Como
membro de uma sociedade que valoriza o sucesso e todos os seus sinais
exteriores, encorajando-nos a protagonizar feitos que atraiam a admiração do
mundo, a exibir bons resultados e a esconder todo o indício de infortúnio como
se de uma vergonha se tratasse, não seria de admirar algumas das reações de
quem me conhece perante um grito de alma onde assumo a minha vulnerabilidade,
no desalento e na esperança, no meu credo sem artifícios. Ao deixar o âmbito de
segurança para me aventurar no desconhecido sabia que iria deixar para trás
muitos «amigos», que não conseguiriam compreender e acompanhar, sem qualquer
garantia de vir a conquistar outros.
Uma das
mais devastadoras experiências que as crises económico-sociais nos proporcionam
é a (re)descoberta das pessoas. Temos recursos inimagináveis para nos adaptarmos
às circunstâncias. Recorrendo ao nosso arquivo de experiência vamos tirando
coelhos da cartola na medida do que nos é imposto, mas nada nos prepara para as
atitudes e reações desconcertantes de quem nos acompanhou em boa parte do
caminho e que julgávamos conhecer.
Porventura
em tempos de bonança vive-se de uma forma artificial e até mesmo hipócrita,
seguindo tabelas e modelos de conduta, que os costumes e a razão aconselham. E
é preciso que as pessoas se sintam encurraladas para revelarem a sua verdadeira
natureza, interesses abafados, invejas disfarçadas, ressentimentos
insuspeitados. Como se só
então se descartassem todas as camadas de conveniência para se chegar ao osso,
e o osso, o âmago, por quanto possa ser
difícil de aceitar nem sempre condiz com a imagem perceptível do exterior.
O
altruísmo, a generosidade desinteressada, a gratidão e a compaixão são
características muito mais raras do que alguma vez imaginámos. Não é difícil e
fica sempre bem assumir determinadas posturas enquanto os interesses próprios não
estão em causa, mas quando os interesses colidem, esquece-se a ética e ignoram-se
os bons costumes, soltam-se garras encolhidas, e segura-se firmemente o ego.
Isto é uma realidade que se aplica tanto às reações colectivas como
individuais.
Há um
ditado chinês que diz que para conhecermos os amigos temos de passar pelo sucesso e pela desgraça. No sucesso avaliamos a quantidade e na desgraça a
qualidade. Este período da minha vida tem sido tão duro quanto revelador e enriquecedor.
Permitiu-me, entre outros, destrinçar o trigo do joio. Onde julgava encontrar
trigo descobri algumas vezes joio e vice-versa também. E assim fui descartando
suavemente o joio e valorizando o trigo. De alguns «amigos» senti a distância
de quem subitamente compreende que já não fala a mesma língua, em compensação, e
para minha surpresa, «from nowhere» surgiram vozes de apoio menos conhecidas ou
mesmo desconhecidas, totalmente inesperadas, espontâneas e muito calorosas. O
reverso da medalha, a sua contrapartida, o lado positivo que anima e
transporta.
Retomando
o fio da meada, o que nos arranca ao conforto e nos lança no incógnito é antes
de mais o instinto de sobrevivência. Quando o barco pega fogo é o oceano, por
quanto assustador se nos apresente, o nosso único escape possível. Significa
que a estrutura que nos apoiou até aqui já não nos serve e que se impõe a
mudança, que começa de fora para dentro e depois de digerida e reinventada acontece
de dentro para fora, alterando parâmetros e diretrizes. Se paralelamente a voz
da minha experiência puder ser o eco de outras experiências, que se sintam mais
acompanhadas, reivindicadas e alentadas, o retorno alimentará a fonte fechando
um círculo perfeito, feito do encontro de vozes anónimas unidas na partilha da
luz e da sombra, a essência daquilo que somos.
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