quarta-feira, 6 de março de 2013

Life is not measured by the number of breaths we take, but by the moments that take our breath away!


Toda a noite ouvi o mar em fúria chicotear a costa.
Por isso de manhã, assim que me libertei dos meus compromissos, e ignorando a ameaça dos aguaceiros que intercalavam com um tímido Sol, não resisti a envergar o impermeável para rumar à Boca do Inferno.
Vou percorrendo a costa e não resisto a parar exatamente na Boca do Inferno –nome sugestivo este, imagino que  atribuído num dia como o de hoje – um buraco que o mar escavou nas rochas, onde todos os remoinhos se concentram e confrontam para medir forças e ver quem salta mais alto. É uma visão fascinante. Hoje há redes para dissuadir tentações, mas ao longo dos tempos, muitos encontraram aqui a morte, por acidente ou atraídos pelo abismo. Conta-se que a própria rainha D.Maria Pia, amante destas paragens, ia morrendo afogada juntamente com os infantes, arrastados por uma onda quando contemplavam o espetáculo perto demais.
Continuo o passeio. Mais adiante um casal de estrangeiros ri incrédulo perante este fogo de artifício gratuito. O mar bate na costa, sobe a uma altura incrível e lança uma chuva que ultrapassa todas as distâncias de segurança para nos fustigar a cara. Felicidade suprema, saboreio o sal, e penso que um dia, quando isto e tanto mais forem só memórias mitigadas pelo tempo, esta proximidade do mar, em todos os seus humores, será o que mais falta me fará.
Enquanto observo o ciclo das ondas que se repete sem nunca ser igual, penso que me identifico ora com a água que descarrega a sua fúria e revolta contra quem se atravessa no seu caminho, ora com a rocha que, impotente, vai sendo sovada a intervalos regulares, que não lhe dão tréguas nem tempo para se recompor.
De regresso vejo ao longe o farol da Guia que o sol iluminou para me animar, e questiono-me, como tantas vezes ultimamente, se o segredo estará no apego ao que temos ou no despojo total apregoado por Buda. Tento mentalizar-me para o que me espera. Deixar que o mar devore as coisas que me acompanharam até aqui e de que sou forçada a abrir mão. Sei que do outro lado, eventualmente, encontrarei um lago sereno, ou pelo menos simplificado e aligeirado, mas para lá chegar tenho de ultrapassar a intempérie, que pressupõe um sem fim de escolhas e decisões difíceis, que vou tendo de assumir a sós, dia a dia.
O farol da Guia também faz parte do meu espólio, como a casa que o meu pai construiu perto dele, e que testemunhou mais de quarenta anos da minha vida. Devemos acarinhar as memórias ou seremos mais felizes se as conseguirmos ignorar? Concentrados apenas no presente, será possível?
Volto para casa retemperada. E porque a vida não se mede pela quantidade de inspirações que fazemos, mas pelos momentos que nos inspiram, o mais recente berbicacho de canalizações detectado pela enfermeira da minha mãe esta manhã vai ter de esperar, assim como a decisão se vale a pena continuar a investir na sua fisioterapia. Amanhã decidirei o que mando leiloar a seguir. Que se dane o problema do computador não aceder ao banco on-line. A decisão sobre o livros que vou manter e os que me vou desfazer pode esperar. Hoje não vou pensar na casa e nas coisas que dentro de algum tempo deixarão de ser. Não vou pensar nos animais que vimos nascer e dentro de dias seremos forçados a abater por se terem tornado insustentáveis.
Hoje, decidi, vou comprar freseas, típicas deste mês, que deixaram de ser espontâneas nesta Marinha que também já era, para me perfumarem o ambiente, e vou pintar, o que há muito não faço. Amanhã decidirei sobre o resto.