou, pior ainda, que a
nossa felicidade e segurança dependem directamente da capacidade de aquisição.
Na verdade precisamos de
muito pouco para vivermos bem. E satisfeitas as necessidades básicas, não é o
poder de compra que faz a diferença.
Precisamos antes de
mais, e acima de tudo, de saúde, que não tem preço, não depende da nossa
vontade, nem é um dado adquirido, como tendemos a considerar. Depois,
precisamos de um olhar limpo e de uma cabeça arrumada, para simplificar e
aligeirar a vida, o que implica uma selecção criteriosa, e coragem para nos
desapegarmos do que acumulámos, e onde depositámos uma falsa sensação de
segurança.
Quando se consegue
disciplinada e equilibradamente seleccionar, para depois descartar, – e deste
modo chegar ao que valorizamos em função do que somos, do que precisamos, do
que nos faz bem –, compreende-se que (contra-corrente de tudo o que nos é
instigado) menos pode ser, afinal, mais.
Uma vida organizada com
rigor e alguma austeridade, não só torna tudo mais leve, mais luminoso, e mais
fácil de articular, como permite apreciar com outro olhar, e redobrado prazer,
quem ou aquilo que, por qualquer motivo, utilitário ou emocional, é único e
especial para nós.
quinta-feira, 6 de julho de 2017
Sobre a vergonha e a empatia, sobre a empatia e a compaixão
A compaixão não é uma relação entre quem cura e quem está ferido. É uma
relação entre iguais. Precisamos de conhecer bem a nossa escuridão para
podermos estar presentes na escuridão dos outros. A compaixão torna-se
autêntica quando reconhecemos a nossa humanidade partilhada.
Pema Chödrön
Como explicou Brené Brown, que tem dedicado a sua vida a
investigar esta matéria, a vulnerabilidade tutela todas as fragilidades
humanas. Não só o medo e a vergonha, que nos tornam inseguros, mas também o
amor, a coragem, a esperança, a empatia, os sentimentos que nos dão segurança.
Nos antípodas do medo e da vergonha – que estão ligados a
um sentimento de culpa, que convida ao recolhimento e ao silêncio –,
encontra-se a empatia, que incentiva a expressão, funcionando como uma ponte
que rompe o silêncio, estabelece a comunicação, e tem o poder imenso de
resgatar do isolamento (in)confessado a que estes sentimentos (medo e vergonha)
nos remetem.
O entendimento que gera a empatia surge espontaneamente,
quer através da partilha de experiências comuns, quer por se comungar de
pré-disposições como a sensibilidade, inteligência, humor, que podem despoletar
afinidades imprevisíveis.
Mas se para a empatia basta reconhecer alguém que entoa a
nossa canção, já a compaixão é um
capítulo muito mais complexo e exigente.
A compaixão, tal como explica Pema Chödrön, pressupõe não só ter passado por uma experiência
idêntica, tendo conseguido, ou talvez não, ultrapassar o problema, como também
dispor-se a ouvir a história do outro sem qualquer preconceito, sem qualquer
julgamento.
Implícito na compaixão está uma dupla vulnerabilidade
(com tudo o que esta pode representar de insegurança/ vergonha/ coragem), a de
quem conta a sua história, e a de quem se dispõe a ouvi-la.
Maio, Calendário Art Edit 2017
terça-feira, 4 de julho de 2017
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