quinta-feira, 11 de abril de 2013

Braveheart


Quando o dia chegou estava há muito anunciado, o que nem por isso minimizou a sua dificuldade.
Naquela manhã chuvosa e lamacenta, pouco falámos. Cada um tomou a coragem nas próprias mãos e fez o que era suposto fazer.
Tenho presente a chegada de uma camionete imensa e fisicamente sinistra, que me recordou as imagens de embarque do holocausto.
Tenho presente a segurança com que o criador juntou e completou presencialmente os últimos resenhos dos animais que viu nascer e crescer, que fizeram boa parte da sua vida e que agora encaminhava em plena pujança para a morte. Como sempre acontece, quando se trata de movimentar a manada, pediu silêncio e afastou toda a gente, única excepção aceite para o filho, que de qualquer modo se recusava a abandoná-lo. Quando terminou a sua parte virou costas, e com a mesma tranquilidade, sempre em silêncio, dirigiu-se para casa.
Agora era com o filho. De longe, apenas com a proximidade suficiente para que ele se apercebesse da minha presença, acompanhei a preparação, o embarque, e a complicadíssima acomodação (não sei se lhe poderei chamar assim) dos cavalos. Não conseguia ouvir o que diziam mas assistia a toda a agitação de cavalos e homens que parecia não terminar nunca. Braveheart corria para trás e para diante, para cima e para baixo, até finalmente «entalarem» o último animal, fecharem as portas e partirem. Depois acompanhou o transporte até ao seu destino, no outro extremo do país, cumprindo o compromisso que assumira com o pai de acompanhar pessoalmente o processo até ao fim. Um processo doloroso e esgotante, pontuado por absurdas burocracias, que se arrastou (desde a partida de casa até ao desfecho) por mais de trinta horas. Aguentou firme e sozinho todos os contratempos e só se afastou depois do calvário concluído.

Tudo isto quero um dia esquecer. Para recordar quero guardar esta prova de coragem e de amor. E há também um momento especial que não posso nem quero esquecer, quando de repente o céu cinzento se rasgou para descobrir o Sol, e no meio da desolação de um dos dias mais tristes das nossas vidas deparei com o brilho lilás de uma glicínia em flor sob a qual passava imponente um galo pedrês, sarapintado de preto e branco com uma crista escarlate, um quadro de uma beleza inesperada e redentora, tão contrastante com a devastação das nossas almas, que me fez entender como Deus nos segura quando a resistência chega ao seu limite.


Sem comentários:

Enviar um comentário