Passamos grande parte da nossa vida procurando e reforçando o que nos distingue dos outros, construindo o nosso lugar no mundo. Tarde ou nunca descobrimos um dia que muito mais importante do que o que nos separa é aquilo que nos une, a nossa origem comum, o cerne da vida para onde todos convergimos, único capaz de nos transmitir um tão necessário sentimento de pertença, que nos dá paz e nos torna íntegros.
Somos os galhos de uma árvore frondosa, singulares e únicos na nossa forma, mas profundamente iguais no mais íntimo do nosso ser. Qualquer que seja a forma como nos apresentamos e como nos movemos no mundo, para lá do que é visível, nos mais básicos sentimentos de alegria, tristeza, ilusão, desilusão, de aflição ou de medo, não somos diferentes, apenas divergimos no modo como os exprimimos, na voz que lhes damos e que depende da nossa sensibilidade, da nossa experiência e da cultura em que fomos educados.
Tal como os troncos da árvore, ao longo do nosso percurso vamos desenvolvendo afinidades, algumas são afinidades de sangue e resultam da derivação natural dos ramos, outras são afinidades de educação e cultura, outras ainda serão resultado de encontros casuais, temporários ou duradouros. No geral estabelecemos tipos de relacionamento diferentes, que em conjunto constituem o tecido da nossa vida.
Paradoxalmente, quanto mais compreendemos o que nos liga a todos e a tudo o que tem vida, quanto mais diluídos e integrados, mais especiais e diferentes nos sentiremos. A unidade na diversidade, que é uma das leis básicas da natureza, também nos rege a nós, mas para nos assumirmos e validarmos na nossa diversidade, temos antes de humildemente reconhecer o nosso ínfimo lugar no que nos une.
Durante os meus passeios, no campo ou à beira-mar, o calor do sol, o vento gélido, o canto dos pássaros, a luminosidade da atmosfera, as cores, as vozes e os cheiros da natureza, falam-me ao coração e tocam-me a alma, e o bem-estar que me proporcionam resulta desta ligação direta ao centro da vida, às minhas raízes, e da consequente sensação de pertença, de reencontro comigo mesma e com o meu lugar.