Quando o dia chegou
estava há muito anunciado, o que nem por isso minimizou a sua dificuldade.
Naquela manhã chuvosa e
lamacenta, pouco falámos. Cada um tomou a coragem nas próprias mãos e fez o que
era suposto fazer.
Tenho presente a chegada
de uma camionete imensa e fisicamente sinistra, que me recordou as imagens de
embarque do holocausto.
Tenho presente a
segurança com que o criador juntou e completou presencialmente os últimos resenhos
dos animais que viu nascer e crescer, que fizeram boa parte da sua vida e que
agora encaminhava em plena pujança para a morte. Como sempre acontece, quando se
trata de movimentar a manada, pediu silêncio e afastou toda a gente, única excepção
aceite para o filho, que de qualquer modo se recusava a abandoná-lo. Quando
terminou a sua parte virou costas, e com a mesma tranquilidade, sempre em
silêncio, dirigiu-se para casa.
Agora era com o filho.
De longe, apenas com a proximidade suficiente para que ele se apercebesse da
minha presença, acompanhei a preparação, o embarque, e a complicadíssima
acomodação (não sei se lhe poderei chamar assim) dos cavalos. Não conseguia
ouvir o que diziam mas assistia a toda a agitação de cavalos e homens que
parecia não terminar nunca. Braveheart corria para trás e para diante, para
cima e para baixo, até finalmente «entalarem» o último animal, fecharem as
portas e partirem. Depois acompanhou o transporte até ao seu destino, no outro
extremo do país, cumprindo o compromisso que assumira com o pai de acompanhar pessoalmente
o processo até ao fim. Um processo doloroso e esgotante, pontuado por absurdas
burocracias, que se arrastou (desde a partida de casa até ao desfecho) por mais
de trinta horas. Aguentou firme e sozinho todos os contratempos e só se afastou depois do calvário concluído.
Tudo isto quero um dia
esquecer. Para recordar quero guardar esta prova de coragem e de amor. E há também
um momento especial que não posso nem quero esquecer, quando de repente o céu
cinzento se rasgou para descobrir o Sol, e no meio da desolação de um dos dias
mais tristes das nossas vidas deparei com o brilho lilás de uma glicínia em
flor sob a qual passava imponente um galo pedrês, sarapintado de preto e branco
com uma crista escarlate, um quadro de uma beleza inesperada e redentora, tão
contrastante com a devastação das nossas almas, que me fez entender como Deus
nos segura quando a resistência chega ao seu limite.

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