domingo, 4 de dezembro de 2011

O primeiro dia de escola

Todos o gestos eram medidos e calculados.
Enquanto lhes escovava os cabelos, aparava franjas e controlava as unhas, contava-lhes histórias e inventava graças, tentando a todo o custo disfarçar a angústia que no meu coração e no deles antecipava o primeiro dia de escola.
Levantara-me bem cedo nessa manhã, para que tudo se processasse com a maior tranquilidade possível.
Falámos de tudo, menos daquilo que nos afligia.

O percurso até à escola decorreu com a mesma aparente leveza de todos os preparativos.
Ao transpor-mos o portão da entrada senti duas mãozinhas a apertar fortemente as minhas. O meu coração vacilou mas aquelas mãos pequeninas criavam coragem e davam-me coragem.
Despedimo-nos com um sorriso, um beijo, uma festa.

Vi-os virarem-me as costas e avançar ao encontro do desconhecido sem hesitações, engolindo todos os temores, com a dignidade sublime que só as crianças conseguem ter, entregues a si próprios, no primeiro dia do resto das suas vidas.

Fiquei a vê-los desaparecerem e quando transpus novamente o portão de entrada, eu, muito menos nobre e corajosa do que eles, dei livre curso às lágrimas que me inundavam a alma.

São hoje adultos, mas não esquecerei aquele dia, assim como não esqueço a minha, bem menos digna e mais traumática, apresentação à escola. Arrancada à força dos braços do meu pai. A minha aflição e a angústia no seu olhar.
Passaram muitos anos mas ainda me debato muitas vezes inconformada contra a inserção num mundo estereotipado para o qual nunca me senti geneticamente moldada.

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