You know you’ve reached middle
age when your memories are stronger than your dreams!
Detestei fazer quarenta anos. Odiei chegar aos cinquenta. Curiosamente,
avanço com uma insuspeitada tranquilidade e bonomia para os sessenta. Não
porque tenha tido a vida, pessoal e profissional, que idealizei. Não porque me
sinta verdadeiramente realizada. Não porque esteja disposta a sentar-me sobre a
montanha que mal ou bem construi, e a contemplar passivamente o que ficou para
trás. É verdade que as memórias ocupam já um enorme espaço no que penso e no
que sinto. Todos aqueles, cada vez são mais, que cruzei, que me deixaram um
pouco de si, e que não mais encontrarei, mais os que circunstancialmente
fizeram parte de um período da minha vida para se evaporarem como miragens. Mas
continuo a sonhar, e a acreditar que o melhor, o meu melhor, está ainda para
vir. As pessoas, de um modo geral, desencantaram-me e desencantam-me vezes de
mais, mas há mais vida para além dos desencontros.
Tendemos a existir por comparação com os outros, mas só existimos
verdadeiramente quando compreendemos e aceitamos o que de mais profundo existe
em cada um de nós, independentemente do mundo à nossa volta. E este
reconhecimento desencadeia um despertar da consciência que se traduz num novo
olhar, numa nova postura.
A insustentável leveza com que dobro mais uma década está enraizada numa
aceitação honesta daquilo que sou. Hoje, aqui e agora. Não o que já fui. Não o
que gostaria de ter sido. Não o que os outros porventura gostariam e esperariam
que fosse. Mas o que realmente sou. Este assumir das nossas fraquezas,
limitações, aspirações, transformações, exige coragem e tenacidade, mas traduz-se
numa serenidade e confiança sem precedentes, que me dá uma redobrada força para
enfrentar, sob nova perspetiva, as adversidades que não posso controlar e que
insistem em vir ao meu encontro.
Depois de anos de noites atormentadas por problemas que não dependiam de
mim, que ludibriava durante o dia, e me cercavam e asfixiavam no momento em que
apagava a luz, começo finalmente a conseguir a fechar o ciclo de mais um dia procurando
e concentrando-me num aspecto agradável e positivo que esse dia me tenha
proporcionado. Pode parecer básico, mas não é. Nada mas difícil do que
controlar o pensamento. São anos de treino e persistência. A milenar sabedoria
oriental que o diga!
