domingo, 8 de janeiro de 2017
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016
Presto
Era uma vez um homem que corria e
corria pela vida… A vida era curta e necessitava de correr muito para a gozar
muito e ser feliz. E quanto mais corria, mais necessitava de correr! Descobria
sempre mais lugares para visitar! Necessitava encontrar tudo e gozar de tudo.
Até que um dia, cansado de tanto correr, parou. Então, a felicidade pôde
alcançá-lo.
Vasco Pinto
de Magalhães, s.j. Não há soluções, há caminhos
Corremos pela vida. Podemos correr atrás da
felicidade, como quem corre atrás de uma miragem, ou, o mais das vezes, mesmo
sem que disso tenhamos consciência, corremos à frente da felicidade, numa fuga
em frente com mil propósitos, funções, obrigações, alimentados pela adrenalina,
que nos evita enfrentar ou confrontar tudo o que não escolhemos deliberadamente
mas faz parte integrante da nossa vida.
Correr pode ser, é quase sempre, um modo de vida, que
abraçamos enquanto temos energia, pernas, justificações. Vem-me à lembrança um
livro que o meu Pai me deu a ler há muitos anos: La Solitude du coureur de fond, de Alan Sillitoe, onde a corrida é
utilizada como meio de libertação e reflexão. A corrida de fundo permite esta
abordagem, pois por definição tem objectivos à distância, já a corrida onde nos
envolvemos e esgotamos diariamente é mais do tipo sprint multidireccional, com
objectivos a muito curto prazo, sem espaço nem tempo para reflexões.
Corremos até ao dia em que as circunstâncias nos forçam
a parar. Só então, com o baixar da adrenalina e o acalmar das águas, é possível
ver à transparência a verdade dormente, o que nos permite ou obriga a descobrir
outros andamentos, caminhos alternativos, em última análise a reestruturar a
nossa vida: laços afectivos, valores, propósitos. É um processo moroso e
doloroso, implica assentar e processar muita poeira.
De qualquer forma, mesmo sem sermos forçados a
isso, se queremos que qualquer coisa de mais profundo e duradouro nos anime a
vida precisamos de parar de correr a dada altura, e deixar que, tal como o fim
das ondas quando suavemente nos alcançam na praia, a paz, a harmonia, e por
arrasto a felicidade nos invadam.
quinta-feira, 31 de dezembro de 2015
J’ai reconnu le bonheur au bruit qu’il a fait en partant.
Jacques Prévert
Se há um objectivo onde todos nos reconhecemos é na procura da felicidade. Difícil de definir, a felicidade assume muitas vezes o rosto do que nos falta.
Na senda de respostas para questões pessoais, encontrei por acaso (se o acaso existe), errando numa livraria, o livro de Frédéric Lenoir, Du bonheur, un voyage philosophique, que veio, literalmente, ao meu encontro.
Abri-o aleatoriamente e li: «Sei por experiência que a procura da felicidade não é um caminho insensato, podemos ser mais felizes reflectindo sobre a vida, realizando um trabalho sobre nós próprios, aprendendo a fazer escolhas mais criteriosas, ou a modificar os nossos pensamentos, as nossas crenças ou as representações que fazemos de nós mesmos e do mundo».
Os textos que seleccionei para o calendário de 2016 são isto mesmo, uma reflexão sobre a vida, tentando compreender, tentando aceitar, tentando ajustar-me ao caminho, onde, pese embora a sua tonalidade muitas vezes sombria, a procura da felicidade está sempre subjacente.
Para alguns, para a maioria, a felicidade ilude-se com o barulho, com a confusão, com a multidão, com um contínuo movimento/acontecimento, e para estes nada do que se segue, provavelmente, fará sentido. Desde já assumo que não escrevo sobre a insustentável leveza do ser, não porque não saiba o que são momentos de absoluta clarividência, em que tudo surge com uma nitidez, uma frescura e uma leveza impressionantes, revelando-nos como de repente tudo se encaixa, e o mundo é então exactamente como é suposto ser, não porque não aprecie estes momentos, pelo contrário, são o que me anima e dá esperança, mas o que quero partilhar é o caminho até lá, com os mergulhos no escuro, as descobertas luminosas, os tropeções e as verdades inconvenientes.
Não trago nada de novo, cito e recrio o que outros me inspiraram ou, como diria Vasco Pinto de Magalhães, «mesmo sendo mais pequenos, se podemos ver mais longe é porque vamos às cavalitas dos que nos precederam».
Sobretudo gostaria que o que partilho fosse entendido como uma tentativa de pensar melhor, para viver melhor. As simple as that!
Bom Ano, e obrigada por me acompanhar!
terça-feira, 26 de novembro de 2013
CALENDÁRIO 2014
Um novo calendário está
pronto.
Esta aventura começou já há
alguns anos, timidamente, como quem entra cautelosamente no mar. Primeiro
molham-se os pés, depois avança-se devagar até termos água pela cintura e só
depois de aclimatados mergulhamos. Precisei de sete anos para deixar a minha
zona de segurança (o ciclo de «amigos») e me abalançar no desconhecido. E
quando me atrevi a mergulhar e a nadar para fora de pé, a primeira coisa que
percebi foi que, eventualmente, nem sempre é naqueles em quem mais confiança
depositávamos que vamos encontrar o apoio e a empatia que procuramos, — porque
assumido ou não é a empatia que procuramos sempre. Em compensação, o estímulo
surge muitas vezes de onde não esperávamos, e esta parece ser uma regra
natural. Complicada de compreender, dolorosa de aceitar, que obriga repensar muitos
dos nossos relacionamentos e daquilo que supúnhamos adquirido, mas que por
outro lado nos surpreende agradavelmente já que por todas as portas que não se
abriram quando esperávamos, abrem-se outras desconhecidas, muito mais
valorizadas por nós, por que nos dão votos de confiança sem nos conhecerem. O
tal mergulho para fora de pé, que pode requerer muitos preliminares, pressupõe
que estamos prontos a correr o risco do (in)sucesso, que temos suficiente
confiança no nosso valor e na nossa limitação, e que acima de tudo estamos
dispostos a ir ao encontro dos outros acreditando que a nossa vulnerabilidade pode
encontrar eco na vulnerabilidade do outro. Tudo isto é de uma enorme
fragilidade. Recordo o livro do Rilke Cartas
a um Jovem Poeta em que ele explica que a arte (poesia incluída) nunca
deveria ser recebida com uma crítica, mas antes carinhosamente saudada, pois
implica a exposição do que de mais intimo existe em cada um.
Mas vivemos num mundo cru,
pouco dado a subtilezas, onde o que determina o êxito da nossa produção não é o
seu conteúdo, mas sim a sua forma, ou melhor ainda a capacidade de divulgar e
convencer os outros a interessarem-se pelo que fazemos. Chama-se a esta técnica
marketing e é o que determina a avaliação e valorização do que fazemos. Naturalmente
que a sobrevivência de qualquer mercado depende das suas vendas e as vendas
dependem da divulgação, o problema é que a divulgação/venda assumiu nos nossos
tempos contornos absurdos e muitas vezes abusivos que resultam num permanente bombardeio
de ofertas que gritam e se esgrimam entre elas, ignorando éticas, dispensando
filtros, e que acabam por nos tornar dormentes, indiferentes ou no mínimo confusos.
Quando há um ano procurei
um mercado maior ou menos tacanho para o meu trabalho e tentei os EUA fiquei
chocada com o que encontrei. Basicamente qualquer trabalho que se submeta à
apreciação de um editor deverá fazer-se acompanhar, ou mesmo representar, por
um estudo de mercado que pelos dados apresentados justifique a rentabilidade do
que oferecemos. Longe vão os tempos em que a edição estava ligada à cultura, em
que editar pressupunha acreditar e correr riscos, em que a empatia entre o
autor e o editor definiam uma relação de confiança e um trabalho com riscos e
proveitos repartidos. O editor é hoje um empresário como qualquer outro, cuja
única preocupação é rentabilizar a sua empresa. Fora de causa está o valor
absoluto do produto que oferecemos (que no meu caso, com toda a honestidade e
humildade reconheço que pode ser nulo, o que de qualquer forma é indiferente ao
editor desde que consiga provar que o consigo vender). E fora de causa está também
o reconhecimento de que nada funciona se não for sustentável. Trabalhei muitos
anos com editores e sei que a regra de ouro era conseguirem uns autores de
sucesso e rentabilidade garantida, que lhes permitissem descobrir e arriscar,
sem garantias, em novos valores.
Porque ninguém vive do ar,
é muitas vezes difícil resistir à tentação de tentar agradar para ser aceite. Quando
depois do meu calendário pronto pintei a ilustração que lhe serviria de capa
comecei por ter uma ilustração muito forte que não duvido chamaria a atenção,
mas rapidamente a descartei porque não me identificava, o que me leva à
introdução deste calendário para 2014.
Qualquer trabalho criativo
pressupõe uma escolha.
Ou nos preocupamos com o impacto
que pode ter nos outros, para agradarmos ao maior número possível de pessoas, e
nos protegemos mantendo alguma distância no discurso, ou nos preocupamos em ser
verdadeiros, expondo-nos e correndo o risco da nossa verdade nos isolar.
A segunda opção não é o
caminho mais fácil (nem o mais rentável...), mas é o que acredito vale a pena
percorrer, porque a vulnerabilidade, que tanto nos isola, é também a forma mais
calorosa de nos conectarmos.
Tal como nos calendários
que antecederam este, o que cito e escrevo reflete ideias e emoções que
experimento. Faço-o com a mesma transparência das minhas aguarelas, o meu
compromisso é com a minha autenticidade, que como a de qualquer um é feita de
medo e de coragem, de ilhas e de pontes, de asas e de esperança.
No ano passado, pela
primeira vez aceitei encomendas e vendi calendários, o que provou ser uma boa fórmula, porque como um
rio que mansamente faz o seu trilho e abre afluentes, assim vão chegando os
meus calendários, naturalmente, onde é suposto chegarem.
Mais não posso desejar.
Obrigada por me acompanhar. Bom ano!
terça-feira, 23 de abril de 2013
As lágrimas das coisas
São lágrimas das coisas diz Eneias quando de regresso a Cartago chora ao se
ver-se confrontado com o que perdeu.
A frase é recordada na biografia de uma família de banqueiros austríacos
que durante a Guerra viu o seu extraordinário espólio ser saqueado, destruído e
o que restou de uma imensa fortuna vendido a troco de simples vistos para
fugirem como criminosos, de mãos vazias.
Nada nos pertence verdadeiramente, nem as coisas, nem os bichos, nem as
pessoas. Tudo nos é emprestado por um período de tempo mais ou menos longo,
mais ou menos feliz. Nosso é apenas o que guardamos na cabeça e no coração.
Crescemos associando os «nossos» pertences, à nossa segurança, à nossa
força. Mas é um conceito enganador se pensarmos que nada é mais ilusório do que
a importância que atribuímos às coisas.
Vivemos numa sociedade que nos induz a colecionar e armazenar, o que leva
depois à necessidade de criar espaço e barreiras para guardar, manter e
defender o que possuímos, um caminho absurdo que não só nos estorva os
movimentos e nos torna mais vulneráveis, como nos desvia muitas vezes do
essencial, que é bem mais simples.
O desfazer do «tesouro» tem o seu lado libertador!
Coisas são apenas coisas. Que passam pelas nossas vidas e temporariamente fazem
parte delas, colorindo-as. As que pertenceram à minha família sobreviveram
incólumes a uma revolução e a um incêndio brutal, para partirem agora ao
desbarato. Nada nem ninguém consegue prever o seu destino...
Pensava em tudo isto enquanto meticulosamente alinhava sobre a enorme mesa
de jantar 102 copos de cristal, organizados por seis tamanhos diferentes. Um
serviço dourado com pés altos e facetados de uma beleza digna da mesa de um rei.
Recordei as festas que testemunharam nesta casa e imaginei as festas que iriam
testemunhar noutros ambientes. A vida deles não acaba aqui. Acaba apenas o
tempo em que as nossas vidas coincidiram.
Por quanto se tente ser racional e forte no desmembrar do espólio que nos
acolheu e acompanhou, não é possível faze-lo sem emoção. E cada objecto que vejo embalar e sair leva
consigo um bocadinho de mim, da minha história, das minhas memórias, do que me
trouxe até aqui. As minhas lágrimas das coisas.
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