A vulnerabilidade, que
nos torna indefesos perante a adversidade, é também o que nos torna permeáveis
ao encantamento da vida.
Tropecei por acaso, no
meio das milhentas informações com que as redes sociais nos bombardeiam, numa
investigadora americana que dedicou doze anos de trabalho ao estudo das emoções
negativas que todos conhecemos mas sobre as quais ninguém fala. Na sequência do
seu trabalho, Brené Brown fez uma palestra subordinada ao tema The power of vulnerability gravada e divulgada
no You Tube com um recorde de visionamentos.
A meu ver, o aspecto
mais aliciante da internet é esta facilidade de nos conectarmos, de lançarmos
ideias que outros, em qualquer parte do mundo que entendam a nossa língua, apanham,
digerem e absorvem na sua própria experiência e, eventualmente, recriam e
relançam no ar.
Crescemos e somos
educados a esconder a nossa natural vulnerabilidade, a abafá-la sob sucessivas
camadas que, com o tempo, nos revestem de uma carapaça que nos protege das intempéries,
que nos cria uma aparente proteção contra o medo, a vergonha, a incerteza, a
desilusão, o desgosto, contra tudo o que não queremos sentir, mas que nos assola,
latente, mudo e quedo, no cerne de todos nós. Não queremos ser vulneráveis para não
estarmos expostos a estas emoções, e é verdade que a vulnerabilidade é o centro
das emoções difíceis, mas é também o berço de todas as emoções positivas que
encantam a nossa vida: o amor, a pertença, a alegria, a gratidão e a empatia. Ao
endurecermos para nos defendermos do que nos pode magoar, corremos o risco de
nos tornarmos insensíveis ao que nos pode estimular.
Vivemos num mundo
vulnerável, porventura a sociedade mais endividada, obesa, dependente e
medicada da história da humanidade. Numa insatisfação transversal a classes
sociais e a níveis etários.
Brené Brown justifica este
descontentamento que procuramos compensar, justamente com a dificuldade em
isolar as emoções negativas das emoções positivas. Ao abafarmos numa dormência
forçada sensações que queremos evitar, e que nos tornam vulneráveis, neutralizamos
também a nossa capacidade de sentir e vibrar com o que nos pode alegrar, daí
resulta um mal-estar, uma insatisfação, que tentamos suprir com compras,
alimentos, álcool, drogas, medicamentos, vícios ou dependências cujo prazer
efémero não chega para dar sentido à vida, reforçando antes um ciclo de
dependência e de infelicidade. Até mesmo a religião é muitas vezes utilizada
como um vício e um escape, onde se escondem fragilidades e para onde se escoam frustrações.
Na raiz desta insegurança
que leva as pessoas a fecharem-se sobre si próprias e a baixar uma cortina
protetora sobre as suas emoções, está uma necessidade inconfessada de nos sentirmos
integrados e aceites na nossa teia e o consequente medo/vergonha/presunção da
rejeição, de não estarmos à altura do que se espera de nós, numa sociedade que por um lado nos dá um
modelo absurdo de perfeccionismo assente em comparações – que não só tendem a controlar as
nossas vidas como, pior ainda, controlam o que exigimos aos nossos filhos–, e
por outro nos induz a tomar o incerto por certo, o que significa que em vez de
nos focarmos no que temos e nos corre bem, atormentamo-nos com o que podemos
perder ou nos pode correr mal.
Segundo Brené Brown
constatou no seu estudo através de milhares de entrevistas, aqueles que se
relacionam bem com a vida têm em comum um elevado sentimento de autoestima, que
resulta quer da coragem de assumir a sua imperfeição, desistindo de ser quem
achavam que deveriam ser, para poderem assumir o que que realmente são, quer da
compaixão ou tolerância para com eles próprios e para com os demais.
A verdadeira empatia,
aquela que ultrapassa as relações circunstanciais e superficiais, e se baseia
na comunhão de emoções, é extremamente rara como todos constatamos. Numa
cultura onde as pessoas têm medo de ser vulneráveis não é possível haver
empatia. Para ir ao encontro do que os outros sentem e para abrir caminho para
que os outros venham ao nosso encontro, temos de começar por baixar as armas,
expondo as nossas emoções, correndo riscos, abrindo um trilho na incerteza,
rompendo o filtro das aparências e requer alguma loucura ou pelo menos muita
coragem.
A coragem para sair da
teia, ficando na ribalta, expostos e indefesos, pode partir da crença de que o
que nos faz sentir mais isolados é na verdade o que mais nos liga aos outros, porque
é o que mais temos em comum: a insegurança, o medo, a vergonha: a
vulnerabilidade. Haverá sempre quem desdenhe, quem nos olhe de cima ou de
esguelha com sarcasmo, e esse, que toma essa atitude, é o mais vulnerável. Tão
frágil que não admite a sua insegurança.
A minha experiência
pessoal ensinou-me que às vezes é preciso sermos esmagados pelos acontecimentos
e forçados à rendição para compreendermos que a nossa verdadeira força está na
nossa vulnerabilidade, que revela as nossas imperfeições, as nossas limitações,
mas também descobre as nossas qualidades e a nossa beleza. Que nos obriga a
desistir de tentarmos controlar o que claramente está fora do nosso controlo. A
cultivar um espírito persistente e resistente. A seguir a intuição e a confiar
na fé. Compreendendo que a nossa autenticidade não só não nos isola, como é a
forma mais forte de nos conectarmos. Libertando-nos de preocupações com
aparências ou qualquer estereótipo. Alinhando posições, convicções, valores,
mesmo que não haja garantias. Acreditando que não precisamos de ser mais do que
aquilo que já somos.