Um novo calendário está
pronto.
Esta aventura começou já há
alguns anos, timidamente, como quem entra cautelosamente no mar. Primeiro
molham-se os pés, depois avança-se devagar até termos água pela cintura e só
depois de aclimatados mergulhamos. Precisei de sete anos para deixar a minha
zona de segurança (o ciclo de «amigos») e me abalançar no desconhecido. E
quando me atrevi a mergulhar e a nadar para fora de pé, a primeira coisa que
percebi foi que, eventualmente, nem sempre é naqueles em quem mais confiança
depositávamos que vamos encontrar o apoio e a empatia que procuramos, — porque
assumido ou não é a empatia que procuramos sempre. Em compensação, o estímulo
surge muitas vezes de onde não esperávamos, e esta parece ser uma regra
natural. Complicada de compreender, dolorosa de aceitar, que obriga repensar muitos
dos nossos relacionamentos e daquilo que supúnhamos adquirido, mas que por
outro lado nos surpreende agradavelmente já que por todas as portas que não se
abriram quando esperávamos, abrem-se outras desconhecidas, muito mais
valorizadas por nós, por que nos dão votos de confiança sem nos conhecerem. O
tal mergulho para fora de pé, que pode requerer muitos preliminares, pressupõe
que estamos prontos a correr o risco do (in)sucesso, que temos suficiente
confiança no nosso valor e na nossa limitação, e que acima de tudo estamos
dispostos a ir ao encontro dos outros acreditando que a nossa vulnerabilidade pode
encontrar eco na vulnerabilidade do outro. Tudo isto é de uma enorme
fragilidade. Recordo o livro do Rilke Cartas
a um Jovem Poeta em que ele explica que a arte (poesia incluída) nunca
deveria ser recebida com uma crítica, mas antes carinhosamente saudada, pois
implica a exposição do que de mais intimo existe em cada um.
Mas vivemos num mundo cru,
pouco dado a subtilezas, onde o que determina o êxito da nossa produção não é o
seu conteúdo, mas sim a sua forma, ou melhor ainda a capacidade de divulgar e
convencer os outros a interessarem-se pelo que fazemos. Chama-se a esta técnica
marketing e é o que determina a avaliação e valorização do que fazemos. Naturalmente
que a sobrevivência de qualquer mercado depende das suas vendas e as vendas
dependem da divulgação, o problema é que a divulgação/venda assumiu nos nossos
tempos contornos absurdos e muitas vezes abusivos que resultam num permanente bombardeio
de ofertas que gritam e se esgrimam entre elas, ignorando éticas, dispensando
filtros, e que acabam por nos tornar dormentes, indiferentes ou no mínimo confusos.
Quando há um ano procurei
um mercado maior ou menos tacanho para o meu trabalho e tentei os EUA fiquei
chocada com o que encontrei. Basicamente qualquer trabalho que se submeta à
apreciação de um editor deverá fazer-se acompanhar, ou mesmo representar, por
um estudo de mercado que pelos dados apresentados justifique a rentabilidade do
que oferecemos. Longe vão os tempos em que a edição estava ligada à cultura, em
que editar pressupunha acreditar e correr riscos, em que a empatia entre o
autor e o editor definiam uma relação de confiança e um trabalho com riscos e
proveitos repartidos. O editor é hoje um empresário como qualquer outro, cuja
única preocupação é rentabilizar a sua empresa. Fora de causa está o valor
absoluto do produto que oferecemos (que no meu caso, com toda a honestidade e
humildade reconheço que pode ser nulo, o que de qualquer forma é indiferente ao
editor desde que consiga provar que o consigo vender). E fora de causa está também
o reconhecimento de que nada funciona se não for sustentável. Trabalhei muitos
anos com editores e sei que a regra de ouro era conseguirem uns autores de
sucesso e rentabilidade garantida, que lhes permitissem descobrir e arriscar,
sem garantias, em novos valores.
Porque ninguém vive do ar,
é muitas vezes difícil resistir à tentação de tentar agradar para ser aceite. Quando
depois do meu calendário pronto pintei a ilustração que lhe serviria de capa
comecei por ter uma ilustração muito forte que não duvido chamaria a atenção,
mas rapidamente a descartei porque não me identificava, o que me leva à
introdução deste calendário para 2014.
Qualquer trabalho criativo
pressupõe uma escolha.
Ou nos preocupamos com o impacto
que pode ter nos outros, para agradarmos ao maior número possível de pessoas, e
nos protegemos mantendo alguma distância no discurso, ou nos preocupamos em ser
verdadeiros, expondo-nos e correndo o risco da nossa verdade nos isolar.
A segunda opção não é o
caminho mais fácil (nem o mais rentável...), mas é o que acredito vale a pena
percorrer, porque a vulnerabilidade, que tanto nos isola, é também a forma mais
calorosa de nos conectarmos.
Tal como nos calendários
que antecederam este, o que cito e escrevo reflete ideias e emoções que
experimento. Faço-o com a mesma transparência das minhas aguarelas, o meu
compromisso é com a minha autenticidade, que como a de qualquer um é feita de
medo e de coragem, de ilhas e de pontes, de asas e de esperança.
No ano passado, pela
primeira vez aceitei encomendas e vendi calendários, o que provou ser uma boa fórmula, porque como um
rio que mansamente faz o seu trilho e abre afluentes, assim vão chegando os
meus calendários, naturalmente, onde é suposto chegarem.
Mais não posso desejar.
Obrigada por me acompanhar. Bom ano!
Sem comentários:
Enviar um comentário