terça-feira, 23 de abril de 2013

As lágrimas das coisas


São lágrimas das coisas diz Eneias quando de regresso a Cartago chora ao se ver-se confrontado com o que perdeu.
A frase é recordada na biografia de uma família de banqueiros austríacos que durante a Guerra viu o seu extraordinário espólio ser saqueado, destruído e o que restou de uma imensa fortuna vendido a troco de simples vistos para fugirem como criminosos, de mãos vazias.

Nada nos pertence verdadeiramente, nem as coisas, nem os bichos, nem as pessoas. Tudo nos é emprestado por um período de tempo mais ou menos longo, mais ou menos feliz. Nosso é apenas o que guardamos na cabeça e no coração.
Crescemos associando os «nossos» pertences, à nossa segurança, à nossa força. Mas é um conceito enganador se pensarmos que nada é mais ilusório do que a importância que atribuímos às coisas.
Vivemos numa sociedade que nos induz a colecionar e armazenar, o que leva depois à necessidade de criar espaço e barreiras para guardar, manter e defender o que possuímos, um caminho absurdo que não só nos estorva os movimentos e nos torna mais vulneráveis, como nos desvia muitas vezes do essencial, que é bem mais simples.
O desfazer do «tesouro» tem o seu lado libertador!

Coisas são apenas coisas. Que passam pelas nossas vidas e temporariamente fazem parte delas, colorindo-as. As que pertenceram à minha família sobreviveram incólumes a uma revolução e a um incêndio brutal, para partirem agora ao desbarato. Nada nem ninguém consegue prever o seu destino...

Pensava em tudo isto enquanto meticulosamente alinhava sobre a enorme mesa de jantar 102 copos de cristal, organizados por seis tamanhos diferentes. Um serviço dourado com pés altos e facetados de uma beleza digna da mesa de um rei. Recordei as festas que testemunharam nesta casa e imaginei as festas que iriam testemunhar noutros ambientes. A vida deles não acaba aqui. Acaba apenas o tempo em que as nossas vidas coincidiram.

Por quanto se tente ser racional e forte no desmembrar do espólio que nos acolheu e acompanhou, não é possível faze-lo sem emoção.  E cada objecto que vejo embalar e sair leva consigo um bocadinho de mim, da minha história, das minhas memórias, do que me trouxe até aqui. As minhas lágrimas das coisas.

The power of vulnerability


A vulnerabilidade, que nos torna indefesos perante a adversidade, é também o que nos torna permeáveis ao encantamento da vida.
Tropecei por acaso, no meio das milhentas informações com que as redes sociais nos bombardeiam, numa investigadora americana que dedicou doze anos de trabalho ao estudo das emoções negativas que todos conhecemos mas sobre as quais ninguém fala. Na sequência do seu trabalho, Brené Brown fez uma palestra subordinada ao tema The power of vulnerability gravada e divulgada no You Tube com um recorde de visionamentos.
A meu ver, o aspecto mais aliciante da internet é esta facilidade de nos conectarmos, de lançarmos ideias que outros, em qualquer parte do mundo que entendam a nossa língua, apanham, digerem e absorvem na sua própria experiência e, eventualmente, recriam e relançam no ar.

Crescemos e somos educados a esconder a nossa natural vulnerabilidade, a abafá-la sob sucessivas camadas que, com o tempo, nos revestem de uma carapaça que nos protege das intempéries, que nos cria uma aparente proteção contra o medo, a vergonha, a incerteza, a desilusão, o desgosto, contra tudo o que não queremos sentir, mas que nos assola, latente, mudo e quedo, no cerne de todos nós. Não queremos ser vulneráveis para não estarmos expostos a estas emoções, e é verdade que a vulnerabilidade é o centro das emoções difíceis, mas é também o berço de todas as emoções positivas que encantam a nossa vida: o amor, a pertença, a alegria, a gratidão e a empatia. Ao endurecermos para nos defendermos do que nos pode magoar, corremos o risco de nos tornarmos insensíveis ao que nos pode estimular.

Vivemos num mundo vulnerável, porventura a sociedade mais endividada, obesa, dependente e medicada da história da humanidade. Numa insatisfação transversal a classes sociais e a níveis etários.
Brené Brown justifica este descontentamento que procuramos compensar, justamente com a dificuldade em isolar as emoções negativas das emoções positivas. Ao abafarmos numa dormência forçada sensações que queremos evitar, e que nos tornam vulneráveis, neutralizamos também a nossa capacidade de sentir e vibrar com o que nos pode alegrar, daí resulta um mal-estar, uma insatisfação, que tentamos suprir com compras, alimentos, álcool, drogas, medicamentos, vícios ou dependências cujo prazer efémero não chega para dar sentido à vida, reforçando antes um ciclo de dependência e de infelicidade. Até mesmo a religião é muitas vezes utilizada como um vício e um escape, onde se escondem fragilidades e para onde se escoam frustrações.
Na raiz desta insegurança que leva as pessoas a fecharem-se sobre si próprias e a baixar uma cortina protetora sobre as suas emoções, está uma necessidade inconfessada de nos sentirmos integrados e aceites na nossa teia e o consequente medo/vergonha/presunção da rejeição, de não estarmos à altura do que se espera de nós, numa sociedade que por um lado nos dá um modelo absurdo de perfeccionismo assente em comparações – que não só tendem a controlar as nossas vidas como, pior ainda, controlam o que exigimos aos nossos filhos–, e por outro nos induz a tomar o incerto por certo, o que significa que em vez de nos focarmos no que temos e nos corre bem, atormentamo-nos com o que podemos perder ou nos pode correr mal.

Segundo Brené Brown constatou no seu estudo através de milhares de entrevistas, aqueles que se relacionam bem com a vida têm em comum um elevado sentimento de autoestima, que resulta quer da coragem de assumir a sua imperfeição, desistindo de ser quem achavam que deveriam ser, para poderem assumir o que que realmente são, quer da compaixão ou tolerância para com eles próprios e para com os demais.
A verdadeira empatia, aquela que ultrapassa as relações circunstanciais e superficiais, e se baseia na comunhão de emoções, é extremamente rara como todos constatamos. Numa cultura onde as pessoas têm medo de ser vulneráveis não é possível haver empatia. Para ir ao encontro do que os outros sentem e para abrir caminho para que os outros venham ao nosso encontro, temos de começar por baixar as armas, expondo as nossas emoções, correndo riscos, abrindo um trilho na incerteza, rompendo o filtro das aparências e requer alguma loucura ou pelo menos muita coragem.

A coragem para sair da teia, ficando na ribalta, expostos e indefesos, pode partir da crença de que o que nos faz sentir mais isolados é na verdade o que mais nos liga aos outros, porque é o que mais temos em comum: a insegurança, o medo, a vergonha: a vulnerabilidade. Haverá sempre quem desdenhe, quem nos olhe de cima ou de esguelha com sarcasmo, e esse, que toma essa atitude, é o mais vulnerável. Tão frágil que não admite a sua insegurança.
A minha experiência pessoal ensinou-me que às vezes é preciso sermos esmagados pelos acontecimentos e forçados à rendição para compreendermos que a nossa verdadeira força está na nossa vulnerabilidade, que revela as nossas imperfeições, as nossas limitações, mas também descobre as nossas qualidades e a nossa beleza. Que nos obriga a desistir de tentarmos controlar o que claramente está fora do nosso controlo. A cultivar um espírito persistente e resistente. A seguir a intuição e a confiar na fé. Compreendendo que a nossa autenticidade não só não nos isola, como é a forma mais forte de nos conectarmos. Libertando-nos de preocupações com aparências ou qualquer estereótipo. Alinhando posições, convicções, valores, mesmo que não haja garantias. Acreditando que não precisamos de ser mais do que aquilo que já somos.


quinta-feira, 11 de abril de 2013

Braveheart


Quando o dia chegou estava há muito anunciado, o que nem por isso minimizou a sua dificuldade.
Naquela manhã chuvosa e lamacenta, pouco falámos. Cada um tomou a coragem nas próprias mãos e fez o que era suposto fazer.
Tenho presente a chegada de uma camionete imensa e fisicamente sinistra, que me recordou as imagens de embarque do holocausto.
Tenho presente a segurança com que o criador juntou e completou presencialmente os últimos resenhos dos animais que viu nascer e crescer, que fizeram boa parte da sua vida e que agora encaminhava em plena pujança para a morte. Como sempre acontece, quando se trata de movimentar a manada, pediu silêncio e afastou toda a gente, única excepção aceite para o filho, que de qualquer modo se recusava a abandoná-lo. Quando terminou a sua parte virou costas, e com a mesma tranquilidade, sempre em silêncio, dirigiu-se para casa.
Agora era com o filho. De longe, apenas com a proximidade suficiente para que ele se apercebesse da minha presença, acompanhei a preparação, o embarque, e a complicadíssima acomodação (não sei se lhe poderei chamar assim) dos cavalos. Não conseguia ouvir o que diziam mas assistia a toda a agitação de cavalos e homens que parecia não terminar nunca. Braveheart corria para trás e para diante, para cima e para baixo, até finalmente «entalarem» o último animal, fecharem as portas e partirem. Depois acompanhou o transporte até ao seu destino, no outro extremo do país, cumprindo o compromisso que assumira com o pai de acompanhar pessoalmente o processo até ao fim. Um processo doloroso e esgotante, pontuado por absurdas burocracias, que se arrastou (desde a partida de casa até ao desfecho) por mais de trinta horas. Aguentou firme e sozinho todos os contratempos e só se afastou depois do calvário concluído.

Tudo isto quero um dia esquecer. Para recordar quero guardar esta prova de coragem e de amor. E há também um momento especial que não posso nem quero esquecer, quando de repente o céu cinzento se rasgou para descobrir o Sol, e no meio da desolação de um dos dias mais tristes das nossas vidas deparei com o brilho lilás de uma glicínia em flor sob a qual passava imponente um galo pedrês, sarapintado de preto e branco com uma crista escarlate, um quadro de uma beleza inesperada e redentora, tão contrastante com a devastação das nossas almas, que me fez entender como Deus nos segura quando a resistência chega ao seu limite.