Toda a noite ouvi o mar em fúria chicotear
a costa.
Por isso de manhã, assim que me libertei
dos meus compromissos, e ignorando a ameaça dos aguaceiros que intercalavam com
um tímido Sol, não resisti a envergar o impermeável para rumar à Boca do
Inferno.
Vou percorrendo a costa e não resisto a
parar exatamente na Boca do Inferno –nome sugestivo este, imagino que atribuído num dia como o de hoje – um buraco
que o mar escavou nas rochas, onde todos os remoinhos se concentram e confrontam
para medir forças e ver quem salta mais alto. É uma visão fascinante. Hoje há
redes para dissuadir tentações, mas ao longo dos tempos, muitos encontraram aqui
a morte, por acidente ou atraídos pelo abismo. Conta-se que a própria rainha D.Maria
Pia, amante destas paragens, ia morrendo afogada juntamente com os infantes,
arrastados por uma onda quando contemplavam o espetáculo perto demais.
Continuo o passeio. Mais adiante um casal
de estrangeiros ri incrédulo perante este fogo de artifício gratuito. O mar
bate na costa, sobe a uma altura incrível e lança uma chuva que ultrapassa todas
as distâncias de segurança para nos fustigar a cara. Felicidade suprema, saboreio
o sal, e penso que um dia, quando isto e tanto mais forem só memórias mitigadas
pelo tempo, esta proximidade do mar, em todos os seus humores, será o que mais
falta me fará.
Enquanto observo o ciclo das ondas que se
repete sem nunca ser igual, penso que me identifico ora com a água que
descarrega a sua fúria e revolta contra quem se atravessa no seu caminho, ora
com a rocha que, impotente, vai sendo sovada a intervalos regulares, que não
lhe dão tréguas nem tempo para se recompor.
De regresso vejo ao longe o farol da Guia
que o sol iluminou para me animar, e questiono-me, como tantas vezes
ultimamente, se o segredo estará no apego ao que temos ou no despojo total
apregoado por Buda. Tento mentalizar-me para o que me espera. Deixar que o mar
devore as coisas que me acompanharam até aqui e de que sou forçada a abrir mão.
Sei que do outro lado, eventualmente, encontrarei um lago sereno, ou pelo menos
simplificado e aligeirado, mas para lá chegar tenho de ultrapassar a
intempérie, que pressupõe um sem fim de escolhas e decisões difíceis, que vou
tendo de assumir a sós, dia a dia.
O farol da Guia também faz parte do meu
espólio, como a casa que o meu pai construiu perto dele, e que testemunhou mais
de quarenta anos da minha vida. Devemos acarinhar as memórias ou seremos mais
felizes se as conseguirmos ignorar? Concentrados apenas no presente, será
possível?
Volto para casa retemperada. E porque a
vida não se mede pela quantidade de inspirações que fazemos, mas pelos momentos
que nos inspiram, o mais recente berbicacho de canalizações detectado pela enfermeira
da minha mãe esta manhã vai ter de esperar, assim como a decisão se vale a pena
continuar a investir na sua fisioterapia. Amanhã decidirei o que mando leiloar
a seguir. Que se dane o problema do computador não aceder ao banco on-line. A
decisão sobre o livros que vou manter e os que me vou desfazer pode esperar.
Hoje não vou pensar na casa e nas coisas que dentro de algum tempo deixarão de
ser. Não vou pensar nos animais que vimos nascer e dentro de dias seremos
forçados a abater por se terem tornado insustentáveis.

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