segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
Bênçãos
Este foi um Natal diferente, adaptado às circunstâncias, que me levaram a abolir os tradicionais presentes.
Dispensada da habitual provação de tentar equacionar um orçamento limitado com presentes que fizessem sentido e pudessem ainda por cima ser do agrado, respirei fundo e atravessei a quadra com uma ligeireza desconhecida e muito agradável. Abri uma exceção para a cozinha e empenhei-me em tartes, bolos, coockies e múltiplas queimadelas no forno.
No dia 24 estava uma manhã radiosa e preparei-me para visitas de cortesia e distribuição de doçarias. Enquanto me aprontava pensei que seria o meu primeiro Natal sem presentes. Sentiria a falta? Ensombrar-me-ia o dia? Quando saí deparei com uns lírios magníficos acabados de florir à minha porta, que irradiavam uma luminosidade mágica. Respirei a atmosfera e senti-a como uma bênção para o meu Natal, um presente inesperado, que me aqueceu a alma e me transmitiu a serenidade e a esperança que nenhum presente material me poderia dar. Mais adiante a caixa do correio anunciava conteúdo e de novo fui surpreendida com um presente inesperado. Ao longo do dia outras bênçãos foram chegando na forma de palavras, mimos, atenções... Para quem nada esperava, recebi imenso... e sobretudo compreendi como é fundamental o despojo, para livres de espectativas, nos tornarmos verdadeiramente receptivos, capazes de apreciar devidamente pequenos nadas, que na abundância passariam despercebidos e que, no entanto, são as melhores dádivas, e as mais autenticas bênçãos.
sábado, 17 de dezembro de 2011
blog
A ideia de criar um blog tem alguns anos. Precisei de tempo para definir o que faria sentido. Para o estruturar em termos de forma e conteúdo.
Dispomos hoje de múltiplas possibilidades de expressão. As mais acessíveis, as redes sociais, são instrumentos eficazes para criar elos de ligação ou para passar um anúncio, mas nunca serão lugares de reflexão, mesmo quando sugerem uma reflexão. Para isso precisamos de um espaço mais estável, sem dispersão.
O blog pode funcionar como um memorando, registo de ideais avulso, ou um prelúdio de qualquer coisa que se publica de forma mais perene.
É sempre uma alternativa viável na impossibilidade de outras formas de publicação.
Obriga a sintetizar ideias e a economizar palavras, uma disciplina que me agrada.
E sobretudo permite ter, eventualmente, algum feedback direto. Embora trabalhe essencialmente por mim e para mim, o prazer que tenho em sentir que a minha experiência pode inspirar ou sensibilizar outra pessoa é diretamente proporcional ao prazer que sinto quando qualquer outro me inspira e sensibiliza com as suas ideias.
Esta facilidade em partilhar o que nos toca, que permite uma sensação de pertença e de participação, tão genuinamente humana e desejada, é o melhor que o mundo virtual nos pode oferecer, e é a razão de ser deste percurso que inicio aqui e agora. O timing, sem querer, acabou por ser perfeito, corresponde ao fechar do ciclo de um ano e ao começo de um outro, que se pretende seja enriquecedor...
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
Children
Your children are not your children.
They are the sons and daughters of Life's longing for itself.
They come through you but not from you,
And though they are with you yet they belong not to you.
You may give them your love but not your thoughts,
For they have their own thoughts.
You may house their bodies but not their souls,
For their souls dwell in the house of tomorrow,
which you cannot visit, not even in your dreams.
You may strive to be like them, but seek not to make them like you.
For life goes not backward nor tarries with yesterday.
You are the bows from which your children as living arrows are sent forth.
The archer sees the mark upon the path of the infinite,
and He bends you with His might that His arrows may go swift and far.
Let your bending in the archer's hand be for gladness;
For even as He loves the arrow that flies, so He loves also the bow that is stable.
They are the sons and daughters of Life's longing for itself.
They come through you but not from you,
And though they are with you yet they belong not to you.
You may give them your love but not your thoughts,
For they have their own thoughts.
You may house their bodies but not their souls,
For their souls dwell in the house of tomorrow,
which you cannot visit, not even in your dreams.
You may strive to be like them, but seek not to make them like you.
For life goes not backward nor tarries with yesterday.
You are the bows from which your children as living arrows are sent forth.
The archer sees the mark upon the path of the infinite,
and He bends you with His might that His arrows may go swift and far.
Let your bending in the archer's hand be for gladness;
For even as He loves the arrow that flies, so He loves also the bow that is stable.
Kahlil Gibran
domingo, 4 de dezembro de 2011
Maternidade
They come through you, yet they don't belong to you...
Trazemos filhos ao mundo; embalamos-lhes o sono; deslumbramo-nos com as primeiras palavras; amparamos-lhes os primeiros passos; consolamos-lhes os desgostos; vibramos com as suas alegrias; acalmamos os seus pesadelos; guiamos os primeiros estudos; ajudamos a tecer as primeiras asas e ensinamos a voar.
Trazemos filhos ao mundo; embalamos-lhes o sono; deslumbramo-nos com as primeiras palavras; amparamos-lhes os primeiros passos; consolamos-lhes os desgostos; vibramos com as suas alegrias; acalmamos os seus pesadelos; guiamos os primeiros estudos; ajudamos a tecer as primeiras asas e ensinamos a voar.
Começam com voos curtinhos, ainda sob a nossa vigilância, depois um dia partem num voo longo e definitivo deixando-nos um vazio e uma tristeza inexplicáveis.
Alguns voarão sempre baixinho, sem sobressaltos. Outros escolhem desafios impossíveis, sempre mais longe, mais alto, em audaciosas acrobacias, que nós acompanhamos, impotentes, à distância, vendo-os cair sem lhes podermos amparar as quedas, sangrar sem lhes podermos lamber as feridas, vendo-os erguerem-se magoados, para se lançarem de novo no vazio incógnito do destino.
O primeiro dia de escola
Todos o gestos eram medidos e calculados.
Enquanto lhes escovava os cabelos, aparava franjas e controlava as unhas, contava-lhes histórias e inventava graças, tentando a todo o custo disfarçar a angústia que no meu coração e no deles antecipava o primeiro dia de escola.
Levantara-me bem cedo nessa manhã, para que tudo se processasse com a maior tranquilidade possível.
Falámos de tudo, menos daquilo que nos afligia.
O percurso até à escola decorreu com a mesma aparente leveza de todos os preparativos.
Ao transpor-mos o portão da entrada senti duas mãozinhas a apertar fortemente as minhas. O meu coração vacilou mas aquelas mãos pequeninas criavam coragem e davam-me coragem.
Despedimo-nos com um sorriso, um beijo, uma festa.
Vi-os virarem-me as costas e avançar ao encontro do desconhecido sem hesitações, engolindo todos os temores, com a dignidade sublime que só as crianças conseguem ter, entregues a si próprios, no primeiro dia do resto das suas vidas.
Fiquei a vê-los desaparecerem e quando transpus novamente o portão de entrada, eu, muito menos nobre e corajosa do que eles, dei livre curso às lágrimas que me inundavam a alma.
São hoje adultos, mas não esquecerei aquele dia, assim como não esqueço a minha, bem menos digna e mais traumática, apresentação à escola. Arrancada à força dos braços do meu pai. A minha aflição e a angústia no seu olhar.
Passaram muitos anos mas ainda me debato muitas vezes inconformada contra a inserção num mundo estereotipado para o qual nunca me senti geneticamente moldada.
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